
Entre a espada e a parede
Capítulo 2
O táxi freia com um guincho diante de um gigante de vidro preto que parece engolir o horizonte. Vortex Enterprises. O nome ressoa em minha mente como um tambor enquanto olho pela janela embaçada, com o pulso acelerado e um nó no estômago que não consigo desfazer. O prédio é uma massa intimidadora, com suas linhas retas e seu brilho escuro refletindo poder puro, como se gritasse que aqui não há lugar para os fracos. Não é apenas uma empresa; é um reino, e pertence a Damián Valtor, alguém que certamente nunca precisou revirar o fundo de uma bolsa procurando moedas soltas.
Pego uma nota amassada -a última que me resta depois de esticar meu orçamento até o limite- e a entrego ao motorista com dedos desajeitados.
-Obrigada -murmuro, embora ele nem me olhe, ligando o motor e me deixando sozinha diante dessa besta arquitetônica.
O ar da cidade me atinge, carregado de poeira e um calor pegajoso que faz minha blusa grudar nas costas. Seguro minha bolsa com força, como se fosse a única coisa que me mantém ancorada à realidade, e me obrigo a dar um passo à frente. Não entendo como cheguei aqui, como uma desempregada como eu, com mais tropeços que sucessos, acabou se candidatando para cuidar do filho do homem mais poderoso do planeta. Mas Sofia estava certa: não tenho nada a perder, e é isso que me impulsiona em direção àquelas portas de vidro que brilham como espelhos.
Meu reflexo me encara enquanto me aproximo: Valeria Montes, vinte e oito anos, com uma blusa branca que passei até cansar para esconder o quão barata é, uma saia cinza que me aperta um pouco mais do que eu gostaria de admitir e sapatos pretos gastos que gritam "liquidação" a cada passo. Meu cabelo castanho está preso em um rabo de cavalo desalinhado -não tive tempo nem energia para brigar com ele-, e as olheiras sob meus olhos são testemunhas de uma noite em claro, imaginando todas as formas como isso pode desmoronar. Não sou uma candidata imponente, mas é o que tenho, e com isso preciso enfrentar o que vier.
Empurro as portas giratórias e entro. A mudança me sacode: o ar-condicionado é uma rajada gelada que arrepia minha pele, e o saguão parece outro mundo. O chão de mármore branco brilha tanto que quase me cega, as luzes pendem do teto como joias flutuantes, e atrás de um balcão minimalista está uma recepcionista que parece ter saído de um anúncio de perfume caro. Suas unhas vermelhas digitam com precisão militar, e quando levanto os olhos, ela me lança um olhar que mistura curiosidade e algo que pode ser desprezo.
Me aproximo, engolindo em seco, e pigarreio para não soar como um rato assustado.
-Olá, sou Valeria Montes. Vim para a entrevista... a de babá -digo, mas minha voz falha no final, perdendo-se no eco do lugar.
Ela arqueia uma sobrancelha perfeitamente desenhada e verifica algo em sua tela.
-Terceiro andar, sala de espera B. O elevador fica à direita. Não se atrase -responde, cortante como uma faca, e volta ao teclado sem me dar outro olhar.
-Obrigada -sussurro, embora duvide que ela me ouça enquanto me viro para o elevador, com as pernas trêmulas como gelatina.
A viagem naquela caixa de metal polido é curta, mas parece eterna. O silêncio é quebrado apenas pelo zumbido suave do motor, e me vejo nas paredes espelhadas, ajustando minha blusa com dedos nervosos. As portas se abrem com um sibilo, e saio para um corredor cinza e silencioso, com tapetes tão grossos que meus passos não fazem barulho. Uma placa indica "Sala de espera B" à esquerda, e a sigo como se fosse um farol em meio a uma tempestade. Ao cruzar a soleira, o ar fica preso em minha garganta.
