
Ele a viu, não a esposa dele
Capítulo 2
Ponto de Vista de Aliyah:
A entrevista foi uma bomba. Explodiu na internet antes mesmo de Henrique e eu sairmos do Sul. Sentei-me em uma suíte de hotel no mesmo corredor que a nossa, o gravador digital da repórter entre nós, e expus minha vida.
Eu não chorei. Não levantei a voz. Simplesmente contei a verdade, minha voz tão monótona e sem cor quanto minha existência havia se tornado.
"Meu marido, Henrique Lang, sofre de prosopagnosia", comecei, as palavras parecendo estranhas e clínicas. "Ele não consegue reconhecer rostos. Por três anos, tentei me tornar memorável para ele. Visto apenas azul. Uso apenas um perfume. Não mudo meu cabelo há dois anos. Sou uma marca, não uma esposa."
Contei a ela sobre a queda do helicóptero. Sobre ele me empurrando, convencido de que eu era uma estranha. Sobre seu brinde a "sem vítimas fatais" enquanto eu estava em uma cama de hospital, esquecida.
Contei a ela sobre a noite anterior. Sobre ele avistando Kássia Medeiros em uma multidão. Sobre a polícia. E eu disse a ela suas palavras exatas.
"Ele olhou para mim, sua própria esposa, sendo arrastada pela polícia, e disse a eles: 'Eu não conheço essa mulher.'"
A pergunta final da repórter foi simples. "E agora, Sra. Lang?"
Olhei diretamente para a câmera que ela havia montado. Eu sabia que Henrique veria isso. O mundo veria isso.
"Não existe mais Sra. Lang", eu disse. "Meu nome é Aliyah Potts. E, a partir desta manhã, pedi o divórcio. Os papéis foram entregues à equipe jurídica dele há uma hora."
Uma profunda sensação de paz me invadiu, a primeira que senti em anos. Era a calma que vem depois de uma tempestade devastadora. Os destroços estavam por toda parte, mas eu havia sobrevivido. Eu estava livre.
Meu celular começou a vibrar incessantemente. Henrique. Ignorei, deixando-o vibrar contra a madeira polida da mesa. Deixe-o enfurecer-se.
Eu tinha um voo para pegar. Uma nova vida para começar.
Quando meu táxi se afastava do hotel, um sedã preto freou bruscamente, bloqueando nosso caminho. Henrique abriu a porta do carro com violência e se jogou para dentro, seu rosto uma máscara trovejante de fúria.
"Que diabos você fez?", ele rosnou, sua voz baixa e perigosa. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha pele como garras de aço.
"Eu disse a verdade", falei, minha voz surpreendentemente firme. Recusei-me a deixá-lo me ver tremer.
"Você me humilhou! Você me transformou em motivo de piada!"
"Você fez isso a si mesmo, Henrique."
"Isso não é só sobre mim!", ele cuspiu, seu aperto se intensificando. "Você arrastou a Kássia para isso! Uma mulher inocente! A mídia está acabando com ela!"
Seu primeiro pensamento foi nela. Claro que foi. A dor era uma pontada familiar, mas agora estava distante, como a lembrança de uma ferida antiga.
"Ela não é inocente", eu disse calmamente.
"Você está com ciúmes!", ele cuspiu. "Sempre esteve. Com ciúmes de eu ter uma conexão com ela que não tenho com você!"
"Uma conexão?", ri, um som amargo e sem humor. "Você quer dizer aquela em que você a confundiu comigo?"
Ele se encolheu, sua mandíbula trabalhando. Ele não conseguiu formular uma resposta.
"Aquela em que você consegue identificá-la em uma multidão de centenas, mas não consegue ver sua própria esposa bem na sua frente?", continuei, minha voz se elevando. "Aquela em que você me deixa para apodrecer em uma cela porque está muito ocupado bajulando-a?"
"Eu te disse, eu não te reconheci!"
"Mas você a reconheceu! Esse é o ponto, Henrique! Você não entende? Sua doença não é o problema. Seu coração é. Ele a escolheu. Nunca me escolheu."
Ele me encarou, seu peito subindo e descendo, um turbilhão de confusão e fúria em seus olhos. Ele ainda não entendia. Talvez nunca entendesse.
"Estou me divorciando de você, Henrique", eu disse novamente, as palavras solidificando a nova realidade entre nós.
Ele balançou a cabeça, um olhar estranho em seu rosto. "Não. Não, você não está."
"Os papéis foram protocolados."
"Eu não vou assinar", ele declarou, como se isso resolvesse tudo.
Um sorriso lento se espalhou pelo meu rosto. Foi o sorriso mais satisfatório da minha vida. "Ah, Henrique", eu disse suavemente. "Você já assinou."
