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Capa do romance Entre teus lábios

Entre teus lábios

Guiada por um sorriso provocante e um olhar intenso, aceitei o toque de sua mão enquanto a paixão nos consumia. Éramos jovens, indomáveis e movidos por uma eletricidade perigosa. Embora a ansiedade da idade me fizesse questionar o amanhã, o futuro pouco importava naquele momento. Nada apagaria a memória sensorial daquela entrega, marcada pelo gosto inesquecível de hortelã e canela que definia a nossa conexão proibida e ardente.
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Capítulo 3

Alguns anos antes...

Era primavera, e as flores decoravam toda a paisagem ao meu redor. Era impossível não notá-las já que Emily as tinha penduradas atrás da orelha, mesclando-se ao seu cabelo.

Pequenas margaridas pendiam das mechas acobreadas enquanto ela caminhava em minha direção. Eu adorava vê-la ao sol, Emily tornava-se radiante, iluminada, ainda mais quente. Seu cabelo ruivo não era tão alaranjado, apesar dos fios claros, tinham um tom de marrom que me lembrava o Outono. Mais uma vez, quente. Sua pele era rosada, sem muito contraste ao tom dos cabelos. Seus lábios pequenos e preciosos agora sorriam para mim enquanto se aproximava.

Seus olhos... sem dúvida nada se comparava a eles. Ela sempre me dizia que eram castanhos, sem graça, comuns. Mal sabia ela que não tinha absolutamente nada de comum neles. Se seu cabelo e pele eram quentes, seus olhos eram fogo. Brasas vivas me incendiando a cada olhar. Como tudo nela, eram olhos de Outono. Carregavam uma cor avelã única, escura, profunda e que ao sol transformavam-se em um avermelhado perfeito combinando com todo o resto. Minha garota Outono.

― Oi... ― foi tudo o que deu tempo de dizer antes dela se jogar em meus braços.

Seu perfume de lavanda invadiu meus sentidos, e tudo o que pude fazer foi me embriagar nele. Segurei a ponta de seu queixo, provocando-a antes de beijá-la, vendo suas bochechas corarem antes de provar seus lábios. Beijá-la era minha perdição. Era quase impossível parar, eu sempre queria mais dela.

― Ei, Rob... ― murmurou em meus lábios, tentando chamar minha atenção.

Pude sentir o contorno de seu sorriso junto ao meu quando busquei seus lábios e me aprofundei no beijo. Podia sentir todo o meu corpo implorar por ela, sedento, desesperado. Levei uma das mãos à sua cintura, franzindo o tecido leve do seu vestido, erguendo apenas mais um pouco até encontrar a pele suave e tentadora. Soltei um suspiro quando ela ergueu-se na ponta dos pés em minha direção, pedindo silenciosamente que eu continuasse. Tracei um caminho lento dos lábios à pele sensível de seu pescoço, e sorri quando ouvi sua respiração descompassada, assim como a minha.

― Espere... ― ela tinha os olhos fechados, os lábios entreabertos e suplicantes.

Eu não a deixaria escapar tão facilmente. Deixei que meu corpo se amolda-se ao dela, impedindo-a de se desvencilhar enquanto uma das mãos ainda dedilhava a pele nua rumo a um caminho ainda mais tentador. Senti quando ela cedeu outra vez, desestabilizada com meu toque, desesperada por mais. Perpassei um dedo em seus lábios vermelhos e inchados pelo contato, e desci o indicador pelo queixo, passando pelo pescoço delgado e indo até o primeiro botão na parte da frente do vestido.

― Rob, eu tenho algo... ― abri um botão, e me abaixei para plantar um beijo bem ali.

Segui meu percurso, outro botão enquanto Emily descontroladamente me puxava para outro beijo. Um ainda mais ardente. E, menos um botão... eu a trazia para mim sentindo suas mãos em minha nuca, enrolando os dedos em meus cabelos tão perdidamente apaixonada quanto eu estava. Éramos loucos um pelo outro, e eu sentia que nada no mundo podia me fazer tirar as mãos de seu corpo naquele instante, até que ela o fez.

Emily saltou para trás, recobrando o fôlego que eu adorava tirar dela. Olhou para mim com um sorriso e fez um gesto para que eu não me aproximasse.

― Estou tentando dizer algo importante... ― mais um longo suspiro, outro riso perfeito nos lábios.

Ergui as mãos em sinal de rendição.

― Não percebi que eu estava atrapalhando... ― pisquei sedutoramente de uma forma que a divertia.

