
Ele Não É Meu Pai! O Herdeiro Protegido Pela Máfia.
Capítulo 3
MARLON
— Ela chega em quarenta minutos.
Digo isso sem olhar para Darlan. Estou de pé, perto da mesa de reuniões, conferindo a agenda no tablet pela terceira vez, como se os horários pudessem justificar alguma coisa.
Darlan para de digitar. O cursor ainda pisca na tela, os dedos ficam suspensos no teclado por um segundo.
Não pergunta nada, levanta o olhar devagar.
— Quem chega? — ele pergunta.
— Lara. A reunião do marketing termina agora. Restaurante perto da Sinclair.
O silêncio muda de peso.
Darlan fecha o notebook com calma excessiva. Os dedos não tremem. Mas param um segundo a mais sobre a tampa. O rosto não denuncia nada, mas eu conheço aquele intervalo. É o segundo em que ele cruza dados antes de ouvir versões.
— Não fui informado da saída.
Engulo em seco.
— Foi uma decisão de última hora. Ela não quis pressão. Disse que seria rápido. Foi com a segurança da empresa.
A palavra empresa soa pequena demais.
Darlan se levanta.
Não anda ainda. Só fica em pé.
— Quem autorizou?
— Eu. — respondo. Rápido. Antes que ele pergunte de novo.
O olhar dele vem direto no meu. Não é raiva, é cálculo. Raiva grita. Aquilo mede danos.
— A segurança da empresa não cobre deslocamento externo sem escolta dedicada — ele diz. — Você sabe disso.
— Era um trajeto curto.
— Erros não precisam de distância. Só de uma brecha.
A porta se abre antes que eu responda.
Dois seguranças entram. Estão suados. Um deles segura o rádio com força demais.
— Senhor — o mais alto começa. — Houve uma abordagem no semáforo.
Meu estômago afunda.
— Relata — Darlan diz. Seco.
— Dois veículos. Fechamento rápido. Profissional. Tiraram as duas do carro em menos de vinte segundos. Tentamos acompanhar, mas eles trocaram de rota dentro da comunidade. Perdemos o visual.
O rádio ainda chia na mão dele, como se a falha continuasse acontecendo.
O segurança termina o relatório e evita olhar para mim.
O tablet escapa da minha mão e estilhaça na mesa, eu nem olho. Os cacos vibram no chão, ninguém se mexe para recolher.
Minha mão fecha devagar.
— Tocaram na minha mulher.
Levanto os olhos.
— Eu queimo essa cidade inteira até encontrar quem fez isso.
Meu estômago revira antes que eu pense em qualquer coisa.
O número fica ecoando, vinte segundos e não sai.
Vinte segundos.
Menos tempo do que ela levava para atravessar a cozinha descalça quando vinha roubar comida da panela.
“Você disse que não estava com fome.
Ela encostou o queixo no meu ombro.
— Eu menti.
Roubou a colher da panela e provou antes que eu pudesse impedir.
— Você vai me matar um dia — eu disse.
Ela riu. O vapor da panela subiu entre nós, eu quase disse para ela parar de roubar comida, mas deixei.
— Vai sentir saudade.”
Vinte segundos.
Ela estava no final da gestação. Eu sabia e mesmo assim, deixei.
Minha mão fecha devagar, o peito aperta de um jeito errado, como se algo tivesse deslocado por dentro. Engulo em seco e não passa. O gosto é ácido, quente. Minha cabeça gira uma vez e para.
— Comunidade onde? — Darlan pergunta.
— Região da Laje.
O nome não vem completo. Não precisa.
Quando escuto, o chão some por um segundo, meu joelho quase cede. Minha mão se solta da mesa.
Não é medo. É certeza.
Eu não perdi o controle da situação, eu entreguei.
Darlan pisca uma vez.
— Quem estava com ela? — ele pergunta.
— A secretária dirigia… a Lílian.
Algo passa pelo rosto de Darlan agora. Não é surpresa. É agravamento.
Ele vira de costas para mim e já está andando quando fala:
— Esquema de crise. Agora!
— Darlan… — tento acompanhar.
Ele não diminui o passo. Nem olha para trás.
— Você ficou responsável pela decisão. Agora fica responsável pelo silêncio.
O mundo estreita.
Antes que eu perceba, já estou indo para cima dele.
A cadeira bate no chão atrás de mim quando avanço.
Minha mão agarra o colarinho dele e o empurra contra a parede com força suficiente para fazer o quadro tremer.
— Silêncio? — minha voz sai baixa, cortante. — Levaram a minha mulher, porra.
Minha língua passa pelos dentes devagar.
Como se eu estivesse escolhendo onde bater, mas o punho dele vem primeiro.
Eu respondo no mesmo segundo.
O impacto estoura entre nós e alguém grita alguma coisa que ninguém escuta.
Outro soco já vem meu, Darlan recua um passo.
Eu avanço de novo, ele me acerta.
— Se alguma coisa acontecer com ela…
O sangue ainda escorre do corte no meu lábio. Eu nem sinto.
Um braço entra no meio com força brutal.
Davi.
Ele me segura pelo peito e me empurra para trás.
— Marlon! Chega!
Eu tento avançar de novo, mas ele segura firme, o peso inteiro do corpo travando o meu.
— Solta.
Minha camisa ainda está torcida na mão dele.
— Não.
— Me solta caralho, é a minha mulher!
