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Capa do romance EM SEU OLHAR

EM SEU OLHAR

Beatriz viu sua vida virar cinzas em um incêndio devastador que vitimou sua mãe e seu padrasto, deixando-a desamparada. Anos depois, a felicidade de Noah desmorona quando ele retorna de uma viagem de negócios. Sua esposa, Sara, desapareceu com todos os valores do cofre, deixando apenas um bilhete cruel questionando a paternidade da filha que esperavam. Duas trajetórias marcadas por perdas drásticas e segredos sombrios se cruzam em meio a mistérios do passado.
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Capítulo 2

Saio do meu quarto e mais uma vez tinha passado da hora de me levantar, o silêncio me diz que minha filha ainda não acordou, mas não encontro Pedro na cama. Vou ao banheiro fazer minha higiene e assim que termino, me arrumo e, saio do quarto, mas quando eu chego ao corredor, vejo Pedro sair do quarto de minha filha, o que me deixa desconfiada e como ele está se arrumando, ou melhor, arrumando sua calça, espero ele descer e entro no quarto de Bia, não a vejo na cama, que está uma bagunça só, escuto o chuveiro, vou até o banheiro e quando chego, posso ver que ela está chorando, sigo em passos lentos e abro o box, o que vejo me deixa horrorizada, minha filha tem marcas por todo o corpo, seu olhar para no meu e suas lágrimas continuam caindo.

― O que aconteceu Bia?

― Não foi nada, mãe!

― Como assim não foi nada, Beatriz? Que marcas são essas pelo seu corpo?

― Não, por favor, esquece isso mãe!

― Quero que me conte o que está acontecendo, eu vi o Pedro sair do seu quarto, se arrumando.

― Eu não posso contar mãe! Se eu falar, ele vai matar nós duas como ele matou o papai.

― Do quê você está falando?

― Ele disse que foi ele que matou o meu pai, porque ele tinha descoberto o que ele fazia, e como ele iria à polícia contar e por isso que ele mexeu nos freio do carro e meu pai não conseguiu parar.

― Filha, eu quero que me conte tudo o que ele vem fazendo com você e desde quando isso acontece.

Minha filha me olha e começa a dizer que desde antes de Pedro vir morar com a gente que ele passava a mão nela, que depois do casamento, ele foi ao seu quarto na nossa primeira noite, e isso não parou mais, e que vem acontecendo há dois anos, quando ela tinha apenas 13 anos.

A dor que estou sentindo nesse momento não tem como ser descrita, o meu peito aperta tanto. Como isso pode ter acontecido dentro da minha própria casa e eu não ter percebido?

Depois que o João morreu, o Pedro se tornou alguém muito importante em nossas vidas, sempre estava presente e quando ele me pediu em casamento, eu só pensei que a nossa vida poderia mudar, eu conseguiria manter a nossa casa e manter os estudos de minha filha, sem ser preciso tirá-la da escola particular, fiz isso pensando em seu bem estar, mas agora vejo que errei. Nunca imaginei que o Pedro poderia ser esse monstro.

― Filha, termine seu banho e se arrume para escola, que eu já venho arrumar suas coisas ― passei a mão em seu rosto. ― Não se preocupe, isso vai terminar hoje, e me desculpe, eu nunca imaginei que você estava passando por isso e me sinto culpada.

Saí do seu quarto e fui até o meu, eu não conseguia chorar, o bolo que se formou em minha garganta deixava até mesmo as minhas lágrimas presas. Vou até onde ficam as nossas documentações, pego tudo, o cartão do banco com os dados da conta corrente onde era depositado o valor todo mês da pensão do meu marido, o cartão da poupança que ele fez para a faculdade de nossa filha, tudo que pudesse dar a ela uma vida digna. Com isso ela teria algo para começar a viver novamente. Sigo de volta para seu quarto, quando chego, vejo que ela já está arrumada, vou até a sua mochila e coloco tudo bem escondido, por cima deixo seu material escolar.

― Filha, depois de pronta, desça para tomar seu café, vou pegar algo dentro do meu quarto e já desço, deixe que eu leve sua mochila quando descer.

― Está bem, mãe!

Vou para o meu quarto, pego uma folha e a caneta. Fico um tempo pensando como começar o que preciso dizer. Não posso demorar muito, por isso me apresso.

Filha, quando você nasceu foi o melhor presente que Deus nos deu, ficamos tão felizes com a sua chegada, a felicidade de seu pai ao te pegar pela primeira vez, foi inesquecível.

Ver você crescendo e se tornando o nosso motivo de viver, era a nossa alegria. Quando seu pai nos deixou, imaginei que me casando com outro, eu continuaria lhe dando o mesmo conforto, mas hoje vi que me enganei, vejo que errei ao colocar um monstro dentro de nossa casa, mas, eu juro que ele nunca mais irá tocar em você novamente.

