
Entre o Amor e o Ódio
Capítulo 3
O dia estava agradável para apreciar as belezas naturais que a pacata cidade de Valença oferecia, através da janela do carro, os olhos azuis de Victor descortinavam as construções históricas. O centro da cidade dava acesso ao Cruzeiro, um mirante de onde podia-se observar a cidade. O lugar tinha uma praça e uma cruz que media 11,20m de altura por 5m de largura.
Victor contemplava o lugar onde cresceu com uma certa nostalgia, recordava-se dos passeios pelas pontes no Arco de Conservatória, os mergulhos nas águas doces e cristalinas da cachoeira e as trilhas por onde costumava se aventurar.
Jogou a cabeça para trás, passou as mãos nos fios curtos e fechou os olhos, ele não esqueceria das últimas palavras de Carmem pouco antes da despedida em Veneza. Carmem era uma daquelas mulheres bonitas, que gostava de viver intensamente e que não tinham nada na cabeça. Victor curtia a vida ao lado de sua namorada e esbanjava o dinheiro em farras e bebidas, no entanto, o seu mundo se despedaçou assim que o pai retirou todas as suas mordomias e exigiu que Victor retornasse à fazenda no interior do Rio de Janeiro. Se por acaso, ele optasse por não voltar, Victor teria que trabalhar para manter sua vida na Itália.
Depois de uma longa conversa com a bela mulher de olhos cor de âmbar, seu coração se partiu, pois Carmen não estava disposta a dormir no ponto quando o assunto não era de seu interesse.
Victor abriu os olhos e notou a jovem sorridente que pedalava em sua bicicleta rosa, na garupa carregava caixas com verduras, provavelmente era uma das camponesas da cidade. O carro se aproximou e então ele teve um rápido vislumbre da garota de rosto oval e queixo delicado. Aquele não era um rosto que ele esqueceria facilmente.
Durante a infância, recordou, dividia o lanche e cuidava da amiga que era humilhada por não ter um sapato decente ou uma mochila para levar o material da escola.
— Lembra dela? — perguntou o capataz que dirigia a caminhonete preta.
Victor negou com a cabeça. Ele olhou para a garota quando o carro passou por ela.
— Ela é Clarice! Filha daquele peão que trabalhava na fazenda do seu pai. — Coçou a barba preta. — O pai dela morreu há sete anos e, agora, ela cuida da mãe doente e da irmã pequena.
Os olhos claros a miravam como se nunca a tivessem visto antes, ela estava bem diferente da última vez que ele a viu, há mais de 15 anos.
— Lamento por ela! — Ajeitou-se no banco com estofado cinza e olhou para a frente.
Victor estava mais preocupado com o sermão do pai. Estava disposto a enfrentá-lo e dizer que não queria ficar naquela cidadezinha no interior do Rio de Janeiro, tinha que retornar a Veneza para reconquistar o amor e confiança de sua amada Carmen.
...
A fazenda Bela Vista localizava-se num lugar privilegiado, um vale cercado por serras e protegido em seu entorno por uma mata secundária e jardins, não era possível ver a casa Grande da estrada. A família Corte Real manteve a decoração dos móveis rústicos com mobílias de época espalhadas por todos os cantos da casa. O casarão de dois andares, em estilo neoclássico e fachada branca, no século XIX pertencia ao famoso barão do café Manuel Corte Real, tataravô de Victor, que ostentava riquezas e poder.
Embora a economia da família e da cidade crescesse no ciclo cafeeiro, mesmo depois de anos no auge, experimentou tempos complicados. Desde então, assim como os avôs tiveram que se reinventar para manterem o patrimônio de pé, o pai de Victor fazia de tudo para manter o patrimônio e o legado nos últimos trinta anos. No fundo, Victor sabia que, logo, o peso dessa responsabilidade cairia sobre os seus ombros.
Durante o tempo em que viveu na Itália, Victor nunca preocupou-se em poupar dinheiro para garantir o seu futuro. Acreditava que a fortuna de sua família e a mesada que o pai enviava todos os meses seriam o suficiente para manter sua vida luxuosa e desregrada. Ele olhou para o saldo de sua conta e sentiu-se desapontado pelo fato dos pais cortarem todas as suas mordomias.
O homem comprido e com ondulações nos músculos do abdômen levantou-se da cama e abotoou a camisa enquanto contemplava o gramado verde através da janela de madeira colonial branca do quarto. Olhou para as folhas das laranjeiras que se estendiam pelo pomar nos fundos da casa grande, aos poucos, o breu tomava conta do céu. Victor reparou no reflexo do espelho oval bisotê com moldura em madeira e ajeitou os fios negros que caíam ao lado da testa, atravessou os dedos e penteou as mechas lisas para trás.
— Se eles pensam que vou ficar nesse lugar, estão muito enganados! — exclamou com impaciência.
Colocou o cinto e fechou a fivela, estava preparado para ser honesto e dizer tudo o que pensava sobre aquela fazenda para o seu pai. Saiu do quarto, vagou pelo assoalho de madeira e subiu os lances de escada. Abriu a porta do escritório e vislumbrou a fisionomia carrancuda do homem que exibia uma barriga saliente. Sentou-se atrás de uma mesa de madeira envernizada, tirou o charuto da boca e soprou a fumaça.
