
Enzo - Sedução em Pessoa
Capítulo 2
JENNA
Presente
Meus olhos quase se fecham e tento me concentrar na aula do treinador Long sobre o Teorema Raiz Racional, mas está cada vez mais difícil. Ontem à noite, Cora ficou acordada chorando a noite toda. Ela está propensa a infecções de ouvido e quando fica como estava na noite passada, sei que está doente. Se dependesse de mim, eu a levaria direto ao médico. Mas não é comigo. Tenho que convencer minha mãe adotiva, Juanita, que ela precisa ir.
Distraidamente, esfrego o hematoma no meu bíceps. Juanita é idosa e usa uma bengala. E não acho que a bengala é realmente para andar. Fui atingida por sua bengala estúpida mais vezes do que gostaria de admitir, mas fico feliz em entrar na frente daquela bengala todo tempo para impedi-la de bater em Cora ou nos garotos. Malachi e Xavier apanham muito com a bengala. Cora é pequena o suficiente para se esconder atrás de um de nós, graças a Deus.
Meus olhos ardem por falta de sono, e eu bocejo. Posso me sentir caindo, pensando em como ela estava quente esta manhã.
“... Fatores do coeficiente líder...” Treinador Long continua.
Depois da escola, preciso me apressar. O consultório do pediatra fecha às 16h. Preciso de tempo para ir de ônibus para casa, acender o fogo para Juanita e levar Cora para uma consulta. Ela precisa de antibióticos.
Outro bocejo muito grande faz meus olhos lacrimejarem.
Conheci Cora quando ela tinha apenas cinco meses. É como se o sistema de adoção nos unisse, porque depois disso saltamos de casa em casa juntas. Cora e eu ficamos com Amanda e Blake por alguns meses até que eles informaram a todos que adotariam Ryder e Rex antes de deixarem de ser pais adotivos para sempre. Deus estava levando-os a adotar, eles disseram. Seguiriam outro caminho, eles explicaram. Cora e eu não devíamos estar nesse caminho, então Katrina nos levou para outro lugar. Outra casa, outro dia.
Tento não ter pensamentos amargos em relação a Katrina. Não é culpa dela nos mudar para outro Estado. No entanto, ela é apenas mais um adulto que nos abandonou. Cora e eu fomos designadas para um novo assistente social.
Lorenzo Tauber.
Fechando os olhos, não posso deixar de pensar nele. O Sr. Tauber é sexy. Não há como ignorar isso. Quando ele se apresentou como meu novo assistente social, eu ri na cara dele. O cara parecia mais adequado para uma fodida passarela, não para cuidar de crianças indesejadas. Ele tem sido nosso assistente social há vários meses, e eu fiquei envergonhada por ele fazer parte da transição da nossa última casa para a de Juanita. Ainda lembro da maneira triste como ele me olhou. Como se, pela primeira vez na minha vida, alguém pudesse se importar o suficiente para fazer algo permanentemente útil em minha vida.
Mas então ele foi embora. Deixando Cora e eu com apenas algumas palavras de encorajamento. Como se suas palavras pudessem consertar tudo.
“Aguente aí.”
Deixo escapar um riso irônico que me ganha um olhar de advertência do treinador Long. Vários alunos riem da minha explosão.
Tauber estava errado embora. Suas palavras não fizeram nada. Ele nos deixou com Juanita e sua estúpida bengala.
Minha cabeça lateja levemente e esfrego as têmporas, fechando os olhos. Um dia, daqui a dois meses, completarei dezoito anos e sairemos dali. Eu adotarei Cora e nos mudaremos para um lugar feliz. Ela pode ter todos os biscoitos que quiser e nunca lhe direi não. Passaremos nossos dias balançando, perseguindo grilos e cantando músicas.
“Detenção, senhorita Pruitt. Depois da escola.”
Pisco os olhos e encaro o homem me olhando. “O-o quê?”
“Você parece achar que rir na minha aula e depois dormir é aceitável. Não na minha aula”, ele resmunga, antes de voltar para a frente da sala de aula.
Lágrimas surgem e eu me sento abruptamente. Não posso ficar depois da escola. Tenho que voltar para Juanita e convencêla a levar Cora ao médico. É uma péssima hora.
Se perdermos a consulta com o médico hoje, a temperatura de Cora continuará aumentando. Ela vai chorar de dor sem parar. Tudo pode ser evitado se esses adultos acordarem. Uma lágrima corre pela minha bochecha e rapidamente a seco. Uma garota chamada Winter franze a testa para mim. Ela geralmente é a criadora de problemas na aula do treinador. Posso falar às vezes, mas nunca comprometo meu tempo com Cora.
