
Ele Não É Meu Pai! O Herdeiro Protegido Pela Máfia.
Capítulo 2
Lara
Eu sou jogada para frente e só consigo proteger a barriga.
As costas batem no chão com força, a poeira sobe ao redor do meu rosto. O gosto de terra entra na minha boca quando tento puxar ar.
Levo alguns segundos para conseguir respirar de novo. O ar volta errado, curto demais.
Por um segundo eu penso que o bebê sentiu a queda antes de mim.
Minha mão vai direto para a barriga.
Meu corpo se dobra sozinho quando bato no chão. A dor explode por todo o corpo, costas, braços e pernas.
Minha mão procura apoio e afunda em terra solta. O braço falha. O peso da barriga puxa meu corpo para o lado e eu gemo sem querer.
— Lara. — a voz de Lílian chega perto. — Olha para mim. Os olhos dela descem para minha barriga antes de voltar para o meu rosto.
O chão está a poucos centímetros do meu rosto. Som de gente. Vejo pés passando.
Um rádio ligado em algum lugar. Vozes altas e risadas, algo metálico bate duas vezes, sempre no mesmo ritmo.
Alguém passa chutando uma pedra para o lado, rindo de alguma coisa que não tem nada a ver comigo.
Meu corpo jogado no chão não interrompe a tarde dessas pessoas.
Uma mulher passa carregando sacolas e desvia de mim como se eu fosse um buraco na calçada. Ela olha rápido para a minha barriga. Depois desvia os olhos. Muito rápido para ser descuido.
O som começa a se organizar ao redor de mim.
Funk pesado vibra acima, marcando território. Entre uma batida e outra, estalos curtos de rádio confirmam que aquilo não é bagunça. É controle.
— Chegou?
— Chegando.
— Segura aí mano.
As vozes não se explicam, elas se reconhecem, ninguém pergunta quem eu sou.
Alguém passa falando mais alto, avisando que “tá tudo limpo”. Outro responde rindo que “a madame tá sentindo”. A palavra atravessa meu corpo como tapa. Madames não gemem de dor no chão com a barriga dura demais para caber em si.
Sinto o cheiro do lugar agora. Poeira, gordura, esgoto distante, algo queimado. É o cheiro de um lugar que não espera permissão para existir.
Um rádio chia perto de mim. Uma voz surge, abafada, impaciente.
— Ela tá aí?
— Tá viva. Por enquanto.
Não dizem meu nome, não precisam.
Alguém encomendou isso e esse alguém pode estar a caminho.
Não foi sequestro, nem acaso, foi escolha.
— Aqui não entra ninguém, não tem conversa, não tem erro, aqui é Laje, porra — a voz sai debochada, segura, como quem não precisa explicar o nome porque todo mundo ali já sabe quem manda e ninguém discorda.
Alguns riem mas o riso não tem humor.
Dito como regra antiga, dessas que não precisam ser repetidas.
É aí que meu estômago afunda. O calor sobe pelo peito, a boca seca e minhas mãos começam a tremer sem que eu mande. O ar fica curto. Meu corpo entende antes de mim que isso não é bagunça, não é acaso. É a casa deles.
Aperto os dedos contra o chão quando a dor passa pela minha barriga.
O ar prende no peito, fico imóvel por um segundo, tentando entender se é contração ou medo.
E então, sem aviso, a minha mente foge para outro dia, outro quarto.
Eu dobrava as roupinhas do bebê, minúsculas demais para parecerem reais.
Marlon montava o berço ao meu lado, mas a cada peça que encaixava, ele olhava para mim.
— Você comeu?
— Já bebeu água?
Perguntava isso a cada cinco minutos, como se vigiar cada gole de água pudesse proteger o mundo inteiro. Eu respondia roubando um beijo, ele reclamava… mas sempre sorria.
O aperto atravessa minha barriga outra vez, mais intenso e o quarto parece se afastar por um segundo.
Lílian abre a boca para falar de novo. Um olhar corta ela no meio da frase. Ela fecha a boca na hora.
Ouço passos se aproximando. Alguém para bem perto. Sinto um olhar rápido sobre mim. Não curioso. Avaliador. Como quem confere um problema antes de seguir adiante.
— Tá cedo? — uma outra voz pergunta, indiferente.
— Se nascer aqui, segura. — alguém diz, de longe, como quem fala de um pneu murcho.
Um sequestrador ri baixo. O riso faz meu estômago virar, eles estão falando do meu filho como se fosse uma carga atrasada.
Ninguém mais responde.
Apoio as duas mãos na barriga.
— Você escolheu um caos para nascer… sabia?
— Você se mexe forte, como se respondesse.
Eu sorrio.
— Calma… seu pai é pior que isso tudo e ela te ama.
Minha mão cobre a barriga inteira, como se eu pudesse esconder ele do mundo.
— Ama você antes de ver seu rosto.
Engulo em seco.
— Quando o médico disse que você existia… ele ficou em silêncio por tanto tempo que eu achei que tinha ouvido errado.
Lembro das mãos dele fechando devagar.
— Ele já perdeu um filho uma vez.
Minha garganta aperta.
— Filho… se alguma coisa acontecer comigo… pelo menos você não vai crescer sem pai.
Mas perder outro filho… isso eu não sei se ele sobreviveria.
Meu corpo reage antes que eu consiga pensar. A pressão desce devagar, pesada, como se algo por dentro estivesse mudando de lugar.
Minha mão aperta o chão. Os dedos se cravam na terra quase sem perceber.
Marlon ainda acha que eu estou em uma reunião.
E fui eu quem deixou ele acreditar nisso.
Meu ventre se move de novo, um chute forte, baixo, eu puxo o ar.
Outro aperto vem logo atrás, mais profundo.
— Lílian… — minha voz sai falha. — Acho que…
Ela já está me olhando e entende antes de qualquer palavra terminar.
Não é só medo ou nervoso, meu corpo está entrando em trabalho de parto e agora eu sei.
Espero outro chute, ele sempre responde quando eu falo com ele.
Só que, de repente… o meu filho parou de se mexer.
O silêncio dentro de mim é pior que a dor.
A pergunta atravessa tudo, cruel, inevitável, sem resposta:
Se o meu corpo começou aqui… quanto tempo meu filho ainda tem?
Em algum lugar acima de mim, alguém grita que o chefe está chegando.
Você pode gostar



![Capa do romance Cada noite minha [#2 Trilogia do Inferno]](https://v.melolo.com/b1265344voduse1318177724/78d778e35001834806828252817/cNRWQ2uOfZcA.webp!15491.webp)

