
Enrico
Capítulo 3
Fui obrigada a sair da minha zona de conforto com o casamento de Aisha. Meu nome é Bianca Duprat, tenho 44 anos, sou casada com Gustavo Namioto e temos três filhos nossos, com idades bem diferentes e gerados de forma diferente também. Quando fiquei grávida de Gabriel, que agora tem 18 anos, Gustavo tinha uma filha de onze anos, Alessa, com uma mulher horrorosa chamada Sirlene. Eu sabia da filha, mas não da mulher. Fugi, sem saber que estava grávida, voltei mais poderosa com a intenção de destruir Gustavo. Tudo aconteceu muito diferente do que previ, e 5 anos depois que voltei, nos casamos a primeira vez, Gabriel tinha 7 anos. Depois do casamento, decidimos ter outro filho com barriga de aluguel, e ela teve os gêmeos Elisa e Pietro. Meu primo e melhor amigo, vivia uma relação homoafetiva com Augusto e eles adotaram a primeira filha, Camille. E como eu estava envolvida em vários projetos sociais relacionados a adoção, comecei a encontrar novas crianças pra eles. No final tinham adotado 4 e não queriam mais.
Mas, um caso chegou pra mim, e eu precisava arrumar um lar para Selena, que já tinha 9 anos! E esse caso me chegou, não pelos projetos sociais que eu tinha, mas por minhas ações perigosas e secretas referentes a máfia!
Eu tinha começado há pouco tempo, sempre fazendo a pose de durona que não queria saber dos negócios escusos de minha família. Meu irmão Enrico, 14 anos mais novo do que eu, fruto de uma traição de meu pai, adorava aquela vida e tinha ido embora pra Itália, assumir seu lugar de direito como capo da família Sabattini. Ele não poderia nem sonhar que eu estava envolvida com algumas coisas da máfia mundial. Não para ter lucros, mas para ajudar pessoas e vítimas, sempre monitorando a gestão de Enrico.
Descobri muitas coisas sobre o submundo durante meus projetos. E tinha um orgulho danado do meu irmãozinho, que era justo e correto. Implacável, sim, mas correto. Ele jamais faria ou permitiria fazer com ninguém o que fizeram com a família de Selena.
Santz, uma angolana linda toda vida, foi vendida para um brasileiro produtor de algodão. Ela tinha a pele tão preta que chegava a brilhar. Quando ela chegou no Brasil, a intenção era ser só mais uma escrava em pleno século XXI.
Eu estava mexendo em vespeiro me metendo com essa gente, investigando todas as ações de tráfico de pessoas, mas sempre tinha em mente de que se me metesse em problemas, podia chamar Enrico pra resolver!
Mas Santz era tão linda, que o senhorio começou a abusar dela. Com violência e maus tratos. Ela foi espancada duas vezes até abortar, e um funcionário da fazenda que se apaixonou por ela, a ajudou a fugir. A partir daí, os dois começaram a viver o inferno. Quando Selena tinha 8 anos, o pai foi assassinado em sua frente e Santz recuperada. Menos de seis meses depois, ela já tinha feito um grande motim na fazenda, ajudado um monte de outros traficados a fugirem e matou o produtor de algodão quando ele tentou abusar dela de novo. Foi nessas condições que Santz chegou para meu escritório de advocacia. Consegui colocar ela e Selena sobre proteção, mas a máfia Argentina conseguiu localizar as duas, antes que Santz pudesse falar o que sabia e como íamos encontrar os traficantes de pessoas.
Conseguimos resgatar Selena e eu não poderia deixar ela cair no sistema, para não ser morta pelos malditos traficantes. Augusto quem convenceu Thales a aceitar a menina muda. Eles a adotaram e não tivemos mais problemas com ninguém a perseguindo. E eu monitorei muito de perto por quase um ano, quando Thales me chamou, dizendo que a filha não era muda, e estava chamando aquela moça loira que a salvou!
