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Capa do romance Ele Era Meu Destino (Mas Também Meu Fim)

Ele Era Meu Destino (Mas Também Meu Fim)

Lyris é uma loba presa em um ciclo cruel de reencarnações, condenada a amar o mesmo homem que jamais se lembra dela. Após séculos de sofrimento e memórias acumuladas, ela tenta se esconder entre humanos para fugir do destino. Contudo, nesta vida, seu companheiro finalmente a reconhece, ameaçando um equilíbrio milenar. Agora, forças sombrias e caçadores surgem para eliminá-la, pois o fim dessa maldição pode transformar o mundo dos lobos para sempre.
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Capítulo 2

O mundo voltou a girar, ainda que tudo em minha frente tivesse paralisado. Eu ainda podia ouvir o som dos carros, os passos apressados, as buzinas e vozes voltando a preencher o espaço ao meu redor, mas eu já não estava mais ali.

Eu estava naquele olhar. Aquele maldito olhar.

O mesmo em todas as vidas. O olhar do meu companheiro. Da minha ruína.

Dei um passo para trás, o corpo em alerta, os sentidos em guerra. Tudo gritava para que eu fugisse. Tudo, menos o instinto mais primitivo que me acorrentava a ele.

Ele também não desviou. Continuou me olhando, como se atravessasse minha pele até a alma. A testa franzida, não de raiva, mas de dúvida, como quem tenta resgatar uma memória que não devia existir.

Quando deu um passo na minha direção, minhas pernas se moveram antes da minha mente. Corri.

As ruas ficaram estreitas demais. O ar me arranhava a garganta, o coração batia fora do compasso, pesado, como se cada batida anunciasse uma queda.

Passei entre pessoas que não me viam, trombei em ombros, ouvi protestos, mas continuei correndo. Não podia parar. Não podia olhar para trás.

As buzinas e vozes da cidade soavam como ecos distantes de outras vidas. A cada esquina, uma memória me golpeava: fogo devorando uma cabana; neve manchada de vermelho; uma sala iluminada por tochas, onde o mesmo olhar me atravessava antes do fim.

Meus pés tropeçaram, rasguei o joelho contra o concreto, mas levantei sem sentir dor. Só a urgência, só o medo.

Eu já conhecia aquele fim. E ele sempre doía.

Entrei por uma viela estreita, os pulmões em chamas, o coração martelando contra as costelas. O cheiro de lixo molhado e ferro velho me envolveu, e a parede fria nas minhas costas parecia sugar meu calor.

— Covarde — sussurrei para mim mesma, mordendo o lábio. Talvez fosse. Mas eu já conhecia o fim daquela história. E ele sempre doía.

Fechei os olhos, tentando controlar a respiração, quando a voz dele quebrou o silêncio:

— Por que você fugiu?

A voz. Grave, rouca, quase próxima demais.

Meu corpo inteiro enrijeceu. Girei devagar, cada músculo pronto para o golpe, a acusação, a rejeição… qualquer coisa que viesse. Mas não havia nada disso.

Ele estava apenas parado ali, a alguns passos, me olhando.

— Desculpa — disse, erguendo as mãos num gesto de paz. A sombra dele se alongava até meus pés. — Não queria assustar você.

Era mais alto do que eu lembrava. Mais sólido. O cabelo escuro desgrenhado caía sobre a testa, e nos olhos… aqueles olhos. A mesma intensidade de sempre, mas misturada com algo novo: confusão. Como se não soubesse de que lado da lembrança estava.

— Eu só… — a voz dele falhou, ele respirou fundo — achei que te conhecia.

Sorri de canto, amarga, tentando esconder o tremor nos dedos.

— Não conhece. Ninguém nunca conhece.

Dei um passo para o lado, pronta para me afastar, mas a mão dele se ergueu, lenta, firme, apenas o bastante para me deter. Não me tocou, mas a presença foi um muro.

— Espera. Qual é o seu nome?

Hesitei. Senti a palavra presa na garganta, pesada demais.

— Lyris.

