
Esmeraldas Quebradas, Alma Reconstruída
Capítulo 3
Voltei para casa naquela noite, mas a casa parecia vazia e fria, um mausoléu para as memórias de um casamento que acabara de morrer. Na minha oficina, sob a luz forte de uma luminária de mesa, espalhei os fragmentos do colar sobre um pano de veludo preto.
Tentei por horas. Com minhas pinças mais delicadas e a lupa de joalheiro, tentei ver se alguma coisa poderia ser salva. Mas a destruição foi intencional, brutal. As pedras principais estavam rachadas ao meio, as menores, pulverizadas. O ouro da corrente estava torcido e quebrado. Era inútil. Cada pedaço quebrado era um lembrete da traição de Lucas e da maldade de Camila. A dor era uma pressão constante no meu peito, uma ferida que não podia ser consertada, assim como o colar.
Lucas não voltou para casa naquela noite. Nem na noite seguinte.
Ele não atendeu minhas ligações, não respondeu minhas mensagens. O silêncio dele era uma confissão, uma confirmação de que ele não se importava, que ele havia me descartado junto com o colar. A solidão e o abandono alimentavam a raiva que crescia dentro de mim.
No terceiro dia, liguei novamente. Desta vez, para minha surpresa, alguém atendeu.
Mas não era a voz de Lucas.
"Alô?" A voz era feminina, melosa e inconfundivelmente a de Camila.
Meu corpo inteiro ficou rígido. A audácia dela me deixou sem fôlego por um segundo.
"Onde está o Lucas?" perguntei, minha voz saindo fria e controlada, apesar da fúria que fervia por dentro.
"Ah, Sofia. O Lucas está ocupado agora," ela respondeu, com um tom de diversão. "Ele está no banho. Quer deixar recado?"
A provocação era tão explícita, tão descarada. Ela queria que eu soubesse. Ela queria me machucar.
"Passe o telefone para ele. Agora," eu disse, a autoridade na minha voz surpreendendo até a mim mesma.
Ouvi um barulho, e a voz de Camila ficou mais distante, como se ela tivesse coberto o bocal. "Amor, é a sua esposa. Ela parece brava." Depois, uma risadinha.
Meu sangue gelou. "Amor".
Lucas finalmente pegou o telefone. Sua voz estava irritada.
"O que você quer, Sofia? Eu não te disse para não ser dramática?"
"Onde você está, Lucas?"
"Não te interessa. O que é tão importante que você precisa que a Camila atenda meu telefone?" ele disse, virando a culpa para mim.
"Eu quero que ela pague pelo colar que destruiu," eu disse, direta. "Aquele colar tem um valor que ela nunca vai entender, mas o valor material, ela vai pagar. Cada centavo."
Houve uma pausa. Eu podia quase ouvi-lo revirar os olhos.
"Você está falando sério? Por causa daquele pedaço de lixo velho? A Camila não fez por mal, foi um acidente."
"Um acidente?" Eu ri, um som amargo e sem alegria. "Ela o jogou no chão, Lucas! Na minha frente! Ela sorriu enquanto fazia isso!"
"Ela ficou nervosa porque você a confrontou na frente de todo mundo! Você a humilhou!"
A lógica distorcida dele me deixou atordoada. Eu o humilhei?
"Lucas, aquele colar era a última coisa que meu pai me deu," minha voz falhou, a emoção finalmente quebrando minha fachada de frieza. "Era a coisa mais preciosa que eu tinha. Tinha o trabalho da vida dele, o amor dele. Você sabia disso. Você sabia o quanto significava para mim."
Eu esperava uma faísca de remorso, um pingo de humanidade. Mas não veio.
"Deixa de drama. Meu pai morreu e eu superei. Você também deveria," ele respondeu, com uma crueldade inacreditável.
De repente, ouvi um choro falso no fundo. Camila.
"Lucas... ela está me assustando," a voz dela soou chorosa e fraca. "Eu não queria quebrar... eu só... eu estava com medo..."
A performance era digna de um prêmio.
Imediatamente, o tom de Lucas mudou. A irritação dele comigo se transformou em preocupação por ela.
"Calma, meu bem, calma. Não chora," ele disse, a voz cheia de uma ternura que ele não usava comigo há anos. "Não foi sua culpa."
Ele voltou a falar comigo, e a raiva em sua voz era palpável.
"Você ouviu isso, Sofia? Você a fez chorar. Você está feliz agora? Deixe-a em paz. Esqueça o maldito colar. Eu compro outro para você."
"Eu não quero outro colar, Lucas! Eu quero o meu! O que você deu para a sua amante e ela destruiu!" eu gritei, a represa finalmente se rompendo.
"Chega! Eu não vou mais discutir isso com você," ele disse, ríspido. "Você está agindo como uma louca. A Camila é só uma menina, ela está assustada. Tenha um pouco de decência."
"Uma menina?" cuspi as palavras. "Ela tem idade suficiente para dormir com o marido de outra pessoa e destruir as coisas dela!"
"Eu já disse, chega!" ele gritou, e então desligou o telefone na minha cara.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Fiquei parada no meio da minha oficina, o telefone ainda na minha mão, o coração batendo forte de raiva e dor. Ele a defendeu. Ele me culpou. Ele me chamou de louca.
A imagem de Camila, com suas lágrimas de crocodilo, e Lucas, correndo para confortá-la, se gravou na minha mente. A injustiça era tão grande, tão sufocante.
Eu olhei para os fragmentos do colar na mesa.
A raiva não era mais suficiente. Eu precisava de mais. Eu precisava de justiça. E eu ia conseguir, não importava o custo.
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