Minha respiração está curta.
Os olhos dele não desviam dos meus.
— Você quer achar quem fez isso?
Silêncio.
— Então para de bater em quem está do seu lado.
O ar queima no meu peito.
Lá fora, a cidade continua respirando como se nada tivesse mudado. Mas todo mundo naquela sala sabe a verdade.
Quem levou Lara não roubou uma mulher.
Declarou guerra.
Davi ainda está na minha frente quando a sala finalmente fica quieta. Minha respiração vem pesada, o gosto de ferro na boca lembrando que a briga foi real. Passo a mão pelo maxilar, sentindo o lugar onde o soco pegou, e olho na direção da porta por onde Darlan saiu.
— Eu vou com ele.
Minha voz ainda sai áspera.
— Nós vamos subir aquela favela agora.
Davi solta um sopro curto, sem humor nenhum, e balança a cabeça.
— Não vai.
Eu levanto os olhos devagar.
— Tenta me impedir.
Ele não recua. Fica exatamente onde está, firme, me encarando como se estivesse medindo até onde eu realmente estou disposto a ir.
— Aquilo é uma favela, Marlon. Você não invade um lugar desses sozinho, no impulso.
Eu dou um passo para o lado, pronto para passar por ele.
— Lara está lá.
Davi segura meu braço antes que eu alcance a porta. Não é força bruta agora, é aviso.
— Eu sei.
O silêncio pesa entre nós por um segundo.
Então ele baixa a voz.
— Mas presta atenção em outra coisa.
Eu olho para ele.
— Darlan também está no limite.
O nome fica no ar.
— Você sabe de onde ele veio — Davi continua, sério. — O que ele é…
Davi aperta meu braço um pouco mais antes de soltar.
— Se você entrar nessa favela com ele agora, cego de raiva, não vai ser só sobre resgatar Lara.
Ele sustenta meu olhar.
— Vai virar outra coisa.
Eu fico parado por um segundo, o peito ainda queimando.
Em algum lugar da cidade, Lara está lá fora.
Sozinha.
E quanto mais tempo passa, mais difícil fica acreditar que ainda dá tempo de chegar antes que seja tarde demais.
DARLAN
O elevador não espera.
Enquanto desce, já estou no telefone. O espelho do elevador devolve um rosto que eu não reconheço, mas os olhos estão certos.
— Derick. Rastreio total. Agora. Última posição, cruzamento de câmeras, sinal morto, tudo.
— Alguma janela de tempo? — ele pergunta.
— Todas. Não me interessa o passado. Me dá onde ela está.
Saio do elevador andando rápido. O hotel fica a dois quarteirões da Sinclair. Entro direto no quarto, jogo a jaqueta na cadeira, abro o notebook.
Derick retorna em menos de três minutos.
— Achei. Não foi improviso. Usaram bloqueador curto, mas erraram na triangulação final. Elas estão dentro da área da Laje. Setor fundo. Casa fixa.
A tela mostra o ponto vermelho.
Não piscando. Estável. Como se estivesse esperando.
— Confirmação visual? — pergunto.
— Não. Mas ninguém some assim sem permissão ali.
Permissão.
— Quantos acessos? — continuo.
— Três entradas. Todas fechadas. Controle de rádio ativo.
Fecho o notebook.
— Mobiliza. Não avisa ninguém fora do meu círculo. — pego as armas, confiro o carregador. — Se ela estiver viva…
Não termino a frase.
Desço de novo. Já falando com a equipe de intervenção.
— Não é resgate. É invasão. Ninguém entra gritando. Ninguém negocia antes de eu chegar.
— Derick. Linha fechada.
— Já está.
— Ela está viva.
O ar volta aos meus pulmões de um jeito curto, contido. Não alivio. Alívio vem depois. Agora é foco.
— Estado? — pergunto.
— Crítico, mas consciente até pouco tempo atrás. Estão mantendo. Não avançaram ainda.
Aperto o maxilar.
— Local confirmado?
— Barraco fixo. Setor fundo. Comunicação interna por rádio amador. Código fechado. Não é lugar pra subir agora.
Fico em silêncio. Ele sabe que eu não gosto dessa resposta.
— Já falei com o Don — Derick continua. — Planta completa, rotas, recuo, contenção. Tudo criptografado. Você recebe em dois minutos.
— Autorização?
A pausa vem curta e calculada.
— Só à noite. Se subir agora, vira guerra aberta, eles se fecham e ela vira escudo.
Meus dedos apertam o telefone até doer. O plástico range.
— Então ninguém toca em nada até escurecer — digo. — Ninguém assusta o terreno. Ninguém chega perto do barraco.
— Já orientei. — Ele hesita um segundo. — Darlan…
— Fala.
— Eles não sabem quem você é ainda.
Um canto da minha boca sobe, sem humor nenhum.
— Ótimo.
“...”
Entro no carro, a cidade passa rápido demais.
Lara saiu do protocolo, Lílian ampliou o risco e Marlon autorizou isso.
Não pode.
Eles abriram o inferno sem saber quem vinha atrás.
Tocaram no que não era deles.
Eles ainda acham que sequestraram uma mulher.
Quando eu sorrir, ninguém vai confundir isso com misericórdia.
Lara ainda respira em algum lugar daquela favela.
A única dúvida agora é:
Quem vai estar vivo para ver o meu sorriso virar a própria desgraça?
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