“Você está bem?” Ela sussurra para mim.
Aceno e mordo o lábio para não chorar quando a campainha toca e todo mundo levanta. Winter me entrega um pedaço de papel com seu número de telefone. Não tenho coragem de dizer a ela que não tenho celular nem acesso a um. Em vez disso, eu o dobro e coloco no meu moletom preto.
O treinador Long me ignora enquanto se aproxima de sua mesa. Assim que a sala esvazia, fico de pé e corro para ele. “T-Treinador”, começo, minha voz rouca de emoção. “Por favor, não me dê detenção. Eu...”
“O ato de chorar não funciona comigo”, ele diz com um tom frio, não fazendo contato visual enquanto folheia alguns papéis.
“Por favor”, insisto, “você não pode fazer isso.”
Seu olhar encontra o meu. “Esta é minha sala de aula, senhorita Pruitt. Se você dorme e ri, ganha detenção. Eu te disse isso desde o primeiro dia. Não é segredo.”
Derrotada, dou um passo para trás, odiando o jeito que meu queixo treme descontroladamente. Minhas mãos tremem quando pânico surge dentro de mim. Ela precisa ir ao médico depois da escola. Talvez eu possa ligar para Juanita e convencê-la pelo telefone. Estou desesperada quando coloco minhas coisas desajeitadamente na bolsa. O tremor em minhas mãos não para, nem os soluços sufocados que me deixam. Quando levanto e pego minha mochila, o treinador está me observando com as sobrancelhas franzidas.
“O que está acontecendo?” Ele exige.
“Eu tenho que levá-la ao médico”, admito com um soluço. “Minha mãe adotiva é impossível de lidar e Cora tem uma infecção no ouvido. Ela precisa de antibióticos.” Seu olhar suaviza. “Sua irmã?”
Meu tudo.
“Sim.”
Ele franze os lábios e olha para longe. Posso dizer que sua cabeça está processando. “Você ficou acordada a noite toda com ela.”
Pisco para ele, surpresa. “Sim, como sabia?”
Diversão brilha em seus olhos. “Sorte, eu acho.” Então, ele suspira de frustração. “Ninguém sai da detenção.”
Minha cabeça se curva. “Eu sei.”
“Mas não sou um monstro, como todo mundo pensa. Cuide da sua irmã, durma um pouco e preste atenção na aula”, ele resmunga. “Você é uma sênior. Precisa de boas notas se quer ter uma vida melhor.”
Pressiono meus lábios e rezo para que minhas bochechas não estejam vermelhas. Às vezes odeio que todos os professores saibam minha situação. Que sou órfã. Sozinha, não amada e com uma vida injusta.
“Obrigada”, murmuro. “Farei meu melhor.”
“Saia daqui”, ele diz enquanto outros alunos começam a chegar para a próxima aula.
♥
Posso ouvi-la chorar quando saio do ônibus. A dor profunda em meus ossos parece aumentar para um nível agonizante.
Estou chegando, chorona.
Empurrando outros alunos que estão saindo do ônibus, corro para a casa de Juanita. Ela precisa desesperadamente de reparo, mas Juanita nunca faz isso. Ela nunca faz nada, exceto fumar e assistir programas idiotas o dia todo. Quando chegamos em casa, somos o entretenimento noturno e exercício, pois ela nos acerta com a bengala. A pobre Cora tem que aturá-la o dia todo enquanto estamos na escola.
No momento em que entro pela porta, jogo a mochila no chão e sigo os gritos. Na sala de estar, a televisão está ligada.
“Ela tem uma infecção no ouvido”, grito sobre o barulho.
“Ligue para o pediatra.”
Juanita me ignora para acender outro cigarro.
“Juanita!” Grito. “Ligue para o Dr. Powell.”
“Garota, você precisa tomar cuidado com seu tom”, ela resmunga, seus olhos não se afastam da tela.
Invado a sala e desligo a televisão. “Ligue para ele agora, ou eu ligo para o Sr. Tauber.”
Juanita pega sua bengala e eu dou um passo para trás, embora esteja bem fora de alcance. “Ela é apenas uma pirralha mimada. Você a estraga, garota.”
Cruzo meus braços e a encaro. Os gritos de Cora são minha ruína, mas não saio até que Juanita faz a ligação. Finalmente, ela cede e liga agendando uma consulta de emergência. Assim que a ouço confirmar que estaremos lá em meia hora, eu corro para a minha bebê.