Perdoe-me filha, e nunca se esqueça de que tanto eu, como seu pai, sempre te amamos muito, estou deixando junto com essa carta uma foto nossa para que toda vez que você sentir saudades, a olhe e nunca se esqueça da gente.

Eu a amo muito, e espero que você encontre uma família que possa te dar todo o amor que você precisa para continuar sua vida, espero que esses dois anos que sofreu calada possa ser apagado de sua memória, e que seja forte para enfrentar qualquer obstáculo que a vida colocar em sua frente novamente, seja uma mulher forte e determinada.

Eu sempre estarei com você por toda sua vida.

Beijo meu anjinho e perdoe essa mãe que a ama mais que tudo.

Com todo o meu amor, sua mãe.

Dobro a carta e saio novamente do meu quarto, entro no dela e pego sua mochila, deixo a carta com os documentos, fecho e começo a descer as escadas, vou até a cozinha, onde a encontro e Pedro tomando café. Olhar para aquele monstro me dá nojo, mas eu não posso demonstrar que sei o que ele fez, senão o meu plano não dará certo.

― Bom dia amor! ― saúda quando me vê.

― Bom dia ― respondo o mais natural que consigo.

― Hoje eu vou trabalhar só à noite, passarei o dia em casa, é bom ficar com a minha mulher.

― Fico muito feliz por ter você em casa o dia todo.

― Sabia que ia gostar, pena que a Bia tem que ir para a escola ― ele olha para ela e minha raiva aumenta.

― Ela não pode faltar, hoje tem aula importante, não é Bia?

― Sim mãe!

― Como você ficará em casa hoje, pode escolher o almoço que quiser, eu faço.

― Gostei, quero comer carne de panela, amo muito quando você faz.

― irei fazer e farei também um puré de mandioquinha que sei que gosta também.

― Então, hoje eu terei o melhor almoço de todos ― diz ele.

Você nem imagina, penso dando um sorriso sem mostrar os dentes.

― Com certeza meu amor, esse almoço será o melhor de todos.

Vejo minha filha se levantar da mesa, ainda triste, ela vai para o seu quarto escovar os dentes, volta e pega sua mochila, se despede de Pedro que a abraça forte, passa a mão pelo seu rosto, se levanta e sai da cozinha, essa cena me dá nojo. Ela vem até a mim, eu a abraço, me seguro para que as lágrimas não caiam, pois esse será o último abraço que darei a minha filha.

Vou com ela até a porta, segurando sua mão e quando vejo o carro da escola parado na porta, me viro para ela e digo.

― Nunca se esqueça de que eu a amo, independentemente de qualquer coisa, não me julgue, você é o melhor presente que Deus nos deu.

― Por que está falando assim, mamãe?

― Por nada meu amor. Agora vá...

Ela se afasta e entra no carro escolar. Vejo-o sair e agora eu deixo as lágrimas caírem, e respiro fundo, volto para dentro de casa, limpo meu rosto, vou arrumar os quartos, depois desço e vou preparar o almoço.

Depois de pronto, vou até o armário de limpeza e pego um frasquinho que tem lá, despejo todo o seu conteúdo na carne, espero um tempo para que o conteúdo do frasco incorpore à comida, hoje até pimenta eu coloquei para que nada fosse percebido. Arrumo a mesa, e vou até a sala onde ele está assistindo televisão.

― Amor, o almoço já está pronto e servido na mesa ― ele abre um sorriso para mim. Não correspondo, em vez disso, digo. ― Como estou com muita dor de cabeça, irei me deitar e só vou almoçar quando a Bia chegar, você se importa de comer sozinho?

― Não me importo! Pode se deitar, depois que comer, eu arrumo a cozinha, e quando a Bia chegar, eu mesmo vou te chamar.

Vou para o quarto, me sento na cama e espero por uma hora, estou muito nervosa, mas não vejo alternativa. Saio do quarto, vou descendo as escadas devagar e quando chego à cozinha, o vejo ainda se debatendo no chão, olho para ele, não consigo sentir pena.

O que ele fez com minha filha não tem perdão, antes de fechar seus olhos definitivamente, ele me olha, mas a minha dor é muito maior em saber que ele matou meu marido e abusou de minha filha por dois anos, isso acabou comigo. Ando até a pia, pego um copo com água, ligo todas as bocas do fogão, pego uma vela na gaveta, saio da cozinha e subo as escadas em direção ao meu quarto. Quando chego, abro a gaveta da cômoda, e, pego três comprimidos e tomo todos de uma vez só, vou até um canto e acendo a vela em cima da mesinha, me deito. Só espero que o remédio faça efeito antes que as chamas cheguem até a mim.

Agora eu realmente vou encontrar quem realmente amei e que nos amou, sinto os meus olhos se fechando e ao mesmo tempo posso sentir o calor se apoderar do quarto, agora não tem mais volta, só peço a Deus que cuide de minha filha. A escuridão toma minha vida, estou em paz.

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