
Entre o amor e o sangue - Na cama com o inimigo
Capítulo 3
Dois dias depois...
Olhei mais uma vez para o espelho, desta vez sem chorar. Eu sabia que se casar com quem meu pai escolhesse era a minha sina. Mas eu jamais pensara que ele escolheria um Montenegro Leone.
No reflexo, minha irmã mais nova sorria tentando me encorajar e não tentar nenhuma fuga que me levaria a morte.
— Ao menos ele é muito bonito, talvez surja amor com o tempo... — ela falava em toda a sua inocência.
— Não fomos criadas para escolher o amor, temos que amar o que nos foi dado pela família. Discordo disto, mas aqui estou eu, cumprindo uma obrigação de família.
— Você pode ser feliz com ele, você sabe que ele poderia ter cancelado o casamento e ter feito uma tragédia em nossa família quando te encontrou na boate. Mas ele manteve a calma...
— Não seja inocente, Giada. Ele apenas adiou a minha punição. Ela vai acontecer depois do que ele conseguir o que quer. Além disso, ele estava lá com uma mulher, ele devia respeito a mim também...
A porta se abriu bruscamente e Alessandro entrou desfilando sua figura imponente, deixando até mesmo o ar a nossa volta alterado com sua energia dominadora.
— Preciso falar com a minha noiva...
— Perdão, senhor, mas ver a noiva antes do casamento pode dar azar...— tentou argumentar a cerimonialista.
Ele a ignorou, sorriu para minha irmã e enquanto caminhava em minha direção falou para elas:
— Saiam!
Relutante vi Giada sendo levada pela cerimonialista que não mais hesitou fechando a porta atrás de si.
Diante de mim, estava o meu futuro marido, e em sua expressão, era perceptível um certo desgosto em relação a mim naquela manhã.
O destino estava ao seu lado, pois o sentimento de antipatia era mútuo entre nós.
Alessandro permaneceu parado na minha frente, com as mãos nos bolsos da calça. Seu olhar intenso percorreu meu corpo, dando a sensação de que ele tinha o poder de me ver nua por baixo de todas aquelas camadas que me cobriam. Senti uma onda de calor invadir meu corpo, mas tentei não demonstrar nada. Desde a infância, aprendi a esconder minhas reações. Minha mãe me ensinou que mostrar emoções é sinal de fraqueza, principalmente no mundo da máfia, onde é preciso criar barreiras emocionais.
— Vou te dar uma última chance, Gabrielle. Quero a verdade! Você continuou pura para mim? — Alessandro questionou, com firmeza.
Tentei manter a calma e respondi: — Tenho ficado trancada nos últimos dias. Infelizmente, os seguranças do meu pai não são suficientemente atraentes...
Em questão de segundos, me vi presa em seus braços, pressionada contra a parede. Sua mão em meu pescoço apertava de uma maneira que me fazia arrepiar.
— Não brinque comigo. Eu sei do seu caso com Adamo! — Ele falou, com voz cheia de ameaça.
Ao ouvir aquele nome, tudo parou. Minha fraqueza foi exposta, apesar de meus esforços para controlá-la.
— O que você fez com ele? Ele não... não me tocou... — Parei de falar assim que seu olhar se estreitou. Eu tinha acabado de revelar o quanto Adamo significava para mim, e Alessandro estava testando meu envolvimento emocional.
— Não fiz nada com ele... ainda. Mas, se você sequer sonhar em continuar encontrando com ele, terei o prazer de acabar com seu caso. Em questão de minutos, você se tornará minha mulher e não tolero traições. Ninguém no nosso meio tolera. — Alessandro me respondeu, com uma voz ameaçadora.
— Se você vai seguir as regras da máfia, deveria lembrar-se da regra que diz que um homem capaz de trair a mulher com quem dorme, é capaz de trair qualquer um. Você estava com aquela ruiva na boate... — Retruquei, sentindo o aperto em minha pele aumentar e seu corpo se pressionar ainda mais contra o meu. Percebi seu volume, nada discreto, em suas calças. O canalha estava excitado.
