
Entre Amor e Ódio
Capítulo 3
O sorriso de Emily desapareceu lentamente.
Porque Augusto Bastos nunca andava acompanhado daquele tipo de homem.
Nunca.
O segurança ao lado do pai dela tinha uma postura militar.
Uma postura fria.
Ameaçadora.
E ainda carregava uma arma na cintura sem nem tentar escondê-la.
A música continuava alta perto da piscina.
As pessoas riam.
Dançavam.
Mas alguma coisa no ar tinha mudado.
Emily sentiu.
E Matheus também.
Porque ele já estava completamente diferente agora.
O corpo rígido.
Os olhos atentos.
Como se tivesse entrado automaticamente em estado de alerta.
Rodrigo soltou o ar devagar ao lado dela.
— Pronto.
Começou.
Emily franziu a testa.
— O que tá acontecendo?
Mas nenhum dos dois respondeu.
E isso irritou ela instantaneamente.
— Eu odeio quando vocês fazem isso.
Rodrigo desviou os olhos de Augusto só pra olhar pra ela.
— Isso o quê?
— Essa coisa de agir como se soubessem de alguma coisa e eu fosse a última a descobrir.
Rodrigo abriu um sorriso pequeno.
Mais fraco dessa vez.
— Princesa…
— Não.
Não me chama assim quando tá tentando me enrolar.
Matheus quase soltou uma risada.
Quase.
Mais Emily percebeu pelo canto do olho.
E aquilo irritou ela ainda mais.
— Tá rindo do quê?
— Nada.
— Você tá com cara de quem tá rindo de mim.
— Talvez porque você fique irritada rápido demais.
Emily cruzou os braços imediatamente.
— E talvez você seja insuportável.
Rodrigo entrou no meio dos dois antes que começassem outra discussão.
Literalmente.
Colocando uma mão no ombro de Matheus e outra na cintura dela.
— Ok.
Chega.
Vocês dois vão acabar se matando e eu tô tentando aproveitar minha noite.
Emily revirou os olhos.
— Ele começou.
— Claro.
A culpa é sempre minha. — Matheus respondeu seco.
Rodrigo começou a rir sozinho.
— Eu juro por Deus…
às vezes parece que vocês são um casal brigado há quinze anos.
— Cala a boca, Rodrigo. — os dois responderam juntos outra vez.
Silêncio.
Rodrigo arregalou os olhos dramaticamente.
Depois apontou pros dois.
— Isso aí já tá começando a me assustar.
Emily acabou rindo.
E droga.
Ela odiava o fato de Matheus ter olhado pra ela exatamente naquele momento.
Como se prestasse atenção demais nela.
Sempre.
Desde adolescente, Matheus Albuquerque tinha aquele hábito irritante de observar tudo.
Principalmente ela.
O jeito que ela falava.
O jeito que ela reagia.
O jeito que ela ria.
E Emily nunca conseguiu decidir se aquilo irritava mais…
ou bagunçava mais ela por dentro.
Augusto Bastos começou a subir lentamente a arquibancada.
Otávio Albuquerque vinha logo atrás.
Os dois homens tinham presença demais.
Poder demais.
Era impossível ignorar quando chegavam em algum lugar.
Rodrigo automaticamente tirou a mão da cintura de Emily.
Respeito.
Instinto.
Mas ela percebeu.
E percebeu outra coisa também:
Matheus observou isso.
E é claro que observou.
Ele observava tudo.
Augusto parou na frente dos três.
E Augusto Bastos sorriu.
O tipo de sorriso que funcionava perfeitamente diante das câmeras.
Educado.
Controlado.
Treinado.
Mas Emily conhecia aquele sorriso.
Sabia exatamente o que existia por trás dele.
Porque Augusto raramente demonstrava raiva.
Ele preferia algo muito pior.
Preferia esperar.
Observar.
E vencer sem precisar levantar a voz.
O olhar dele foi primeiro em Matheus.
Depois em Rodrigo.
E por último na própria filha.
Frio.
Controlado.
Político.
— Emily.
Você não atende meu telefone.
Ela cruzou os braços imediatamente.
— Porque eu sabia que você ia estragar minha noite.