Ele me encarou, sem compreender.
"No mês passado", expliquei, saboreando cada palavra. "Sua equipe jurídica enviou uma pilha de documentos para a nova fusão de mídia. Procedimento padrão. Pedi ao meu advogado para redigir o acordo de divórcio. Era a última página da pilha. Você assinou sem nem ler."
A cor sumiu de seu rosto. Ele se lembrou. Pude ver em seus olhos. Ele estava tão irritado naquele dia, tão ansioso para chegar a uma reunião de almoço com investidores. Ele nem sequer olhou para mim quando coloquei a caneta em sua mão.
"Você... você me enganou", ele sussurrou, horrorizado.
"Eu usei sua própria cegueira contra você", corrigi. "Você nunca olhou para os papéis. Assim como nunca olhou para mim."
Peguei um pequeno documento dobrado da minha bolsa. Uma cópia. Coloquei-a em sua mão. "É à prova de falhas. Generoso, até. Eu não peguei metade de tudo, Henrique. Não quero seu dinheiro. Só quero minha vida de volta."
Ele encarou o papel como se fosse uma cobra venenosa. Seu mundo estava virando de cabeça para baixo, e ele não tinha ideia do porquê. Para ele, isso era uma traição súbita e inexplicável. Para mim, era o culminar de mil pequenas mortes.
A mesa dele. Lembrei-me de estar ao lado de sua mesa naquele dia, observando-o assinar o fim do nosso casamento. E ao lado da pilha de documentos legais havia uma foto emoldurada. Não minha. Da Kássia. Uma foto espontânea dela rindo em um veleiro. Ele tinha dezenas de fotos dela. Ele alegava que eram para "trabalho", pesquisa para o filme que ela estava estrelando. Mas ele não tinha uma única foto minha.
Ele me disse uma vez que fotos de pessoas que ele conhecia apenas o confundiam, que raramente correspondiam à pessoa em sua mente. Mas ele conseguia reconhecê-la em todas as fotos, em todos os ângulos, com todas as expressões. Assim como a reconheceu naquele vestido dourado.
Uma lembrança surgiu, nítida e dolorosa. Alguns meses atrás, Kássia cortou o cabelo curto. Estava em todas as redes sociais. Uma semana depois, encontrei uma foto no tablet de Henrique. Uma foto minha, de anos atrás, antes de nos casarmos. Quando eu tinha cabelo curto. Ele estava estudando-a. Ele não estava tentando se lembrar de mim. Ele estava me comparando... a ela. Ele estava tentando ver se ela se parecia comigo, ou se eu já me pareci com ela.
Minha substituta. Eu era um tapa-buraco para a mulher que ele realmente queria. Uma mulher que, por alguma cruel ironia do destino, se parecia um pouco com sua esposa esquecida.
"Saia", ele finalmente engasgou, sua voz embargada de raiva. Ele amassou o papel em seu punho.
"Estou tentando", eu disse, alcançando a maçaneta da porta.
De repente, seu celular, que ele segurava na outra mão, tocou. A tela se iluminou. Uma foto de Kássia, chorando, apareceu no visor.
Todo o seu foco mudou. A raiva em seus olhos se suavizou em preocupação. Ele atendeu instantaneamente. "Kássia? O que foi? Onde você está?"
Ele ouviu por um momento, sua testa franzida. "Fique aí. Estou indo."
Ele encerrou a chamada e olhou para mim, seus olhos frios e duros mais uma vez. "Nós não terminamos", ele rosnou.
E então ele fez algo que selou seu destino em meu coração para sempre.
Ele me empurrou. Com força. Ele me empurrou para fora de seu caminho, meu corpo batendo na lateral do táxi, enquanto ele saía do carro. Ele correu pela rua, na direção do hotel. Ele não olhou para trás.
Ele tinha acabado de descobrir que sua esposa o enganara para conseguir um divórcio. Ele tinha acabado de ser publicamente humilhado. E seu primeiro instinto foi correr para ela. Para a outra mulher.
Naquele momento, meu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido. "Soube que você estava indo embora. Já vai tarde. A propósito, Henrique acabou de me chamar de Aliyah. Parece que ele nos confunde, afinal. Beijos, K."
Olhei para a tela, uma risada oca escapando dos meus lábios. Ele nem sabia quem estava perseguindo.
Não o observei ir. Simplesmente virei a cabeça, olhei para frente através do para-brisa e disse ao motorista perplexo: "Para o aeroporto de Porto Alegre, por favor."
O motorista assentiu e se afastou do meio-fio, deixando Henrique Lang e as ruínas da minha antiga vida para trás.
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