Ela me olhou com descrença antes de me abraçar. Sentamos debaixo de um velho carvalho na clareira deserta, o lugar em que costumava ser mais que apenas nosso ponto de encontro. Era um refúgio. Segurei sua mão entre as minhas, delicada e pequena.

― O que queria me dizer? ― indaguei, mas logo me arrependi ao ver a preocupação em seu rosto.

― Eu tomei uma decisão! ― disse, tentando esconder a apreensão com uma falsa empolgação.

Eu já sabia onde aquela conversa iria terminar. Por isso tentei evitá-la a todo custo.

― Emy, não tem o que decidir. Você vai embora, é assim que tem que ser. É o certo a fazer e você sabe disso.

Minhas palavras soaram mais ríspidas do que pretendi e me odiei ao ver o brilho em seus olhos sumir por minha causa. No entanto, era isso. Não havia escolha, nenhuma saída ou solução. Nenhuma luz no fim do túnel para nós. E naquele instante, tudo em que eu pensava era em aproveitar o que tínhamos, antes que tudo estivesse irrevogavelmente perdido.

― Então é assim? Você simplesmente vai se conformar? ― ela se afastou do alcance das minhas mãos ― Rob, eu vim decidida a ficar! Eu não sei... Posso me virar sem meus pais e a gente pode dar um jeito, eu só... eu...

Um soluço escapou de seus lábios, e uma lágrima desceu de seus olhos ao mesmo tempo em que meu coração se partia. Eu a abracei. Abracei com força, com amor, com dor. Pois eu sabia bem como aquilo terminaria.

Os pais da garota iriam deixar o país, e em parte eu sabia que um dos motivos era eu. O bad boy vagabundo que a filha exemplar de classe média namorava escondido. Se Emily ficasse, como havia suposto, de que maneira iria sustentá-la se não tinha sequer um emprego? Era apenas um estudante vindo de família humilde que se esforçava por uma bolsa para entrar na faculdade. Era ridículo pensar que poderíamos resolver aquilo de qualquer forma.

Não havia nada que eu pudesse fazer além de abraçá-la como se nunca fôssemos nos separar. Como se ela fosse minha de verdade. Como se as promessas que eu fazia fossem mesmo se cumprir. Sabia que não podia e nem tinha o direito de lhe prometer mais nada, mas quando Emily me encarou com seus olhos marrons cheios de lágrimas represadas, eu não pude evitar uma última promessa, mas esta eu sabia que cumpriria.

― Eu vou te amar pra sempre, Emy. Eu prometo.

********

Fiquei paralisado por alguns segundos enquanto aquela lembrança me arrastava com a força de uma correnteza. Já fazia muito tempo em que aqueles pensamentos não me torturavam mais. Afinal, eu não era mais o filho do meio que tinha que contar as moedas no final do mês para comprar o material escolar mais inferior. Não era mais o garoto desajustado da cidade pequena, o vagabundo. 'Este garoto é problema', diziam às minhas costas e faziam questão que eu ouvisse tais ofensas sobre mim e minha família, que apesar de serem os melhores pais do mundo, não tinham a condição financeira deles.

Atualmente eu era um dos empresários mais promissores do país, tinha uma linha de negócios bem sucedidos por cada estado e mais dinheiro do que eu ou minha família poderia gastar. Nunca mais havia me sentido o garoto pobre e vulnerável até aquele maldito instante em que a vi.

Por muito pouco não cancelei a reunião na Editora quando reencontrei Emily pela segunda vez naquele mesmo dia. Já bastava tê-la visto no acidente quando colidira com meu carro e logo em seguida ter me ignorado como se eu não passasse de um idiota qualquer. Talvez fosse exatamente isso o que eu era afinal, um idiota qualquer. Um idiota que ficou feliz em rever a garota que um dia amou, mas foi pisoteado uma vez mais pelo orgulhoso status familiar. Essa era a única explicação para ela ter reagido de uma forma tão indiferente. Ela não era do meu mundo, nunca havia sido. E se ela era fria o bastante para me tratar daquele jeito, eu também seria. Ou tentaria.

Apesar do reencontro com minha antiga namorada de adolescência quase desestruturar o homem inabalável que me tornei, decidi que iria fazê-la tomar do mesmo veneno.

Me obriguei a não olhar mais em sua direção, pois era arriscado. Muito arriscado, já que estava ainda mais linda do que em minhas lembranças. Seu cabelo havia escurecido sutilmente, um cobre mais intenso, ainda um marrom claro e outonal. Os lábios apesar de não sorrirem sequer uma única vez, ainda pareciam tão apetitosos quanto eu me lembrava e...

