
Entre Traição e Redenção
Capítulo 3
A imagem de Rui gaguejando desapareceu, e eu mergulhei nas profundezas da minha memória, revivendo o pesadelo que foi a minha primeira vida.
Naquela época, a pergunta sobre Juliana nunca foi feita. Eu era um homem diferente. Um homem que confiava nos outros. Um homem cego.
Na vida passada, quando vi aquele vídeo, meu mundo desabou. A dor da traição foi aguda, um veneno que se espalhou por cada veia. Corri para casa e confrontei Marina. Gritei. Acusei. Não a deixei explicar. Vi as lágrimas escorrendo por seu rosto, a confusão em seus olhos, e interpretei tudo como culpa.
No dia seguinte, no trabalho, eu era uma casca vazia. Rui se aproximou, não com um sorriso, mas com uma expressão de falsa compaixão.
"Cara, eu sinto muito," ele disse, colocando a mão no meu ombro. "Eu sei como é. Mulheres assim... elas só pensam em si mesmas. Isso vai afetar sua reputação aqui na empresa. O gerente valoriza a estabilidade."
Ele me alimentou com veneno, e eu o bebi avidamente. Clara também se aproximou, oferecendo um café e palavras de "apoio" , enquanto seus olhos brilhavam com o mesmo prazer sádico de Rui. Eles me isolaram, me convenceram de que eu era a vítima e Marina, a vilã.
Enquanto isso, secretamente financiados por Rui, os trolls da internet iniciaram uma campanha de ódio brutal contra Marina. Milhares de comentários a chamavam de vagabunda, interesseira, traidora. Sua carreira, construída com tanto esforço, foi demolida em questão de dias. Patrocinadores cancelaram contratos. "Amigos" a abandonaram. Ela estava sozinha.
Eu, em minha dor egoísta e cega, não fiz nada.
A pressão se tornou insuportável. Uma noite, recebi uma ligação da polícia. Houve um acidente de carro. Marina estava morta. O relatório oficial dizia que ela perdeu o controle do veículo em uma estrada molhada, mas no fundo do meu coração, eu sabia. Foi um suicídio. A culpa me esmagou com o peso de um planeta.
Foi o luto que me abriu os olhos. O luto e uma sede desesperada por respostas. Comecei a investigar, a refazer os passos daquele dia fatídico. Havia algo errado, peças que não se encaixavam.
Uma noite, movido por uma determinação sombria, usei minhas habilidades de programador para fazer o que deveria ter feito desde o início. Invadi o sistema de Rui. Hackeei seu computador pessoal, seu e-mail, seu armazenamento em nuvem.
E então eu vi.
Lá estava o vídeo original, em alta definição. A mulher entrando no hotel não era Marina. Era Juliana, a noiva de Rui. O homem com ela... era o próprio Rui. Ele havia encenado a própria traição com sua noiva e usado a semelhança dela com Marina para me incriminar.
Mas a podridão era ainda mais profunda. Encontrei e-mails trocados entre Rui e Clara. Eles planejaram cada detalhe. O vídeo, o vazamento, a campanha de difamação online. O objetivo era me destruir psicologicamente, arruinar minha performance no trabalho e garantir que Rui conseguisse a promoção a gerente que deveria ser minha. Havia até mesmo uma conversa em que Rui dizia a Clara que planejava terminar com Juliana logo depois, que ela era apenas um peão em seu jogo.
O sangue ferveu em minhas veias. Peguei as provas, uma cópia de tudo em um pen drive, e fui confrontá-lo. Eu o encontrei em um bar, comemorando sua "vitória" com Clara.
Eu não gritei. Falei com uma calma mortal, apresentando as provas, uma por uma. O rosto de Rui passou do choque à fúria. Ele não confessou. Ele não pediu perdão.
Ele atacou.
Não estava sozinho. Dois homens enormes, que eu presumi serem capangas contratados, se levantaram de uma mesa próxima. Eles me arrastaram para um beco escuro atrás do bar. A última coisa que senti foi a dor excruciante de uma bota chutando minhas costelas, o gosto de sangue na boca. Eles me espancaram até eu perder a consciência, levando minha carteira e celular para que parecesse um assalto que deu errado.
Enquanto eu sangrava até a morte no chão frio e sujo, meu único pensamento era de arrependimento. Arrependimento por não ter confiado em Marina. Arrependimento por não tê-la protegido. Meu último suspiro foi o nome dela.
Então, escuridão.
E depois, luz.
Abri os olhos. Eu estava na minha cama. A luz do sol entrava pela janela. Meu celular no criado-mudo mostrava a data. Era a manhã daquele mesmo dia fatídico. Eu estava vivo. Eu estava de volta.
O choque inicial deu lugar a uma clareza gelada. O destino, ou alguma força desconhecida, me deu uma segunda chance. Não para ser feliz. Mas para fazer justiça.
Eu não deixaria acontecer de novo. Eu protegeria Marina a qualquer custo. E Rui, Clara, e todos os que os ajudaram... eles iriam pagar. Cada lágrima que Marina derramou, eu devolveria em um rio de desespero. Esta não era mais uma história sobre amor e traição. Era uma história de vingança.
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