— Olha quem resolveu aparecer! — Os olhos tinham uma expressão indecifrável. — Sabia que você voltaria, mas não tão cedo! — Ajeitou as costas na cadeira — Beba um pouco! — falou com uma voz autoritária.
Carlos Corte Real entendia tudo sobre escrituração mercantil, avicultura, pecuária e agricultura, ao contrário de seu filho, que se recusou a aprender tudo o que envolvesse aquela fazenda. Mesmo decepcionado, Carlos procurou ser paciente assim como sua esposa pediu. Achavam que talvez o tempo despertaria o interesse do filho pelos negócios da família
Victor pegou o copo e sentiu o aroma forte de conhaque sob o seu nariz, sorveu um gole da bebida alcoólica destilada.
— O senhor sabe que não gosto dessa cidade!
Carlos se agigantou do outro lado da mesa, o punho fechado socou o tampo retangular. Fez um movimento furioso na direção do filho, no entanto, foi interrompido pela voz serena de uma mulher de pele morena.
— Contenha-se Carlos! — Olívia colocou-se ao lado do filho. — Qual o seu problema? — perguntou.
Victor livrou-se da fúria do pai e bebeu um gole do líquido marrom palha. Olhou para o conhaque no seu copo enquanto se recompunha.
— Converse com o seu filho, Olívia! — Fitou-a com a respiração ofegante e os punhos fechados sobre a mesa.
— Victor é nosso filho!
— Ah, tanto faz! — Carlos levantou a mão ao protestar— Esse babaca pensa que eu vou sustentar a boa vida que ele leva com a cadela dele no exterior.
— Retire o que disse! — Victor aprumou-se diante do pai, mas Olívia segurou-o pelo braço. — Carmen não é uma cadela! — vociferou.
— Então, cadê ela? — Os grandes olhos expressivos de Carlos miravam a porta aberta. — Te deu um pé na bunda depois que o dinheiro acabou? — indagou em um tom sarcástico.
— Já chega! — Olívia ergueu a voz.
— Por sua culpa, esse garoto é um irresponsável! — berrou Carlos.
— Minha culpa? — A mulher alta e esguia cruzou os braços na defensiva. — Você que insistiu para que Victor estudasse nos melhores colégios europeus…— ela espremeu os olhos como fendas cortantes enquanto mirava o rosto com a fisionomia estranha do marido.
Victor aproximou-se da porta e saiu sem ser notado, não fazia questão de participar daquela discussão entre os pais. Pegou o celular, tocou na tela brilhante e discou o DDI da Itália. Franziu o cenho quando a voz masculina o atendeu.
— Onde está Carmen? — perguntou. — Como assim está no banho? — Ele desceu os degraus de madeiras em passadas largas enquanto brigava com o homem pelo telefone. — Quero falar com a minha namorada! — Ele entrou em seu quarto e bateu a porta com toda a força. Examinou os traços de olhar sombrio no espelho do guarda roupa. — Como assim ela está ocupada?
Ele sentou na beira da cama com uma colcha azul e bufou quando o homem do outro lado da linha desligou. Esticou o corpo no lençol que cobria o colchão e olhou para o teto com forro de madeira envernizado. Tinha que arrumar um jeito de voltar para Itália e reconquistar Carmen.
...
Eram quase dez horas da noite, o cricrilar dos grilos e o canto das cigarras não o deixavam dormir. Victor afundou no colchão. Não tinha nada para fazer naquele fim de mundo. Recordou-se de quando Clarice lhe contou sobre o canto das cigarras. Ela costumava dizer que aquele era um aviso de que no dia seguinte faria sol.
Uma brisa morna entrou pela janela, sua mente não parava de pensar na amiga de infância.
"Será que ela ainda era virgem? Talvez ela tenha se entregado para algum peão dessa maldita cidade". O pensamento o fez agarrar o travesseiro e bufar.
Minutos depois, ele virou-se para o outro lado e pensou novamente nas curvas de Clarice. Apesar dela não ser o tipo de mulher que almejava, Victor não deixou de reparar em seu decote enquanto ela pedalava na bicicleta.
"Os seios são redondos e firmes, talvez ela tenha serventia para o que eu quero".
Enfiou a mão direita na calça de moletom preta. Victor empunhou o membro endurecido que reagia ao pensamento lascivo. Ele se tocou compulsivamente, movendo a palma da mão fechada de cima para baixo.
A imagem de Clarice deitada sobre a grama verde lhe veio à mente. As mãos puxando o tecido de malha de seu vestido florido até a altura da barriga e os quadris erguendo-se para encontrar suas coxas abertas.
Ele fechou os olhos, os primeiros espasmos puseram um fim naquela agonia deliciosa. As veias de seu membro teso pulsavam enquanto expelia um líquido viscoso. Finalmente, ele alcançou o que desejava, estremeceu de prazer por pensar em como seria tocar e entrar no calor daquele corpo imaculado. Victor estava ansioso para reencontrar a sua amiga de infância. Teria que seduzir Clarice para colocar o seu plano em prática.
Você pode gostar





