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EM SEU OLHAR

Beatriz viu sua vida virar cinzas em um incêndio devastador que vitimou sua mãe e seu padrasto, deixando-a desamparada. Anos depois, a felicidade de Noah desmorona quando ele retorna de uma viagem de negócios. Sua esposa, Sara, desapareceu com todos os valores do cofre, deixando apenas um bilhete cruel questionando a paternidade da filha que esperavam. Duas trajetórias marcadas por perdas drásticas e segredos sombrios se cruzam em meio a mistérios do passado.
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Capítulo 3

Ver aquela criança tão desesperada tentando ajudar sua mãe em meio ao fogo me comoveu, e mais ainda quando ela me contou que não tinha mais ninguém no mundo, sou policial a mais de 15 anos, já vi muitas famílias destruídas, muitos pais ficarem sem seus filhos, e muitos filhos ficarem sem seus pais. Sempre me emocionou muito tudo isso, mas essa menina tinha um olhar expressivo, que mostrava que sua dor não era apenas por perder sua mãe, que tinha algo a mais.

Depois que chegamos à delegacia, ela ficou em um canto com seus pensamentos perdidos, tive que entrar em contato com a assistente na Central de adoção, um dos órgãos que fica dentro do Ministério da criança, localizado em Ontario. Ela deveria encontrar alguém que pudesse tomar conta dessa menina. Depois de esperar quase duas horas, a representante enviada pelo Ministério, chega.

― Boa noite Roseli!

― Boa noite Stella! ― saudei. ― Stella, a menina se chama Beatriz Ferreira, ela perdeu hoje, a sua mãe e o padrasto, segundo ela, o seu pai faleceu há quase três anos, sua mãe era brasileira, e veio para o Canadá à procura de emprego, e foi aqui que ela conheceu o seu marido, sei que nesses casos, vocês tentam achar alguém de sua família e se não encontrar, ela irá para adoção. ― ela apenas assente com um meneio de cabeça e eu continuo. ― Mas Stella, sabemos que com a idade dela, será muito difícil alguém a adotá-la, então, eu sou uma mulher sozinha, se os familiares dela não forem encontrados, eu gostaria de entrar com o processo de adoção.

― Com certeza, Roseli. Com essa idade é quase impossível achar alguém que a adote, tentarei fazer o processo o mais rápido possível e comunicarei ao juiz de menores, caso a família dela não for encontrada, recomendarei que ela fique em um lar provisório, com você no caso, e que você tem interesse em adotá-la definitivamente.

― Eu agradeço muito.

― Como você é uma pessoa conhecida, o processo pode ser mais rápido, e como o juiz está querendo que as crianças dentro da instituição, sejam todas adotadas, e, por esse motivo, os processos não estejam demorando tanto. Também tem a questão do apoio financeiro que o governo dar nesses casos para ajudar com as despesas até que ela esteja com a maior idade.

― Quando a ajuda financeira, não será necessária. Mas se conseguir que ela venha ficar comigo, isso será ótimo. Agora vou apresentá-la ― olho para a menina que continua no mesmo lugar. ― Beatriz, pode vir aqui um momento, por favor?

Ela me olha e se levanta sem muita vontade. Deve estar assimilando tudo ainda.

― Olá Beatriz ― Stela a cumprimenta com um sorriso.

― Essa é Stella, ela ficará responsável por você, vai tentar localizar alguém da sua família, se não encontrar, será colocada para adoção. Eu quero muito adotar você, mas só se você quiser, porque com sua idade, o processo de adoção é muito difícil, as pessoas preferem crianças menores.

― Se não encontrarem ninguém da minha família, a senhora me adotaria?

― Sim!

― Eu quero!

― Então vamos esperar, mas, hoje você precisa ir com a Stella para uma casa de apoio, eu vou visitá-la todos os dias, assim podemos nos conhecer melhor, o que me diz?

― Eu vou gostar muito de conhecer a senhora melhor.

― Quero que me chame de madrinha e não de senhora, e eu vou te chamar de Bia.

― Sim, madrinha.

― Vou vê-la amanhã, se precisar de qualquer coisa, é só me pedir.

Stella segura em sua mão e as vejo sair pela porta, essa menina me emocionou de um jeito que eu não sei explicar. Término meu turno e vou para casa, e assim que eu chego, sou recebida por Pitoco, o meu cachorrinho, meu único companheiro. Vivo sozinha há muito tempo, tive vários relacionamentos, porém, os homens só quiseram me usar, nunca houve um que quisesse nada sério, por isso, me dediquei a minha carreira. Hoje, sou a Segundo Tenente do Distrito policial, ganho muito bem, e nem sempre faço trabalhos nas ruas, mas como dois policiais faltaram hoje, tive que ir no lugar deles, acho que foi Deus, porque só assim, eu conheci a Bia.

