
Essa noite, você dorme comigo!
Capítulo 2
Karina
Eu congelo na esteira e encaro o homem lá fora encostado em seu carro.
É ele.
Polegar está de volta, e mais lindo que nunca. Sinto as borboletas fazerem festas no meu estômago, enquanto ele sorri e entra no carro negando com a cabeça. E então, eu voltei anos atrás, quando eu era completamente apaixonada por ele. Um amor bobo e platônico, ao ponto de eu tatuar seu nome em minha virilha, para que eu pudesse de alguma forma, sentir ele mais perto de mim.
— Ele estava olhando pra mim? — ouço Kezia, a menina que sempre malhava tão cedo como eu, perguntar — caramba, faz muito tempo que não vejo ele.
— Acho que sim, amiga. Ele estava te encarando e sorrindo… — Rose afirma.
Meu coração amolece na hora e eu quase sinto ele soltar no peito e cair no chão. É óbvio que ele não estava me olhando, o polegar sempre teve todas e qualquer mulher em suas mãos, ele jamais olharia para mim. E por que olharia? Não tenho nada para oferecer o que um homem realmente quer. Um rostinho bonito e um corpo leve para que ele pudesse levantar a qualquer momento.
Limpo o suor que escorre em minha testa e então, desço da esteira, sentindo minhas pernas bambas. Não estou em processo de emagrecimento, sou satisfeita com meu corpo mesmo quando me olham atravessado por eu usar um short tão curto. Por muito tempo, os quilos a mais que eu tenho, já me deixou incomodada. Por eu não conseguir achar roupas que me servissem com facilidade, ou por eu achar que tal roupa ficaria melhor se eu fosse magra, mas eu estava errada. Fiz uma bateria de exames e descobri que minha saúde é ótima, não tenho um problema sequer, as atividades físicas são para que eu não vire uma extrema sedentária.
Analiso meu cabelo molhado de suor pelo espelho, e suspiro… Merda!
Não era pra ele ter voltado, eu já havia esquecido de sua existência, e agora me sinto como uma adolescente que se apaixonou por ele poucos anos atrás.
— Karina? — ouço Rose, minha amiga, me chamar — você viu quem voltou?
— Não… — me faço de desentendida — quem?
— Polegar. Como não viu? Ele estava parado bem de frente para você, olhando para dentro. — me viro tomando a água da minha garrafinha e fitando o céu laranja, já amanhecendo — Kezia jurou que ele estava olhando para ela, eu só fiz sustentar seu ego.
— Talvez ele estivesse!
— Tá brincando? — o ombro de Rose sobe e desce em uma respiração cansada, e ela me encara — ele estava olhando para você, fixamente desde a hora em que parou o carro. Você nem sequer notou!
— Por que ele olharia para mim, Rose? Passo despercebida aos olhos de polegar e qualquer um desse morro, desde que eu sou uma adolescente.
— Karina, polegar era muito mais velho que você. Óbvio que ele não olharia, você era uma criança para ele. Você tem que parar de achar que as pessoas não irão te querer por causa do seu corpo… — minha amiga alisou minha bunda, me fazendo sorrir e então, dá um belo tapa e eu fecho a cara pra ela — olha esse rabao, você é linda, gostosa. Se eu fosse homem, com certeza gostaria de ter uma chance.
— Ele ainda continua sendo mais velho que eu, e tendo qualquer mulher aos seus pés. Imagina agora? — Rose revira os olhos e bufa — é sério, amiga. Passei os olhos e vi o quanto ele mudou, está mais…
— Gostoso? — ela pergunta e eu afirmo com a cabeça — também, e olha isso…
Ela desbloqueia o celular, praticamente enfiando dentro da minha cara para me mostrar uma foto dele. Com um cigarro entre os lábios, sem camisa, em cima de uma Lamborghini vermelha, com o corpo coberto de tatuagens e dois enormes cachorros ao seu lado.
— Tá, eu já entendi — afirmo, pego minha bolsa no chão e guardo todos meus pertences e coloco a bolsa no ombro — vou pra casa, preciso tomar um banho e subir pra escola. Estou no lugar na Ane.
— O que aconteceu com ela?
— Pariu. Pegou 6 meses de licença maternidade, então estou dando aula em seu lugar.
— Boa sorte — Rose fala tomando um gole de sua água — dar aula para crianças deve ser um porre.
— Que nada, eles são um amor — me afastando, pego o celular da bolsa sentindo ele vibrar — te vejo mais tarde.
Ela afirma com a cabeça e eu saio, coloco os fones no ouvido e volto a subir o morro para minha casa novamente.
