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Capa do romance Ele a viu, não a esposa dele

Ele a viu, não a esposa dele

Casada com o magnata Henrique Lang, usei azul e Chanel nº 5 por anos para ser reconhecida por ele, que sofre de cegueira facial. Contudo, vi meu marido identificar sua amante em meio à multidão sem esforço. Após ele me ignorar em uma prisão injusta, alegando não me conhecer sem meu 'uniforme', decidi partir. Anos depois, um reencontro revela que a salvadora que deu a ele uma nova chance foi a esposa que ele escolheu esquecer, e não quem ele imaginava.
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Capítulo 3

Ponto de Vista de Aliyah:

A retaliação de Henrique foi rápida e brutal. Quando pousei em São Paulo, meus cartões de crédito foram recusados. Minhas contas bancárias, congeladas. Ele me cortou completamente. Ele pensou que poderia me matar de fome até a submissão, me forçar a voltar rastejando.

Ele ainda não entendia. Eu não era a mesma mulher que organizava sua vida inteira em torno da deficiência dele. Aquela mulher se foi. Ela morreu em uma cela de delegacia.

Eu tinha meu próprio dinheiro, um fundo que meus pais me deixaram e que Henrique nunca poderia tocar. Não eram seus bilhões, mas era o suficiente. Era mais do que suficiente. Era liberdade.

Antes de desaparecer completamente, antes de mudar meu nome e construir uma nova vida, permiti-me um último ato de rebelião. Um último adeus ao fantasma de Aliyah Lang.

Entrei em uma butique de luxo na Rua Oscar Freire, o palácio da moda que eu frequentava com o cartão black de Henrique. Hoje, usei o meu.

"Preciso de um guarda-roupa novo", disse à personal shopper perplexa. "Tudo. E nada de azul."

Ela olhou para mim, meu rosto agora reconhecível em todos os sites de notícias do planeta. "Claro, Sra. Potts."

Por horas, experimentei roupas. Borgonhas ricos, esmeraldas profundos, vermelhos ardentes. Cores que pareciam vivas. Troquei a pele do fantasma azul e me encontrei novamente, peça por peça. A mulher que amava arte e poesia, que usava cores ousadas e ria alto demais.

Eu estava em um provador, admirando um vibrante vestido escarlate no espelho, quando a porta se abriu.

Kássia Medeiros estava lá, um sorriso presunçoso e piedoso no rosto. Ela estava ladeada por dois seguranças, um novo acessório que Henrique, sem dúvida, havia providenciado.

"Ora, ora", ela ronronou, seus olhos percorrendo meu vestido. "Tentando uma cor nova? Dói saber que ele nunca vai nem notar?"

Encontrei seu olhar no espelho, minha expressão indecifrável. "O que você quer, Kássia?"

"Eu só queria ver a mulher que jogou fora um conto de fadas", disse ela, encostando-se no batente da porta. "É patético, na verdade. Você tinha tudo. Um marido bonito e poderoso. Uma vida de luxo. E você jogou tudo fora porque era insegura."

"Eu joguei fora porque meu marido não sabia quem eu era", corrigi.

Ela riu, um som agudo e tilintante que me irritou. "Ah, ele sabe quem você é, Aliyah. Você é a mulher triste e grudenta com quem ele foi forçado a se casar. Um tapa-buraco. Ele me contou tudo."

As palavras eram para machucar, mas não eram nada que eu já não tivesse dito a mim mesma.

"E agora ele me tem", ela continuou, aproximando-se. "A mulher que ele realmente quer. A mulher que ele vê." Ela passou a mão pela manga de seu próprio vestido, um bege pálido e esquecível. "Ele está comprando para mim a coleção nova inteira. Como um presentinho de 'desculpe por você ter que lidar com minha ex maluca'."

Olhei para ela, para o brilho triunfante em seus olhos, e não senti nada além de uma profunda pena. Ela achava que tinha vencido. Ela não tinha ideia de que era apenas o próximo fantasma na fila, outra marca para Henrique memorizar.

Virei-me de volta para o espelho. "Vou levar este", disse à vendedora que pairava por perto. "Na verdade, vou levar todos. Tudo o que experimentei."

O sorriso de Kássia vacilou. "Você não pode pagar por isso."

Tirei meu próprio cartão platinum. "Cobre no fundo da família Potts", eu disse, minha voz clara e firme.

