
Entre Traição e Redenção
Capítulo 2
O ar no escritório da TechNova estava pesado, carregado com o tipo de fofoca que se espalha mais rápido que um vírus de computador. Um vídeo granulado e de má qualidade circulava pelos celulares, mostrando uma mulher, cuja silhueta lembrava a de Marina, minha namorada, entrando em um hotel de luxo com um homem não identificado. A notícia se espalhava em sussurros e olhares disfarçados na minha direção.
Eu sentia os olhares, mas mantinha minha atenção fixa na tela, nas linhas de código que fluíam sob meus dedos.
De repente, uma sombra pairou sobre minha mesa.
Rui, o gerente de projetos, estava ali, com um sorriso presunçoso no rosto. Ele era a personificação da ambição medíocre, sempre invejoso do meu sucesso como programador principal.
"João, já viu isso?"
Ele empurrou o celular na minha cara. Na tela, o vídeo borrado era reproduzido em loop.
"Parece que sua namorada influenciadora não é tão fiel quanto parece. Que pena, cara."
Seus olhos brilhavam com uma malícia mal disfarçada. Ele queria uma reação. Ele queria ver o caos, a dor, a raiva.
Mas ele não veria nada disso.
Eu olhei para o vídeo com uma calma que o desarmou. Meu coração não acelerou. Minha respiração não falhou. Para mim, aquilo não era uma revelação chocante, era uma reprise. Eu já tinha vivido aquele dia. Cada segundo dele estava gravado na minha alma. Eu renasci das cinzas da minha vida anterior, e o homem à minha frente era o arquiteto da minha tragédia.
Eu sabia que a mulher no vídeo não era Marina. Era Juliana, a noiva do próprio Rui. E eu sabia que Rui tinha planejado tudo isso para me difamar e roubar a promoção a gerente que estava ao meu alcance.
"Homem, uma influenciadora... não se pode confiar," Rui continuou, falando alto o suficiente para que todo o departamento pudesse ouvir. "Sempre buscando mais fama, mais dinheiro. Você deveria ter mais cuidado, João."
Clara, uma colega que sempre agia como sua seguidora, concordou prontamente.
"O Rui tem razão. João, você precisa ficar esperto."
Eu dei de ombros, um gesto deliberadamente casual.
"É só um vídeo borrado, Rui. Pode ser qualquer pessoa."
Voltei a digitar, ignorando-o. Sua mandíbula se contraiu de frustração. Minha falta de reação não estava no roteiro dele. Ele esperava um surto, uma briga, um homem de coração partido correndo para confrontar sua namorada.
Então, meu celular tocou. O nome "Marina" brilhou na tela.
Rui sorriu, vitorioso. Ele achava que aquele era o momento da verdade.
Eu atendi.
"João, você viu o vídeo?" a voz de Marina estava trêmula, cheia de pânico. "Não sou eu, eu juro! Mas a Juliana está me ligando, chorando, dizendo... eu não sei o que está acontecendo!"
Era exatamente como da última vez. A mesma confusão, a mesma angústia. Mas desta vez, eu estava no controle.
"Calma, amor. Eu sei que não é você. Eu confio em você," eu disse, com uma firmeza que a surpreendeu.
Rui, que ouvia atentamente, franziu a testa. Ele interpretou minha calma como negação, como a atitude de um tolo que se recusa a ver a verdade. Ele se afastou, cochichando com Clara, convencido de que seu plano estava funcionando perfeitamente e que eu estava apenas me humilhando.
Depois de desligar, olhei diretamente para Rui. Meu rosto estava impassível, mas meus olhos estavam frios.
"Rui, falando nisso... onde está a Juliana hoje? Pensei que vocês tinham um almoço marcado."
A pergunta o atingiu como um soco. O sorriso presunçoso desapareceu de seu rosto, substituído por uma expressão de choque e confusão. Ele abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Ele não esperava por aquilo. Naquele momento, eu plantei a primeira semente de dúvida em sua mente arrogante. O jogo tinha começado. E desta vez, eu ditava as regras.
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