Moro sozinha desde os meus 17 anos, quando minha mãe desceu para morar perto da praia, pois ela trabalha por lá, e eu quis ficar aqui. No início, ela mandava dinheiro para pagar as contas, enquanto eu terminava os estudos, mas quando comecei a trabalhar, disse a ela que não precisava.
Me formei no magistério e estou apta para dar aula no ensino fundamental 1, do primeiro ao quinto ano, e no momento estou substituindo uma professora que está de licença, mas eu já tenho minha vaga garantida quando ela voltar, e eu continuar trabalhando na escola.
Sinto uma leve mão em meu ombro, e me viro em pulo.
— Que susto, Tuca. Você não pode chegar assim.
Tuca é meu amigo desde o ano passado, a gente se aproximou quando eu precisava montar um projeto social aqui na favela, e ele me ajudou com isso, desde então, somos amigos.
— Po, tô morto de gritar e tu não escuta, abaixa isso. Tá afim de ficar surda? — sua respiração cansada e o fuzil atravessado em suas costas, quase mais pesado que ele — o projeto vai ter que ser cancelado esse ano, o chefe voltou e tu precisava da aprovação dele.
— Sério? — ele afirma com a cabeça — que merda, eu já tinha tudo programado. Será que você não consegue conversar com ele?
— Eu? — ele me encara e eu sinalizado balançando a cabeça — mano, eu sou um bandido, qual foi Karina. Ele arranca meu pescoço se eu for torrar a paciência dele com um bagulho desse, por que tu não fala com ele?
— Porque eu não faço ideia de quem seja o chefe daqui, eu nunca nem vi ele.
— Como não? — franzi o cenho e ele enruga o nariz — tá de marola… Polegar po, mano de volta e agora é o novo chefe. Coroa dele não está presente, então ele vai ficar no comando por um tempo.
— O que?
— É isso mesmo!
— Então cancela o projeto! — afirmo — arrumo outra coisa para as crianças fazerem.
— Fala com ele, po. Da o papo maneiro e se pá, ele até ajuda, questão de dinheiro e essas coisas.
— Não.
— Por que? — nego com a cabeça mais uma vez e Tuca se afasta sorrindo — tu ainda é apaixonada naquele comédia?
— Que? Claro que não. Eu nunca tive intimidade com ele. Com que cara chego nele agora?
— Momento certo, baixinha. Ele não é mais um jovem emocionado, tem um compromisso enorme nas costas e agora é tudo na base da conversa. Posso dizer que tu quer falar com ele…
— Não… eu resolvo isso, mas não agora, ok? Preciso dar aula e já estou atrasada. Mais tarde a gente se fala!
— Te mando uma mensagem, e tu me avisa se ainda quiser seguir com o projeto, para você trocar uma ideia maneira com ele.
— Tá bom!
Chego em casa em um pulo, tomo um banho rápido e visto minha roupa. Uma calça jeans, camisa branca e meu tênis. Prendo meu cabelo em um coque pois não daria tempo de lavar e secar, faço isso quando voltar para casa, então saio.
Gosto de dar aula de manhã, pois a hora passa mais rápido, especialmente nas sextas, quando os alunos saem mais cedo.
Estou sentada na mesa, com a camisa toda suja de tinta que eu sei que não irá sair, mas sorrio sozinha enquanto Davi, o último aluno espera alguém vir buscar.
— Davi, senta aqui perto da tia!
— Estou esperando meu tio, vi ele hoje e ele disse que vinha me buscar. — ele afirma.
Minha turma é do terceiro ano, alunos de 8 anos que amam pintar, não é bem nessa idade que desenvolvemos a coordenação motora, mas chamamos a sexta feira de dia do lixo, onde passamos a manhã brincando, e eles amam.
— Bom dia… — ouço a voz rouca falar, e nem me dou o trabalho de levantar a cabeça para saber de quem é, reconheceria a quilômetros de distância e automaticamente, meu corpo inteiro se arrepia — vim buscar o Davi.
— Ah! — sinto minha garganta se fechar quando encaro o homem parado na porta com os braços cruzados, ele sorri de lado e eu engulo a saliva com dificuldade — tudo bem, pode avisar a mãe dele que não haverá aula na segunda? É feriado.
— Aviso! — ele alisa o topo da cabeça de Davi que está concentrado em terminar sua cartinha para me dar, que mal percebe a presença de polegar na sala. Então ele se aproxima, coloca as duas mãos em cima da mesa, inclinando seu corpo por cima dela, quase fazendo nossos rosto se chocarem — me disseram que você queria falar comigo… — Tuca, sempre tomando decisões por mim — mas então, se Maomé não vai até a montanha, montanha vem até Maomé.
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