— O que fiz antes do nosso casamento é um problema meu! Continuo solteiro até colocar uma aliança em seu dedo no altar. Não se preocupe, não seja ciumenta. Não vou procurar fora o que vou ter em minha cama. — Ele disse, arrogante.
Sem pensar duas vezes, empurrei-o com todas as minhas forças. Eu havia aprendido a lutar para me defender. Meu pai fez questão de me preparar para ser a esposa de um grande chefe da máfia. Eu sabia lutar, tinha conhecimento em armas. Sempre cumpri todos os meus deveres com dedicação, afinal, as aulas de etiqueta, dança e idiomas eram meus únicos momentos de liberdade.
No fundo, eu nutria esperança que seria livre um dia, mas ali estava eu com meu futuro marido com um olhar furioso por receber um empurrão da minha parte.
— Não vou arruinar este vestido, mas você está certa. O seu castigo maior começará no momento que estiver na minha cama. Te vejo no altar, querida.
Ele virou as costas e saiu calmamente como se tivesse apenas se aproximado para um beijo furtivo de um amante apaixonado.
Mas como em nosso primeiro encontro ele veio apenas me ameaçar, me intimidar e eu sabia que estava perdida.
Me perdi nos pensamentos e evitei falar com qualquer um que tentou interação comigo até a catedral de Santa Chiara. O lugar estava repleto de seguranças de Alessandro, provavelmente uma precaução no caso eu realmente tentasse fugir.
Não estava descartada a minha vontade fazer isto, mas eu sabia que as consequências poderiam ser dolorosas. Por tanto, ao som de “Ludovico Einaudi — Nuvole Bianche” dei meus passos para o meu destino.
Papai estava sério e não tentou me dizer nada, ele havia feito isto em casa e eu disse que ele quebrara a promessa que fizera a mamãe em seu leito de morte.
Ela o fez prometer que ele garantiria a felicidade minha e de Giada. Eu jamais seria feliz naquele casamento, ele sabia disto. Mas não estava disposto a ir contra a vontade da máfia.
A igreja estava lotada das famílias mais importantes da Itália, mafiosos, políticos e celebridades, todos envolvidos em negócios escusos.
Alessandro estava com um sorriso genuíno nos lábios, o que me deixava ainda mais irritada e frustrada. A tensão no ambiente se misturava a uma falsa alegria e promessa de paz.
Sorri como me foi ordenado fazer, fingi o meu melhor, mas, no fundo, eu estudava mil modos de matar Alessandro na nossa noite de núpcias e segui pensando isto até o maldito Sim.
Na hora dos votos, as palavras de Alessandro e seu olhar intenso sobre mim quase me fizeram acreditar. Ele era realmente um bom ator.
“Foi ao acaso que nossos caminhos se cruzaram e agora estamos unidos. Posso não ser a escolha ideal para você, mas serei a melhor experiência que já teve até o último suspiro dos nossos dias. O amor nasce nos detalhes e se fortalece no compasso da rotina, acredite, minha amada. Não haverá outros braços onde você desejará estar. Lembre-se sempre: eu e você, entrelaçados pela eternidade.”
Tudo aquilo poderia ser uma ameaça velada, um aviso de que eu seria sua propriedade até o final dos meus dias. Não foi possível disfarçar as lágrimas de emoção, pois elas desceram pela minha bochecha, mas eram de ódio e frustração.
Era a minha vez dos votos e eu havia sido obrigada a decorar um maldito texto. Olhei para os olhos penetrantes de Alessandro e comecei a dizer:
“Não poderia ter feito uma escolha melhor na minha vida do que você, meu amor. Sua força interior, seu amor incondicional e a certeza de que será um pai exemplar para os nossos filhos enchem meu coração de gratidão. Sinto-me verdadeiramente abençoada por…” — parei de falar aquela inverdade.