Rodrigo tossiu tentando esconder a risada.
Otávio Albuquerque balançou a cabeça lentamente.
— Tu provoca teu pai desde pequena ou fez curso?
Emily sorriu de lado.
— Nasci talentosa.
Rodrigo começou a rir.
Mas Matheus…
Matheus continuava sério.
Observando o segurança atrás de Augusto.
Emily percebeu.
E aquilo começou a incomodar ela.
E muito.
Augusto olhou rapidamente para Rodrigo.
— Sua mãe sabe onde você está?
Rodrigo abriu um sorriso relaxado.
— Tecnicamente?
Não.
— Rodrigo.
O tom de Augusto ficou mais duro.
Mas Rodrigo não parecia intimidado.
Nunca parecia.
E talvez fosse exatamente isso que incomodava tanto os adultos.
Rodrigo não abaixava a cabeça pra ninguém.
Nem pro homem mais poderoso do Estado.
Emily sentiu o braço dele encostar discretamente no dela.
Gesto pequeno.
Quase imperceptível.
Mas suficiente pra acalmar ela.
Sempre suficiente.
Rodrigo tinha esse efeito absurdo sobre ela.
Como se tudo ficasse mais leve quando ele tocava nela.
Mesmo quando o mundo inteiro parecia prestes a explodir.
Otávio observou os dois rapidamente.
Depois olhou para o próprio filho.
— Matheus.
— Senhor.
— Leva Emily pra casa.
Silêncio.
Emily arregalou os olhos imediatamente.
— O quê?
Rodrigo franziu a testa na mesma hora.
— Pra quê?
Augusto sustentou o olhar da filha.
— Porque eu mandei.
Emily soltou uma risada incrédula.
— Você tá brincando comigo?
— Emily.
— Não.
Eu acabei de chegar.
— E agora vai embora.
Rodrigo deu um passo à frente.
Instintivo.
Protetor.
— Ela não quer ir.
O clima mudou na mesma hora.
Pesado.
Perigoso.
Augusto Bastos encarou Rodrigo em silêncio.
E pela primeira vez naquela noite…
Emily sentiu alguma coisa gelar dentro dela.
Porque o olhar do pai tinha mudado.
Frio demais.
Cortante demais.
Otávio percebeu também.
— Rodrigo… — tentou aliviar.
Mas Rodrigo não recuou.
Claro que não.
Ele nunca recuava.
— Eu tô falando com ela, não com o senhor.
Emily sentiu o coração acelerar imediatamente.
Meu Deus.
Matheus fechou os olhos por um segundo.
Como alguém prevendo exatamente o desastre prestes a acontecer.
E então Augusto falou.
Baixo.
Controlado.
Ele é muito pior daquele jeito.
— Você está começando a esquecer qual é o seu lugar.
O sorriso de Rodrigo desapareceu.
Completamente.
Emily sentiu o estômago afundar.
Porque aquilo não foi só uma frase.
Foi um aviso.
E Rodrigo sentiu isso também.
Ela viu.
Viu no jeito que o maxilar dele travou.
No jeito que os olhos dele escureceram.
No jeito que Matheus imediatamente ficou tenso entre os dois.
Como alguém prestes a impedir uma explosão.
— Augusto… — Otávio tentou outra vez.
Mas já era tarde.
Porque Rodrigo deu outro passo à frente.
E respondeu olhando diretamente nos olhos do pai dela:
— E o senhor tá começando a esquecer que ela não é propriedade sua.
Silêncio novamente.
A música continuava alta lá embaixo.
As pessoas ainda dançavam.
Mas na arquibancada…
o mundo inteiro tinha parado.
Emily sentiu o coração bater tão forte que começou a doer.
Porque alguma coisa acabava de mudar.
Definitivamente.
E ela percebeu isso no segundo em que Augusto Bastos olhou para Matheus.
Não para Rodrigo.
Para Matheus.
E disse:
— Tira ela daqui.
Agora.
Mas o pior não foi isso.
O pior…
foi o jeito que Matheus olhou pra Rodrigo antes de se mexer.
Como alguém preso entre as duas pessoas mais importantes da própria vida.
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