― Senhor? Senhor?

Que droga! Chacoalhei a cabeça tentando afastar o calor que tomava conta de mim, quando a voz aguda de Marlene me tirou dos meus devaneios mais idiotas.

― Pode apresentar o painel com as novas estratégias agora... ― ela sorriu um tanto constrangida com minha falta de atenção diante de todos os funcionários.

Eu podia sentir os olhos curiosos enquanto eu me esforçava para seguir com a palestra dos meus métodos e diretrizes, também podia ouvir alguns sussurros e especulações, certamente sobre minha postura digamos um pouco desatenta. No geral eu não me importava com tal atenção, estava habituado a ser o centro dela. Mas decididamente, não hoje. Hoje eu não queria estar ali na frente de todos fingindo que estava tudo bem, porque não estava. Para ser sincero, estava longe disso.

Foi preciso só um segundo de fraqueza, uma leve inclinação de cabeça e um rápido desvio de olhar para que meus pensamentos voltassem a me enlouquecer. Mas ela estava tão bonita...

Que merda! Seus olhos...sempre foram minha perdição, e por mais que eu não quisesse admitir, aquelas duas esferas castanhas ainda tinham o mesmo efeito sobre mim. Eram quentes. Me queimavam. Me faziam arder. Derreter. E naquele segundo, de alguma forma, me fizeram quebrar.

Eu nunca mais a tinha visto desde que mudara para longe com os pais. E revê-la agora, ainda tão parecida com a menina que fora antes, me atormentava de uma forma ridícula. Toda a situação era ridícula.

Eu devia ter perguntado como ela estava, quando a vi mais cedo após o acidente, devia ter perguntado por quê em todos esses anos ela não dera sequer um sinal de vida. Por quê não retornava meus telefonemas. Por quê todas as cartas que eu havia mandado tinham apenas o silêncio como retorno. Mas não. Eu apenas fiquei parado gritando seu nome, assustado demais com o fato de que talvez ela tivesse se esquecido de como costumava me ter em suas mãos.

Idiota! Idiota! Idiota!

Outro erro, olhei mais uma vez na direção dela. Desta vez flagrando seu olhar. Vi quando o tom carmesim tomou as maçãs de seu rosto, e fechei uma mão em punho com força, refreando a vontade deliberada que eu tinha de acolher seu rosto perfeito em minhas mãos. Ela desviou o olhar assim que nossa conexão se tornou constrangedora o bastante para que Marlene e todo o resto da sala nos encarasse. Eu fingi uma tosse, antes de me dar conta de que a co-editora estava a alguns segundos com a mão estirada em minha direção. Eu era um mesmo um idiota!

Apertei sua mão enquanto ela me dizia mais alguns detalhes de sua equipe, como eram pró-ativos e eficientes. Eu assenti tentando ao máximo prestar atenção em suas palavras, mas não podia deixar de questionar como Emily estava estranha. Havia algo de muito errado na maneira que ela olhava para mim, ora desesperada para me evitar, ora afoita para que eu retribuísse a atenção. E em alguns instantes uma curiosa expressão irritada crispava suas feições.

Parecia até que ela estava com raiva de mim. Mas isso era tão absurdo que me vi negando com a cabeça em um gesto veemente, deixando a co-editora, que ainda tagarelava sobre sua equipe, confusa com minha reação. Engoli em seco antes de finalizar a reunião, elogiar o bom desempenho que havia visto das equipes e a disposição de todos. Passei alguns formulários para Marlene, que mantinha um sorriso exagerado demais para mim.

Percebi quando a moça ao lado de Emily cutucou seu braço antes de cochichar algo em seu ouvido. Na verdade, era pra ter sido apenas um sussurro mas pude ouvir claramente quando disse exasperada: "Uau, é ele? O cara é lindo!" Eu quis rir daquilo no mesmo instante, afinal, então Emily tinha falado sobre mim. E independente dos detalhes, aquilo a fez corar até a raiz dos cabelos.

"Vai ficar sentada aí o dia todo?" Ouvi a garota do lado dela indagar, após levantar-se junto aos demais funcionários quando finalmente a reunião havia acabado. Observei quando Emily, ainda extremamente ruborizada, se levantou em um solavanco e rapidamente se dirigiu a porta junto da amiga que caminhava ao seu lado.