Alessandro, percebendo o quanto eu tremia, sorriu e depositou um beijo em minha testa. Olhando para todos, ele disse:
— Minha amada está emocionada, continuemos. — Ele olhou para mim e falou: — não precisamos de mais palavras, querida. Sei exatamente o que se passa no seu coração.
Todos mostraram emoção e admiração por suas palavras convincentes, para mim elas eram apenas mentiras no meio das tantas que nos cercavam.
Quando o padre nos declarou marido e mulher o meu coração disparou, era hora que mais temia de todo aquele teatro.
Alessandro, com maestria e uma sedução envolvente, envolveu minha cintura, puxando-me para perto dele. Seus lábios ardentes deslizaram suavemente sobre os meus. Por mais que eu jurasse para mim mesma que não os abriria para ele, foi a primeira coisa que fiz ao sentir sua presença. A sincronia das nossas línguas fez com que qualquer pensamento racional que eu tivesse desabasse, pois ali estava a química, o desejo, tangíveis e avassaladores.
Ele emanava sedução, e meu corpo me traía descaradamente. Quando ele se afastou, segurou firmemente minha mão, sorriu provocadoramente e caminhamos juntos para fora da igreja, recebendo as felicitações dos convidados. A partir daquele momento, eu era Gabrielle Montenegro Leone, sua esposa, e em breve me entregaria completamente a ele.
Em algum momento seu irmão falou algo em seu ouvido e ele segurou a minha mão me levando para o carro que nos esperava. Dessa vez, ele não iria dirigir, mas me ajudou a entrar no carro e logo em seguida entrou.
Quando o carro deu partida, ele levantou a divisória que separava o condutor de onde estávamos. Seu olhar caiu sobre mim se fixando em meus lábios que ainda ardiam por seu beijo.
Eu tinha sentido todo aquele calor entre nós, eu não poderia negar e eu tinha certeza de que ele também percebera isto.
— Ficaremos na festa por um período limitado e, logo após, partiremos para a residência da minha família. Não cometa nenhuma besteira, algumas coisas podem sair do controle na festa e um massacre aconteceria. Portanto, permaneça com seu teatro, sendo a bela mentirosa que você é.
A maneira como ele falou aquilo não poderia me deixar mais irritada, eu não estava mentindo sobre o meu ódio, nem sobre o desprezo de ter me tornado sua esposa.
— Acho que somos os dois mentirosos, você recitou bem...
Ele se movimentou rapidamente como das outras vezes, mas desta vez eu me vi deitada no banco do carro com ele sobre mim.
Vi seu olhar assassino quando seus lábios invadiram os meus novamente, sua língua de encontro com a minha novamente me enlouqueceu e involuntariamente eu gemi.
Ele empurrou seu corpo ainda mais no meu e novamente eu senti o quanto ele estava duro. Ele se afastou e com um sorriso presunçoso disse:
— Sua boceta pode ser virgem, mas de inocente você não tem nada. Já esteve na cama de outro homem. Não existe nada que eu não descubra, esta cidade está em sua grande maioria sob o comando dos Montenegro Leone. Não se esqueça disto.
— Você é um grosso, um idiota...
— Você está excitada, está visivelmente me desejando. Não vai ser difícil nossa noite. — Ele alisou a minha perna indo perigosamente para entre elas.
Arfei sob seu toque, a cada segundo eu queria pedir para ele parar.
— Canalha...
Ele sorriu, continuou lentamente, mas o carro parou e ele rapidamente se afastou dando uma piscadinha para mim.
Respirei fundo, eu sabia o que fazer com ele naquela noite. Ele me pagaria por tudo, o sangue derramado não seria o meu.
A festa foi exatamente a extensão do teatro que fizemos na igreja, todos sorriam e nos admiravam. O problema era que a cada toque de Alessandro na minha pele eu tremia, mas infelizmente eu ainda não conseguia decidir se era de ódio ou puro desejo.
Quando chegou o momento da dança dos recém-casados, elegantemente o meu marido me levou para o centro do salão luxuoso e colou o seu corpo no meu.