A semana se passou, e conforme Stella me falou, não encontraram nenhum parente vivo da mãe da Bia, ela foi colocada no sistema para adoção, mas como eu já tinha entrado com o processo, teria que aguardar a decisão do Juiz e nem tudo correu como esperávamos, pois a Bia não pôde ir para um lar provisório como pensamos à principio, e tivemos que esperar todo processo judicial, só através disso que o processo de adoção será feito. Nesse caso, agora era esperar o Juiz liberar. Se eu fosse aprovada, conseguiria adotar qualquer criança que tivesse no sistema, tanto na minha cidade, como em outra, mas eu estava determinada em ajudar a Bia, talvez no futuro, eu adotasse outra.

O processo demorou mais de seis meses, foi necessário pesquisar no Brasil, se realente a mãe da Beatriz não tinha nenhum parente vivo que pudesse ficar com sua guarda. O juiz tentava de todas as maneiras, ajudar as crianças que estava há muito tempo no sistema, por isso, logo eu levaria a Bia para minha casa.

Eu arrumei tudo para que ela se sentisse bem comigo, fui fazer compras, montei seu quarto, onde antes era o meu escritório, deixei o quarto com cara de menina. Comprei roupas e a matriculei em uma escola militar, onde eu estudei e ficava mais perto de casa, ela não precisaria pegar transporte. E o dia de buscá-la tinha chegado, aqui estou eu na porta esperando ela ser trazida pela Stella, meu coração está batendo forte, nesse tempo que passamos juntas, eu descobri a menina meiga e inteligente que ela era, mas ainda tinha alguma coisa que ela escondia, não sei se é pelo fato de estar totalmente sozinha no mundo, ou se existe outra coisa, mas deixaria que ela mesma me conte quando se sentir a vontade. A espera durou quase vinte minutos, e quando ela apareceu, seu sorriso me mostrou que ela tinha mesmo me aceitado como sua madrinha, a pessoa que iria cuidar dela.

― Está pronta para conhecer a sua nova casa?

― Sim, estou, madrinha.

Agradeci a Stella, e seguimos para a nossa casa, e assim que chegamos, ela olhava tudo com curiosidade, até que Pitoco apareceu e fez a festa com ela, os dois se deram muito bem. Fui mostrar o seu quarto, mostrei também as roupas e os calçados que tinha comprado e disse que se ela não gostasse de nada, que poderia trocar, falei da sua nova escola, disse que tinha mudado o meu horário de trabalho, pois, eu queria passar mais tempo em casa, antes não tinha o porquê, mas agora com ela, eu achava necessário. Ela foi até a cama, abriu a mochila e me entregou a carta que sua mãe tinha deixado para ela, também tinha sua documentação e cartões de bancos, eu disse que não íamos precisar mexer em seu dinheiro, que eu tinha como nos sustentar, e que ela deixasse isso para quando fosse fazer sua faculdade.

Depois que eu li a carta, o que eu desconfiava veio à tona, existia sim, algo que a Bia não tinha me contado, e pelo que vi, a sua mãe cometeu suicídio explodindo sua casa, mas, eu não iria falar isso para ela, mas no dia seguinte, eu pediria para que o departamento especializado em investigação verificasse tudo sobre sua família, inclusive sobre seu padrasto.

― Bia, eu não arrumei as coisas no seu closet, porque queria que olhasse uma por uma, você pode fazer isso, aí se não gostar de algo, é só separar que vamos amanhã mesmo trocar, arrume como você quiser, eu comprei tudo que achei necessário, mas se faltar qualquer coisa, me avise ― ela apenas sorriu, olhando tudo. ― Vou fazer o nosso almoço e depois se não tiver terminado, posso te ajudar.

― Farei isso, madrinha.

Ela tira de dentro da mochila uma foto, nela está sua mãe, seu pai e ela, vejo que ela fixa o seu olhar e não demora muito as lágrimas caem pelo seu rosto, vou até ela, sentando na cama e a abraço.

― Não chore, eles sempre vão estar com você, mesmo não estando aqui de corpo, mas o amor de pai e mãe nunca muda, mesmo eles não estando aqui, e eu tenho certeza depois que li a carta, que sua mãe jamais vai te abandonar.

― Eu sei madrinha, mas eu sinto tanta falta dela, eu não entendo como foi que minha casa pegou fogo, eu já não tinha meu pai e Deus levou minha mãe também, eu fiquei sozinha, se a senhora não me adotasse, eu iria ficar no orfanato até aparecer alguém para me adotar, e lá eu vi muitas crianças com a mesma idade que a minha, que ninguém queria.

― Não fale assim. Deus sabe o que faz, se sua mãe teve que ir embora, foi porque era a hora dela, Deus nunca faz seus filhos sofrerem, todas as nossas dores têm sempre um motivo, seja para nos tornar uma pessoa melhor ou como forma de lição. Foi preciso que sua mãe morresse para que eu adotasse você, até eu encontrá-la, nem tinha pensando nessa possibilidade, é por isso que eu digo que Deus sabe sempre o que faz.

― Por que nunca quis adotar ninguém?

― Esses dias eu pensei nisso, mas não encontrei nenhuma resposta, acho que não era o momento, eu sempre vivi sozinha com o Pitoco, mas acho que estou ficando velha e preciso de companhia, e você apareceu no momento certo.

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