Ele repetiu, devagar, como quem prova uma nota de música esquecida:

— Lyris.

A voz parecia experimentar o som, reconhecê-lo sem admitir.

— Eu sou Kael. Kael Noctis.

O nome caiu sobre mim como um trovão.

Kael Noctis. Alfa.

Eu já tinha ouvido esse nome nos sussurros das ruas, nos jornais esquecidos nos cafés. Um alfa importante, de uma das famílias mais antigas da região. Perigoso. Reservado.

E, agora, o meu companheiro. De novo.

— Sinto muito, Kael. Eu estou atrasada — menti, o medo rasgando minha garganta.

— Mas a gente se conhece, não é? — ele insistiu, um passo à frente. O olhar estreitado, como quem tenta agarrar uma memória escorregadia. — Eu… eu tenho sonhos com você.

Meus pulmões esqueceram como respirar.

— Sonhos? — repeti, quase sem voz.

Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto.

— Desde antes de hoje. Sempre iguais. Sempre você.

Meu corpo inteiro se arrepiou. Aquilo jamais tinha acontecido. Nunca. Nenhuma outra vida.

— Você está me confundindo. Isso acontece… com muita gente. — A mentira saiu trêmula, sem força, sem olhar para ele.

— Não com esse tipo de sonho. — A voz dele baixou, áspera, carregada de algo sombrio.

Ele deu meio passo, e o mundo pareceu se inclinar.

— Sempre a mesma mulher. Morrendo. Nas minhas mãos.

O silêncio depois da frase foi mais alto que qualquer grito.

Senti as pernas cederem, a pele gelada, o coração tropeçando dentro do peito.

Ele sonhava com as mortes.

Comigo.

Aquilo não podia acontecer. Não agora. Nunca.

— Eu tenho que ir — sussurrei, mal reconhecendo minha própria voz.

Antes que ele pudesse me deter, girei nos calcanhares e mergulhei na multidão. Ombros me empurraram, buzinas soaram, mas nada importava. Só precisava desaparecer. Só precisava respirar.

***

Naquela noite, o pesadelo voltou.

As chamas subiam pelos meus braços, devorando pele e ossos. Os dentes rasgavam minha carne, o gosto de sangue inundava minha boca. As vozes gritavam meu nome e, acima delas, a dele.

“Você não é nada pra mim.”

Eu já esperava essa parte. Sempre igual. Sempre cruel.

Mas algo mudou.

Quando abri os olhos no sonho, vi Kael. Não o predador. Não o carrasco. Mas um homem ajoelhado, com os ombros curvados… chorando. As lágrimas escorriam pelos mesmos olhos que tantas vezes me viram morrer.

Aquilo doeu mais do que as garras atravessando meu peito.

— NÃO! — gritei, acordando com o corpo em sobressalto. O quarto banhado pela luz pálida da manhã, o ar parado, como se zombasse de mim.

Mas era apenas mais um dia.

A manhã chegou cinza. A rotina tentando costurar um fio de normalidade onde não havia nada de normal. O cheiro de café barato e pão amanhecido enchia a lanchonete onde eu trabalhava. O balcão engordurado, as mesas de fórmica arranhadas, o rádio chiando uma música antiga, era o tipo de lugar onde ninguém fazia perguntas. E isso era perfeito para mim.

Uma hora de expediente já tinha passado. O avental amassado pendurado na cintura, uma xícara de café esfriando na mão, e meus pensamentos ainda presos nas chamas da noite anterior. Até que o sininho da porta soou.

Olhei por cima do ombro.

E o mundo pareceu se encolher.

Kael.

Entrando como se pertencesse àquele espaço, mas destoando de tudo. A jaqueta escura grudada aos ombros largos, as mãos nos bolsos, o olhar direto em mim. Sem vacilar. Sem desviar.

— Você de novo? — deixei escapar, baixa demais, mas ele ouviu.

O canto da boca dele se ergueu num meio-sorriso. Não era exatamente de alegria. Era o tipo de sorriso que dizia: eu sei mais do que deveria.

— Eu sabia que te conhecia de algum lugar.

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