
Esmeraldas Quebradas, Alma Reconstruída
Capítulo 2
A música alta do jantar anual da empresa zumbia nos meus ouvidos, mas o único som que eu realmente ouvia era a batida descompassada do meu próprio coração. Eu segurava a taça de vinho com os dedos um pouco trêmulos, observando meu marido, Lucas, no palco. Ele estava radiante sob as luzes, o CEO carismático que todos admiravam.
Naquela noite, eu usava um vestido simples, mas em volta do meu pescoço, sentia o peso reconfortante do colar de esmeraldas. Era a última joia que meu pai, o mestre joalheiro mais renomado do país, havia criado antes de falecer. Ele o fez para mim, cada pedra polida com o amor de uma vida inteira. Para mim, não era uma joia, era a materialização da sua presença, um tesouro que guardava sua alma.
Lucas começou a falar sobre os destaques do ano, sobre o crescimento da empresa, e então sorriu, um sorriso que um dia me fez apaixonar, mas que agora parecia frio e calculado.
"E para celebrar o talento emergente em nossa empresa, tenho um prêmio especial esta noite," ele anunciou, sua voz ressoando pelo salão. "Um prêmio para uma estagiária que demonstrou uma dedicação e um potencial incríveis."
Meu estômago se revirou. Eu sabia de quem ele estava falando. Camila. A jovem estagiária que o seguia como uma sombra, cujos olhos brilhavam de uma forma nada profissional sempre que ele estava por perto.
"Camila, por favor, suba ao palco."
Camila caminhou até ele, o rosto corado de um jeito ensaiado. Ela usava um vestido vermelho que era um pouco ousado demais para um evento corporativo. Lucas a esperava com um sorriso largo.
Então, algo terrível aconteceu. Algo que congelou o sangue nas minhas veias.
Lucas tirou do bolso uma pequena caixa de veludo. Não a caixa que ele deveria usar. Era uma caixa que eu não reconhecia. Mas o que ele tirou de dentro dela... eu reconheci imediatamente.
Era o meu colar. O colar do meu pai.
Meu ar sumiu. Como ele pegou? Estava no meu cofre. Ele não tinha a senha. Tinha?
Lucas, com uma naturalidade assustadora, colocou o colar de esmeraldas no pescoço de Camila, bem ali, na frente de todos, na frente de mim. A plateia aplaudiu, sem entender o drama silencioso que se desenrolava.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu me levantei, a cadeira arrastando ruidosamente no chão. O som fez algumas cabeças se virarem na minha direção.
Eu caminhei até o palco, meu corpo se movendo por pura incredulidade. Camila estava lá, exibindo o colar, tocando as esmeraldas com um sorriso triunfante. Ela me viu chegando e seu sorriso se alargou.
"Sofia," ela disse, a voz falsamente doce. "Olha o que o Lucas me deu. Não é lindo?"
Meu coração parecia estar sendo esmagado. Olhei para Lucas, buscando uma explicação, qualquer coisa que fizesse sentido.
"Lucas, o que você fez?" minha voz saiu como um sussurro rouco. "Esse é o colar do meu pai."
Ele me olhou com uma indiferença que doeu mais do que um tapa.
"É só um colar velho, Sofia, quanto pode valer?" ele disse, alto o suficiente para que as pessoas mais próximas ouvissem. "Não seja dramática. É um gesto para incentivar os novos talentos."
A humilhação me atingiu como uma onda. Um colar velho. As últimas palavras do meu pai transformadas em metal e pedra, chamadas de "um colar velho".
Camila riu, um som agudo e maldoso.
"Oh, Sofia," ela disse, com um tom de falsa pena. "Não fique assim. É só um objeto."
E então, com um movimento deliberado, ela arrancou o colar do pescoço. Meus olhos se arregalaram em pânico.
"Não!" eu gritei.
Mas era tarde demais. Ela o jogou no chão de mármore com força.
O som das esmeraldas se estilhaçando ecoou no silêncio que se formou de repente. Pequenos fragmentos verdes se espalharam pelo chão branco, brilhando tragicamente sob as luzes.
"Ops," Camila disse, cobrindo a boca com a mão. "Que pena, Sofia. Um colar tão bonito, estragado."
Eu caí de joelhos, sem me importar com o vestido, com as pessoas olhando. Minhas mãos tremiam enquanto eu tentava juntar os cacos. Cada fragmento que eu tocava parecia queimar minha pele. Eu podia sentir meu pai ali, sua memória sendo profanada, destruída.
Lucas não se moveu para me ajudar. Em vez disso, ele passou o braço pelos ombros de Camila, abraçando-a protetoramente.
"Não se preocupe, Camila," ele disse, a voz suave para ela, mas cada palavra era uma facada para mim. "Eu te dou um novo. Coisas de gente morta dão azar."
Ele se virou e começou a se afastar com ela, sem sequer olhar para trás uma última vez.
Vendo as costas deles se afastando, o casal perfeito sob os olhares confusos dos convidados, algo dentro de mim mudou. A dor, a tristeza, a humilhação... tudo começou a se transformar em uma raiva fria e cortante.
Apertei os fragmentos do colar na minha mão, sentindo as bordas afiadas cortarem minha palma. O sangue se misturou ao pó verde das esmeraldas.
Eu apertei meus punhos.
Parece que está na hora de reaver os projetos de design que eu cedi para a empresa de Lucas. Todos eles.
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