
Entre a espada e a parede
Capítulo 3
A porta à minha frente parece mais alta do que deveria, como se fosse a entrada de um castelo, e não de um escritório. Minha mão treme quando a empurro, e o ar frio do corredor é substituído por um cheiro de couro e madeira polida que me atinge de imediato. Estou tão concentrada em não hiperventilar que não vejo o pequeno degrau na soleira. Meu pé direito se enrosca no esquerdo e, antes que eu possa processar, estou caindo. Não é uma queda elegante, nem um tropeço que eu possa disfarçar com uma risadinha. Não. É um tombo completo: minha bolsa voa pelo ar, meu joelho bate no carpete e meu rosto fica a centímetros de beijar o chão. O som das minhas coisas espalhadas - um lápis, meu celular velho, um pacote de lenços - ecoa como um estrondo no silêncio.
Quero morrer. Literalmente. Que o chão se abra e me engula, que um raio caia do céu e me desintegre, qualquer coisa para não ter que levantar o rosto e encarar o que eu sei que está ali: Damián Valtor, o homem mais poderoso do mundo, me vendo passar pela maior vergonha da minha vida. Mas não há escapatória. Estou aqui, estatelada como um desastre humano, e o calor sobe pelo meu pescoço até minha face arder como uma fogueira.
Um par de sapatos pretos impecáveis aparece no meu campo de visão. São tão brilhantes que quase refletem minha humilhação, e quando levanto o olhar, o vejo. Damián Valtor está de pé diante de mim, alto como uma torre, com um terno cinza-escuro que parece feito sob medida para realçar cada linha de seu corpo. Seu cabelo preto está penteado para trás com uma precisão que grita controle, e seus olhos - olhos cinzentos que parecem aço líquido - me observam com uma intensidade que me atravessa. Não há sorriso, nem surpresa, apenas uma sobrancelha levemente arqueada que diz mais do que qualquer palavra poderia.
- Você sempre é tão elegante ao se apresentar? - Sua voz é grave, profunda, como um trovão distante, e há um toque de sarcasmo que me corta como uma lâmina.
Não sei o que responder. Minha língua parece uma pedra dentro da boca, e tudo o que consigo emitir é um balbucio incoerente enquanto tento me levantar. Minhas mãos procuram apoio no chão, mas antes que eu consiga me erguer sozinha, ele se inclina. Sua mão - grande, firme, com um relógio prateado brilhando no pulso - segura meu braço e me levanta com uma facilidade que me faz sentir como uma pluma. O toque me queima, não porque sua pele esteja quente, mas porque há algo nele, em sua força, em sua presença, que me sacode até os ossos.
- Obrigada - sussurro, quase inaudível, enquanto cambaleio um pouco e tento recuperar o equilíbrio.
Ele não responde. Apenas me solta e dá um passo para trás, cruzando os braços sobre o peito enquanto me estuda como se eu fosse um quebra-cabeça que ele não sabe se deve montar ou jogar fora. Me abaixo rapidamente para recolher minhas coisas, colocando o celular e os lenços na bolsa com dedos desajeitados. O lápis rola para debaixo da mesa dele, e decido deixá-lo lá; não vou me arrastar na frente dele para recuperá-lo. Quando me endireito, ajusto minha blusa amassada e tento arrumar o cabelo, mas sei que ainda pareço um desastre.
- Sente-se - diz ele, apontando uma cadeira de couro em frente a uma mesa que parece mais cara que todo o meu apartamento. Seu tom não é um convite, é uma ordem, e minhas pernas obedecem antes que meu cérebro possa reagir.
Caminho até a cadeira, rezando para não tropeçar de novo, e me sento com as costas rígidas, a bolsa apertada contra o colo como se fosse um colete salva-vidas. Ele se senta do outro lado da mesa, e o espaço entre nós parece infinito e pequeno ao mesmo tempo. Seu escritório é um reflexo dele: paredes escuras, móveis minimalistas, uma janela enorme mostrando a cidade como se fosse sua. Há uma placa sobre a mesa com os dizeres "Damián Valtor, CEO" em letras douradas, e nenhum sinal de fotos, plantas ou qualquer coisa que o humanize. Tudo é frio, perfeito, intimidador.