Alessandro com certeza tinha por volta de 1,90 e eu com salto não alcançava 1,65, ele movia o meu corpo sem dificuldade e eu quase não precisava me movimentar.
Ele tinha escolhido a música, obviamente nunca tínhamos ensaiado, mas tudo estava acontecendo a perfeição.
A música que estava tocando era Constantemente Mia do grupo Il Volo. O desgraçado estava me provocando cantarolando em meu ouvido e mantendo o seu sorriso cafajeste em seus lábios perfeitos.
— "Eu te encontrei nas ondas do destino. E desde então, tudo mudou em mim. Constantemente minha." — ele sussurrava.
Quando a música acabou ele me curvou para trás e me beijou, eu não ofereci resistência e correspondi com a mesma intensidade, o que fez todos a nossa volta gritarem e assoviarem. Momento em que nos afastamos, parecia que tínhamos perdido a noção do tempo daquele beijo e pela primeira vez vi os olhos de Alessandro com um brilho diferente do que eu tinha visto até ali.
— Preciso ir ao banheiro. — Eu disse, quebrando o nosso contato visual e seguindo em direção aos banheiros sem esperar por uma resposta.
Eu demorei alguns minutos ali dentro, alisei o colar que eu carregava no pescoço, tinha sido de minha mãe e seria ele que me ajudaria naquela noite.
Quando sai do banheiro, vi de relance Alessandro descendo por uma parte do jardim se afastando da festa. Sem pensar, eu o segui, evitando ser vista pelos seguranças que estavam por toda a parte. Não foi difícil ver o meu querido esposo falando com uma mulher tão alta quanto ele, os seus cabelos ruivos me fizeram lembrar que ela já era uma velha conhecida.
Me amaldiçoei não estar com um celular para gravar o maldito. Estava esperando-os se agarrarem, se beijarem. Mas ela parecia desesperada e ele implacável permaneceu parado a sua frente.
Não consegui ouvir nada, pois não poderia me aproximar, mas percebi que ela chorava. Ele tirou o telefone do bolso e segundos depois a mulher estava cercada por seus seguranças, enquanto Alessandro voltava para a nossa festa, ela foi levada para longe.
Gelei, ele teria mandado matarem a sua amante? Ou talvez teria apenas a afastado para manter sua índole de mafioso tradicional.
Apressei meus passos do lado oposto do jardim, ele não poderia me ver. Corri um pouco, mas cai, momento este que sapatos elegantes pararam na minha frente.
E ali estava o segundo homem mais poderoso da Itália, meu pai estava no terceiro posto, por isto eu estava ali. Acima deles apenas Don Raffaele.
— Cuidado, criança. Onde estava? Pretendia fugir do seu esposo? — O pai de Alessandro me encarava enquanto estendia sua mão para mim.
Em um dos seus dedos o anel que eu tanto odiava, uma grossa cabeça de leão toda em ouro, a marca dos assassinos Montenegro Leone.
Eu me esquivei de sua mão vendo seu olhar reprovador e me levantei ajeitando o meu vestido e meus cabelos.
— Eu apenas me perdi quando sai do banheiro, vou procurar Alessandro...
— Estou bem aqui. — A voz do meu marido estava em minhas costas.
Ele segurou a minha cintura e encarou o seu pai que o observava como se soubesse que o filho estava fazendo algo errado.
— A festa acabou para os dois. Leve sua esposa para a casa e consume este casamento Alessandro. Está na hora disto acabar. Você sabe o que tem que fazer logo em seguida.
— Sim, papa. — Respondeu secamente.
O meu coração gelou, ele realmente me forçaria a transar com ele? Eu não sabia muito sobre este ritual, mas sabia que a prova que ele tirou a minha virgindade deveria ser exposta para todos verem. Seria isto o que eles falaram? Eu não confiava naquela família e eu estava pronta para tudo, talvez a ordem fosse me matar de alguma maneira.
Eles eram bons nisto, muitas vezes assassinavam e faziam parecer acidente. Eu agora viveria com monstros e dormiria na mesma cama com o mais perigoso deles.
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