
Entre Grades e o Coração Partido
Capítulo 2
O ar no cemitério era pesado, carregado com o cheiro de terra molhada e flores murchas. Eu estava parada em frente à lápide simples de mármore, o nome "Clara da Silva" gravado nela. Minha mãe. O sonho dela de ter uma casa própria foi enterrado junto com ela, e a culpa pesava em mim, mais do que a umidade de São Paulo que grudava na minha roupa.
Faziam seis meses que eu tinha saído da prisão, um lugar onde passei dois anos por um crime que não cometi. Cada dia lá dentro foi um inferno, mas nada se comparava à dor de saber que minha mãe adoeceu de tristeza e morreu sem que eu pudesse me despedir.
Uma voz atrás de mim cortou o silêncio.
"Maria?"
Eu me virei, e meu coração parou por um segundo. João estava ali, parado a alguns metros de distância, vestindo um terno caro que parecia fora de lugar entre as sepulturas. Ele estava mais magro, com olheiras que nem o bronzeado disfarçava, mas ainda tinha o mesmo sorriso carismático que um dia me fez acreditar em contos de fadas.
"O que você está fazendo aqui?" , perguntei, minha voz saindo mais áspera do que eu pretendia.
Ele deu alguns passos em minha direção, as mãos nos bolsos da calça.
"Eu soube que você tinha... voltado. Fiquei preocupado. Eu sinto muito pela sua mãe, Maria. Dona Clara era uma mulher incrível."
Sua voz era suave, cheia de uma falsa compaixão que me deu náuseas. Ele agia como se fosse um velho amigo oferecendo condolências, não o homem que destruiu minha vida.
"Não fale o nome dela" , eu disse, baixo e firme.
João pareceu surpreso, mas logo recompôs a expressão.
"Olha, eu sei que as coisas terminaram mal entre a gente. Eu fui um idiota, eu admito. Mas eu nunca quis que nada disso acontecesse. A vida... ela nos levou para caminhos diferentes."
Ele estendeu a mão, como se quisesse tocar meu braço, mas eu recuei instintivamente.
"Caminhos diferentes?" , repeti, sentindo a raiva começar a borbulhar dentro de mim. "Você chama destruir a vida de alguém de 'caminho diferente' ?"
Nesse momento, um casal de idosos que cuidava de um túmulo próximo nos olhou. A senhora sorriu para João.
"Doutor João, que bom ver o senhor por aqui! Sempre tão atencioso."
O marido dela concordou.
"Um rapaz de ouro! Li no jornal sobre o noivado do senhor com a filha do deputado. Meus parabéns! Gente de bem com gente de bem."
João deu um sorriso modesto, agradecendo.
"Obrigado, seu Antônio. A gente faz o que pode para ajudar a comunidade."
A ironia daquelas palavras me atingiu como um soco no estômago. Ajudar a comunidade. Meu sangue gelou. Eu fechei os olhos e a cena toda voltou à minha mente com uma clareza terrível.
João, com seus olhos brilhantes e promessas de um futuro juntos. Ele, me convencendo a assinar uns papéis para um "projeto social" que ele estava organizando. Ele dizia que era para acelerar a construção de moradias populares, o mesmo conjunto habitacional que minha mãe sonhava em morar. O mesmo projeto que, eu descobriria depois, foi desenhado pelo meu próprio pai, o arquiteto que eu mal conheci e que minha mãe dizia ter morrido.
Eu, ingênua e apaixonada, assinei tudo. Vendedora de rua, com pouca instrução, eu confiei no meu namorado, o brilhante estudante de direito. Mal sabia eu que estava assinando minha própria sentença. O dinheiro do projeto foi desviado, as obras nunca começaram, e a culpa caiu sobre mim. Os documentos tinham a minha assinatura. João e sua nova namorada, Sofia, a filha do político, usaram o dinheiro para financiar a campanha do pai dela e suas vidas de luxo.
Eu fui presa. Minha mãe, vendo o sonho da casa virar pó e a filha atrás das grades, adoeceu. Um ataque cardíaco fulminante, foi o que disseram. Desgosto. Foi o desgosto que a matou. Na cadeia, recebi uma última carta dela, uma carta que ela deixou com uma vizinha. Nela, minha mãe revelava tudo sobre meu pai, o arquiteto idealista, e me entregava os projetos originais que ela havia guardado por todos esses anos. A verdade era uma arma, e agora eu a segurava.
Abri os olhos. João ainda estava ali, com seu ar de bom moço.
O senhor que o elogiou continuou falando.
"É uma pena o que aconteceu com aquele projeto das casas. Tanta gente aqui da periferia tinha esperança. Mas ainda bem que o senhor não teve nada a ver com aquela bandidagem, não é? Prenderam a moça que roubou o dinheiro, coitada da mãe dela..."
O homem balançou a cabeça, com pena. Uma pena direcionada à pessoa errada.
João olhou para mim, seu rosto uma máscara de preocupação calculada.
"Vamos conversar em outro lugar, Maria. Aqui não é o momento. Eu posso te ajudar. Você parece precisar de ajuda."
A ajuda dele. A mesma ajuda que me colocou numa cela e minha mãe numa cova. A vontade que eu tinha era de gritar, de expor ele ali mesmo, na frente de todos. Mas eu aprendi a ser paciente. A vingança, descobri da pior forma, é um prato que se come frio. Muito frio.
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