Quando fui, ela pediu pra ficar sozinha comigo e me contou todos os horrores que a família dela passou, tudo o que ela tinha ouvido e me entregou o tesouro dela.
Desde que a resgatamos, Selena tinha uma bolsinha encardida que não soltava por nada e não deixava ninguém tirar dela. A psicóloga ensinou ela a chamar de tesouro e orientou ninguém mais tentar tirar dela, que no momento oportuno, ela se sentiria confortável para dividir o tesouro dela com alguém.
- Você quer que eu veja seu tesouro, Selena?
- Não. Estou dando ele pra você.
- Pra mim? Porque?
- Tia, antes de meu pai morrer, ele me deu essa bolsinha, disse que eu não entenderia o que tinha dentro, mas nas mãos das pessoas certas, ia ajudar muitas famílias a não passarem mais pelo que a gente tava passando. Muitas vezes ele me fez ensaiar dizer isso. Quando eu perguntava pra quem eu ia dizer, ele me ensinava que teria que ser pra alguém que eu confiasse muito.
- E como você conseguiu guardar esse tesouro por tanto tempo, Selena?
- Na força do ódio, tia. Depois que meu pai foi morto, aqueles malditos mafiosos pegaram a minha mãe.
- Mafiosos? Onde você aprendeu essa palavra?
- Meu pai e minha mãe me ensinaram tudo. Eles disseram que eu seria a salvação da humanidade se aprendesse a falar tudo que eu tinha pra contar direitinho e guardasse o tesouro até o momento certo!
- E quando você brincava e se divertia, Selena?
- Nunca. Eu não posso descansar, tia Bia.
Aquilo me partiu o coração, mas não era nada perto do que Selena ainda tinha pra me contar. O relato dela me impactou de tal maneira, que eu fiquei semanas depois daquilo paralisada, só querendo abraçar meus filhos com toda a força e chorar:
- Quando pegaram minha mãe, ela estava grávida. Eu não consegui salvar meu irmãozinho, eles bateram muito nela e saiu sangue pelas pernas. Mas consegui negociar com eles a vida dela, e eu quem deu a idéia de ela voltar pra fazenda de onde meu pai tirou. Que eles podiam vender ela de novo para o mesmo dono.
- De onde você tirou essa idéia, Selena?
- Meu pai disse que eles precisavam de um jeito de voltar para a fazenda, porque tinha mais coisa pra colocar na minha bolsinha do tesouro.
- E com o que você negociou, Selena?
- Eles colocaram o piu piu em mim, tia. Em muitos lugares. Doeu muito, mas eu tinha que ser forte! Eu odeio a máfia, tia. Eu odeio mafiosos.
Dentro da bolsinha do tesouro de Selena, tinha mapas, nomes, locais, provas suficientes para eu desmembrar toda a organização de tráfico humano. Resgatamos mais de 300 pessoas traficadas da Angola, desmantelamos 9 locais com escravidão no Brasil e passamos muito tempo com pessoas sendo "devolvidas" em algum lugar para não cair o esquema deles. Selena nunca falou essas coisas com ninguém, é o nosso segredinho, embora também nunca mais falou comigo sobre esse assunto. Ela cresceu, ficou linda como a mãe. É a mais protegida de Thales dentre os cinco, apesar de que ele é apaixonado pelos filhos. Ela não era traumatizada, encontrou muito amor na família do primo, mas eu sempre vi ela torcendo o nariz quando alguém falava de Enrico, o amigo mafioso. Um dia, há uns três anos, ouvi Selena falando para Alessa:
- Não existe mafioso bom ou legal! Eles estupram crianças, dizimam famílias, traficam pessoas. Se o seu amigo é mafioso, ele só é legal com você, mas tem muita menina chorando por causa dele!
Depois dessa conversa, eu queria entender onde Alessa achou que chamar Enrico e Selena para seus padrinhos de casamento juntos, seria uma boa idéia?
Você pode gostar