Passando pela porta do nosso quarto, encontro-a no chão. Seu cabelo loiro está suado e bagunçado. O nariz está escorrendo e a ranho alcança seus lábios e queixo. Ela está com o rosto vermelho e retorcido. Meu pobre, pobre bebê.
“Cora”, ofego e corro para ela. Puxo-a em meus braços e beijo sua cabeça suada. Seu corpo inteiro treme enquanto ela se agarra a mim. “Shhhh”, digo enquanto a acaricio também. “Vamos ver o médico e resolver tudo.”
Não há como acalmá-la quando ela fica assim. Meu palpite é que ela tem uma infecção nos dois ouvidos. Sua pele está quente e ela claramente sente muita dor. Cora é suscetível a infecções crônicas de ouvido. Gostaria que eles fossem em frente e colocassem tubos de ventilação em seus ouvidos, como o Dr. Powell mencionou para nossa última família adotiva.
Enquanto seguro Cora, arrumo sua pequena mochila rosa com algumas de suas coisas favoritas. O zíper não funciona e é então que eu gostaria de ter dinheiro para mantê-la. Eu compraria uma mochila nova e maior para guardar mais itens de conforto.
Quando estamos prontas, carrego-a para baixo e saio pela porta da frente. Juanita a contragosto me segue, sua bengala bate no chão enquanto ela caminha. Com cada batida no chão, Cora salta.
“Tudo bem”, sussurro em seu cabelo. “Ela não vai nos bater fora de casa.”
Coloco Cora em seu assento e sento-me ao lado dela. Juanita dirige como a velha vovó que é, passando por sinais de trânsito, quase batendo nos outros carros e está pelo menos dez quilômetros abaixo do limite estabelecido. Quando finalmente chegamos ao consultório do médico, eu solto Cora e corro para dentro.
“Oi, Jenna”, a recepcionista chamada Lori diz. Gosto de Lori. Ela é uma mulher amigável com cabelo roxo e piercing no nariz. Eu amo que ela exiba fotos de seus filhos ao lado de sua mesa. Todos os seis parecem felizes. Eu gostaria que ela tivesse espaço para mais dois.
“Ei, Lori. Cora precisa de antibióticos.”
“Claro que sim, querida. Dr. Powell vai arrumar tudo.” Quando Juanita passa pela porta, o sorriso de Lori some e seu olhar é frio.
Deixo Juanita pagar enquanto entro e me sento com Cora no colo. Ela não está mais gritando e apenas choraminga. Quando está chateada, ela torce meu cabelo nos dedos e o esfrega em seu rosto. E quando ela está chorando, eu acabo com ranho no meu cabelo. Mas enquanto ela se acalmar, não me importo. Eu lavarei depois.
Eventualmente, somos chamadas e, felizmente, Juanita opta por ficar na sala de espera. Solto um suspiro de alívio enquanto esperamos pelo Dr. Powell.
A enfermeira Lou entra e sorri gentilmente para nós. Lou é velha como Juanita, mas maravilhosa. Seus bolsos estão sempre cheios de adesivos e doces.
Cora se senta e sorri para Lou. “Termômetro?”
Lou tira um termômetro rosa do bolso e o desembrulha. Cora felizmente coloca o termômetro na boca. Ela ainda está quente e com dor, mas está melhor. Cora pode ter apenas dois anos, mas sabe que este é um lugar seguro onde eles sempre a curam. Lou resmunga sobre verificar sua temperatura — 39º — e sua pressão arterial. Ela digita no computador e depois nos deixa para esperar o Dr. Powell.
O homem de cabelos brancos eventualmente aparece e franze a testa. Ele nos faz as perguntas normais a princípio, sobre sua saúde e, depois, sobre nossa situação em casa. Dou as respostas genéricas, esperando que ele se apresse e lhe prescreva o remédio para que ela se sinta melhor.
“Sua mãe adotiva já te bateu?” Dr. Powell pergunta, sua atenção indo e voltando entre nós.
Eu congelo e Cora assente.
“Bengala dói Sissy”, Cora sussurra.
Dr. Powell me olha com tristeza. “Vou ligar para Lou. Sou obrigado a examinar vocês e ligar para o assistente social.”
Eu tensiono para não chorar e dou um aceno de cabeça. “Tanto faz.”
Depois de vinte minutos embaraçosos com Lou e o Dr. Powell documentando nossas contusões, principalmente as minhas, nós nos recompomos e esperamos pelo Sr. Tauber.
Só quero que Cora receba seus antibióticos.
O resto pode esperar.
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