A sala está cheia de mulheres -nove, conto rapidamente-, e todas parecem ter sido desenhadas para me intimidar. Há uma loira com um terno azul que exsuda dinheiro, digitando em seu celular com unhas que parecem joias. Outra, de cabelo preto e liso como um rio de tinta, revisa uma pasta cheia de documentos que devem ser credenciais impecáveis. Uma ruiva de pernas intermináveis retoca o batom com um espelhinho, e todas exalam uma segurança que não sinto há meses. Me sinto um erro, uma mancha nesta pintura perfeita, e meu primeiro impulso é dar meia-volta e fugir.
Mas não fujo. Me obrigo a sentar em uma cadeira no fundo, em um canto onde espero que ninguém me note. O couro está frio contra minhas coxas suadas, e cruzo os braços para esconder as mãos trêmulas. Olho ao redor, tentando não parecer tão deslocada, mas é impossível. Essas mulheres são candidatas de verdade, com experiência, com presença. Eu sou apenas... eu. Uma desempregada que não sabe nada sobre crianças e que provavelmente vai tropeçar em algo antes que isso acabe.
O murmúrio de suas vozes enche a sala, e capto fragmentos do que dizem.
-O salário é de seis dígitos por mês -sussurra a loira para uma colega que assente com olhos brilhantes.
-Dizem que ele mesmo fará as entrevistas -comenta a ruiva, e há um brilho em seu tom que me faz franzir a testa.
-Eu o vi uma vez, em um evento da Vortex. É bonito, mas corta o fôlego de medo -acrescenta uma morena com um colar de pérolas, e as outras riem baixo.
Damián Valtor? Bonito? Aterrador? Já o vi em fotos: cabelo escuro, maxilar como esculpido em pedra, olhos que parecem atravessá-lo até em papel. Mas nunca o pensei como alguém que poderia estar a poucos passos de mim, alguém real. Meu estômago dá um salto, e não sei se é pelos nervos ou por imaginá-lo diante de mim, me julgando com aquele olhar que vi nas capas. O que vou dizer a ele? Que estou desesperada? Que preciso deste trabalho para não dormir na rua? Não parece exatamente uma apresentação vencedora.
Um relógio na parede marca onze horas em ponto, e uma porta no fundo se abre com um estalo que me faz pular. Uma mulher de terno cinza aparece, tablet na mão, com o rosto tão sério que parece esculpido em mármore. Sua voz corta o ar como um chicote.
-As entrevistas começam agora. Quando ouvirem seu nome, entrem no escritório principal. Não falem a menos que sejam autorizadas, e não toquem em nada sem permissão. Entendido?
Todas assentem como robôs programados, mas eu mal consigo mover a cabeça. Minha boca está seca, e sinto que minhas pernas podem ceder se eu tentar me levantar. Ela começa a chamar os nomes.
-Carla Ramírez -diz, e a loira do terno se levanta com um sorriso confiante, desaparecendo atrás da porta.
Eu a espero, prendendo a respiração, imaginando-a conquistando quem quer que esteja do outro lado. Mas quando ela sai, seu rosto está pálido, e ela caminha rápido, como se estivesse fugindo. O que aconteceu lá dentro? Minha ansiedade cresce enquanto os nomes continuam: algumas voltam altivas, outras cabisbaixas, e eu me afundo mais na cadeira a cada turno.
Os rumores começam a circular entre as que restam.
-Ele é frio como gelo -sussurra uma.
-Fez perguntas impossíveis -diz outra, e sinto que vou desmaiar.
Quando só restamos três, meu coração bate tão forte que dói. Então, ouço:
-Valeria Montes -anuncia a mulher, e o mundo para.
Todas me olham, e me levanto lentamente, com as pernas como se fossem de pano. Seguro minha bolsa com tanta força que meus nós dos dedos embranquecem, e a porta está lá, me esperando. Atrás dela está ele. Damián Valtor. O homem que pode mudar minha vida ou me destruir com uma palavra.
Respiro fundo, empurro a porta e penso: "Por favor, Valeria, não caia."
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