- Valeria Montes, suponho? - pergunta ele, olhando para uma folha nas mãos, provavelmente meu formulário.
- Sim, sou eu - respondo, e minha voz soa como um rangido em comparação com a dele. Pigarreio, tentando soar mais segura - Obrigada por me receber.
Ele não responde ao agradecimento. Seus olhos voltam ao papel, e sinto que ele está dissecando cada palavra que escrevi ali, cada pequena mentira para parecer menos patética do que sou. Ele levanta os olhos e me encara de novo, direto, sem piedade.
- Experiência com crianças? - Seu tom é seco, como se já soubesse a resposta e só quisesse me ouvir admitir.
- Não muita - confesso, e me amaldiçoo por ser tão honesta -. Mas sou paciente, aprendo rápido e... acho que posso fazer um bom trabalho.
- Acha? - repete ele, e há um brilho nos olhos, algo entre divertimento e desdém -. Não estou buscando suposições, senhorita Montes. Estou buscando certeza.
Engulo em seco, e o nó na garganta aperta. Quero desaparecer, mas também quero provar que não sou tão inútil quanto pareço. Penso nas contas, na carta de despejo, no quanto preciso disso.
- Tenho certeza de que posso cuidar do seu filho - digo, erguendo um pouco o queixo, embora minha voz trema -. Não tenho experiência formal, mas sei lidar com situações difíceis. E sou boa em seguir instruções.
Ele inclina ligeiramente a cabeça, como se minhas palavras o intrigassem por um segundo. Depois apoia os cotovelos sobre a mesa e une as mãos, me observando com uma intensidade que me dá vontade de me esconder.
- E o que faz você pensar que pode trabalhar para mim? - pergunta ele, e cada sílaba pesa como chumbo.
Não sei o que responder. Minha mente corre, procurando algo, qualquer coisa que não soe como súplica. Mas antes que eu possa falar, ele se inclina um pouco mais para frente, e o ar entre nós se carrega com algo que não entendo.
- Você tem cinco minutos para me convencer de que não é um desastre total - diz, e sua voz desce um tom, tornando-se um desafio que arrepia minha pele -. Comece.
Meu coração dispara, e por um momento, apenas o encaro, perdida nesses olhos cinzentos que parecem ver através de mim. Penso em mentir, inventar uma história heróica sobre como salvei uma criança de um incêndio ou algo igualmente absurdo, mas sei que ele perceberia na hora. Então respiro fundo e deixo as palavras saírem, cruas, sinceras, como eu sou.
- Não sou perfeita - começo, e minha voz soa mais firme do que eu esperava -. Eu tropeço, cometo erros e provavelmente não sou o que o senhor esperava. Mas sou alguém que não desiste. Passei meses sem trabalho, sem dinheiro, sem nada, e ainda estou aqui, lutando. Se me der uma chance, eu não vou desperdiçar. Vou cuidar do seu filho como se fosse a coisa mais importante do mundo, porque para mim, este emprego é.
Silêncio. Um silêncio tão denso que consigo ouvir minha própria respiração. Ele não se move, não pisca, apenas me observa, e juro que sinto seu olhar percorrer cada canto da minha alma. Depois ele se recosta na cadeira, cruza os braços novamente e assente levemente, um movimento tão sutil que quase não percebo.
- Interessante - diz ele, e não sei se é um elogio ou uma sentença -. Pode ir. Ligaremos se decidir passar para a próxima etapa.
Me levanto, com as pernas tremendo, mas decidida a não cair de novo.
- Obrigada pelo seu tempo - murmuro, e me viro em direção à porta, sentindo seus olhos nas minhas costas como um peso.
Saio do escritório com o coração na garganta, a cabeça girando e uma estranha certeza: acabo de conhecer um homem que pode me destruir ou me salvar, e não sei qual das duas coisas me assusta mais.
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