"Graças a Deus isso terminou!" Emily disse com um alívio que me pegou desprevenido. Eu também estava aliviado por a reunião ter terminado, mas sinto que por razões diferentes das que ela tinha. Meu suplício era estar em uma sala cheia de pessoas e ter de manter uma postura séria e impassível, quando tudo o que eu queria era ter um minuto a sós com Emily. Mas ela por sua vez, parecia aliviada em finalmente poder sair correndo para longe de mim.

Pensei em apenas permitir que ela fizesse o que claramente pretendia, fugir de mim. Mas, algo idiota o bastante dentro de mim me fez impedi-la, e quando meu dei conta, estava bem diante dela ocupando todo o espaço da porta, barrando-a sem nenhum escrúpulo de sair dali.

― Será que posso falar um minuto com você? ― fiquei surpreso ao ver que tive que reunir muita coragem para dizer aquelas simples palavras.

Ela continuava mirando a porta, parecendo fingir que não era com ela. Se a situação não fosse tão estranha eu teria rido ao ver sua expressão, quase se escondendo de mim.

― Emy, ele quer falar com você... ― a amiga interferiu, o tom de voz em uma nítida reprimenda.

Antes de me encarar, Emily olhou para Marlene que ainda juntava algumas pastas de papéis antes de sair dali. Eu não podia ler seu pensamento, mas àquela altura nem precisava lê-lo para saber que só não iria me ignorar pelo único fato de não poder fazer isso na frente de sua superiora. Eu senti um esboço de sorriso se atrever em meus próprios lábios, mesmo sendo ridiculamente cruel ao querer desesperadamente ignorar minha existência, Emily ainda era formidável.

Ela deu meia volta, parando bem na minha frente. E para minha surpresa, me encarava com uma determinação que há tempos eu não via em ninguém mais. Será que ela podia notar o quanto ainda me afetava? Será que podia ouvir meu coração implacável no peito? Ou apenas sabia que ainda podia me pôr numa coleira com um simples estalar de dedos? Puta que pariu! Eu ainda estava de quatro por ela, enfeitiçado e dobrado enquanto ela me olhasse daquela forma.

Ouvi a porta bater levemente quando Marlene nos deixou a sós, claramente notando que aquela conversa não a incluiria.

― O que você quer, Rob? ― apesar de ter soado ríspida, ouvir meu nome saindo dos seus lábios foi prazeroso.

― Ah, então agora lembrou meu nome? ― foi impossível não provocá-la com uma pontada de ressentimento na voz.

Ela revirou os olhos e pareceu ainda mais irritada do que antes.

― Olha, eu vou pagar o carro, está bem? Não se preocupe. Então não precisa falar mais comigo. Já estamos resolvidos! ― pôs a bolsa nos ombros, indo em direção a porta, numa segunda tentativa de fuga.

Uma tentativa frustrada já que me empurrei outra vez em seu caminho.

― Não quero que pague nada. Não preciso disso. ― sabia que não tinha a necessidade de ter sido tão grosseiro, mas ela despertava o lado mais irracional de mim.

― Então, o que quer?! ― agora ela quase gritava.

Estava nervosa. Abalada.

― Só quero saber a razão disso. ― dei de ombros, aquilo era óbvio demais ― Por que está fazendo isso, Emy?

Aturdida, ela baixou os olhos e por um instante parecia não ter forças para olhar para mim outra vez.

― Pare de me chamar assim... ― sua voz soou fraca, um murmúrio doloroso.

O silêncio tomou conta de nós uma vez mais. Eu não sabia o que dizer. Na verdade eu nunca soube reagir quando via tristeza em seu olhar. Em outras circunstâncias nada precisava ser dito, pois eu a acolheria em meus braços, apanharia suas lágrimas com as pontas dos dedos e a beijaria até que se esquecesse de tudo que a deixava triste. E ela aceitaria meu abraço, retribuiria meu beijo. Contudo, ali na minha frente agora, estava uma Emily acuada e apreensiva, fazendo de tudo para se manter o mais distante possível de onde eu estava.

― Eu não estou fazendo nada! ― ela respondeu, uma nova onda de fúria renovando sua determinação ― Pelo contrário, não sou eu quem está te seguindo! ― acusou, fechando o semblante com uma dureza que só ela sabia fazer.

― O que? Eu não estou seguindo você! Eu nem sabia que você trabalhava aqui. Não sei mais nada a seu respeito... aliás... ― um riso sarcástico e sem um pingo de humor pintou em meus lábios ― Já se esqueceu que quem me deixou sem notícia por todo este tempo foi você? ― retruquei com uma voracidade descontrolada.

Ela fazia isso comigo, sempre me fazendo perder qualquer tipo de controle.

― Não vou falar disso com você! ― afirmou apenas, dando a volta e indo em direção a porta outra vez.

E pela terceira vez a impedi. Desta vez fui mais incisivo. Petulante. Desesperado. Me aproximei, praticamente a encurralando entre a parede sobre suas costas, a deixando sem saída, sem outra opção a não ser erguer os olhos e me encarar de volta.

Fúria. Muita raiva incontida nos profundos olhos castanhos. Havia ódio, um ódio que eu não entendia mas estava ali, muito presente, palpável demais para ignorar. Contudo, também havia algo mais. Mais forte que a ira, mais perverso que o ódio. Fogo.

― Emy... ― eu ergui uma mão até seu rosto, ela parecia tão frágil.

Minhas mãos sequer a havia alcançado, e mesmo antes de encostar minha pele na dela, ela já havia tocado uma parte de mim há muito esquecida. Me assustei com o ímpeto das batidas do meu coração quando perpassei as pontas dos dedos em seu rosto. Ela fechou os olhos por um segundo muito rápido, como costumava fazer e eu me aproximei ainda mais.

Os lábios entreabertos, o peito subindo e descendo rapidamente enquanto me encarava com uma ânsia, uma necessidade que eu estava louco para sanar. Segurei seu queixo com uma das mãos sem nunca deixar seus olhos. Senti meu corpo todo pulsar e ascender quando inconscientemente ela mordeu o lábio inferior, suplicando em silêncio para que eu o fizesse também. Que eu os tomasse, mordiscando a pele rosada, devorando-a com...

― Me demita! ― as palavras saíram atropeladas, abarrotadas e me fizeram sair daquele transe.

― O que? ― eu sorri. E me surpreendi por fazê-lo.

Como ela ainda tinha o poder de me fazer sorrir tantas vezes? Com tanto abandono, com tanta espontaneidade.

― Eu sou sua funcionária. Exijo demissão, estou no meu direito e...

― Emy, não conte com isso. ― parei de sorrir quando percebi que ela definitivamente estava falando sério.

― É simples. Tudo o que tem que fazer é...

― Não vou dispensá-la, nem que me implore. Não tem nenhum fundamento nisso e... ― mais um sorriso, mas agora estava fazendo questão de provocá-la ― eu jamais lhe daria este prazer. ― conclui, convicto.

Ela bufou e bateu um dos pés no chão. Tão teimosa, pensei enquanto assistia ao espetáculo me segurando para não rir outra vez.

― Ah, não? ― decidiu me afrontar desta vez ― Bom, eu posso te acusar de assédio se continuar sendo tão intransigente comigo Robert! ― ameaçou em um tom mordaz.

Ouvir meu nome sendo pronunciado daquela maneira por ela foi meu ponto fraco. Emily só costumava me chamar de Robert em exclusivas ocasiões. Ocasiões das quais acho que ela também se lembrou naquele momento, já que as bochechas escarlates denunciavam seus pensamentos.

Sei que estava sendo imprudente e extremamente brusco, mas não resisti e cedi à atração quando ela ergueu-se na ponta dos pés à medida que eu a enlaçava pela cintura e a trazia para mim. Eu subi ambas as mãos por suas curvas, me deleitando da forma conhecida que Emily se derretia em meus braços, entre meus lábios.

― Se vou ser acusado, não será por algo que não cometi. ― provoquei.

Porque era irresistível demais provocá-la. E eu sempre amei a forma que ela reagia às minhas provocações. Os olhos arregalados em sobressalto, os lábios entreabertos em um brilho de desafio.

Eu estava sendo um cretino, eu sabia disso. E cretino ou não, eu iria beijá-la. A luxúria brilhava em seus olhos da mesma forma que eu sabia que brilhava nos meus, cheguei mais perto. Devagar agora, lentamente coloquei meus lábios sob os dela e a sensação de estar em casa me dominou antes mesmo que eu pudesse experimentá-la. Apenas um encostar de lábios, fora o suficiente para que eu perdesse a cabeça e também fora o bastante para Emily perder a paciência.

Senti apenas o ardor do tapa que ela desferiu no meu rosto. Não podia dizer que não mereci.

― Tente e veja o que eu faço! ― disse ela, se afastando com rapidez, praticamente se atirando para fora da sala praticamente correndo.

Ela quase bateu a porta no meu nariz, e não pôde escutar quando eu fiz outra das minhas promessas ridículas com um sorriso cafajeste nos lábios: "Eu vou tentar, Emy."

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