Os olhos da vendedora se arregalaram. Ela conhecia o nome. Todos na alta sociedade de São Paulo conheciam o nome.

Virei-me para Kássia, um sorriso lento e deliberado se espalhando pelo meu rosto. "Veja, Kássia, o dinheiro de Henrique era apenas uma conveniência. Eu nunca precisei dele. Mas você? Você não é nada sem ele. Você é uma marca que ele comprou, e um dia, ele vai se cansar de você também."

Seu rosto se contorceu de raiva.

"Agora", eu disse, virando-me para o gerente da loja que havia se materializado na confusão. "Sou uma cliente particular deste estabelecimento. Gostaria que essa pessoa fosse removida. Ela está me assediando."

Antes que o gerente pudesse responder, uma voz familiar cortou a tensão.

"O que está acontecendo aqui?"

Henrique. Ele entrou na área de compras privativa, seus olhos encontrando Kássia imediatamente. Ele nem sequer olhou na minha direção.

"Henrique!", Kássia chorou, correndo para ele e enterrando o rosto em seu peito. "Essa mulher... ela estava me dizendo coisas horríveis!"

Ele a envolveu com os braços protetoramente, olhando para o provador. Ele olhou diretamente para mim, para o meu rosto, para o vestido escarlate. E viu uma estranha.

"Quem é essa?", ele exigiu do gerente, sua voz pingando desprezo. "Não me importa quem ela seja, quero-a fora daqui. Ela chateou a Kássia."

O gerente gaguejou: "Sr. Lang, senhor, esta é uma suíte privativa..."

"Estou comprando as roupas que a Kássia quer", anunciou Henrique, tirando seu próprio cartão black. "E estou pagando para que essa... pessoa... seja removida da loja. Não quero ver o rosto dela novamente."

Ele olhou para mim, desta vez com um sorriso de escárnio. "Algumas pessoas simplesmente não sabem o seu lugar."

Kássia espiou para ele da segurança de seus braços, um sorriso vitorioso no rosto. "Obrigada, Henrique. Você é meu herói."

Ele sorriu para ela, um olhar suave e terno que eu não via há anos. "Qualquer coisa por você", ele murmurou.

O mundo pareceu desacelerar. Ele, o homem que não conseguia se lembrar do rosto da própria esposa, estava defendendo a mulher que roubou sua vida, contra a própria esposa que ele não conseguia reconhecer. A ironia era tão espessa, tão sufocante, que pensei que poderia engasgar com ela.

Não disse uma palavra. Simplesmente saí do provador, passei por ambos sem um olhar e deixei a loja. As sacolas com minha nova vida seriam enviadas para o meu hotel.

Peguei um táxi para o único lugar que já pareceu um lar. A grande e imponente mansão com vista para o Parque Ibirapuera que fora minha prisão por três anos.

Quando o táxi parou, soube que algo estava errado. Havia um caminhão de mudanças do lado de fora.

Subi os degraus de pedra e coloquei minha chave na fechadura. Não girou. As fechaduras haviam sido trocadas.

Toquei a campainha. Após um longo momento, a porta se abriu.

Kássia estava lá, usando um dos meus robes de seda. Meu favorito, aquele com os pássaros pintados à mão.

"Posso ajudar?", ela perguntou, sua voz pingando falsa doçura.

Atrás dela, no grande hall de entrada, pude ver carregadores levando caixas. As caixas dela.

"O que você está fazendo aqui, Kássia?", perguntei, minha voz perigosamente baixa.

"Eu moro aqui agora", disse ela com um encolher de ombros. "Henrique insistiu. Ele disse que não suportaria a ideia de eu ficar em um hotel depois daquela cena horrível que você causou. Ele quer que eu me sinta segura."

Ela havia levado meu marido. Ela havia levado meu nome. E agora ela havia levado minha casa.

"Você é patética", eu disse, as palavras caindo sem peso no ar frio.

"Não", ela me corrigiu, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "Eu sou uma vencedora. E você... você é notícia de ontem."

Ela enfiou a mão no bolso do robe e tirou algo. Brilhou ao sol da tarde. Minha aliança de casamento. A simples aliança de platina que Henrique colocou em meu dedo três anos atrás.

"Acredito que isto é seu", disse ela, sua voz tingida de triunfo. "Não vamos mais precisar disso."

Ela a deixou cair no degrau de pedra a meus pés. Aterrissou com um clique metálico suave, o som de um fim final e definitivo.

Então ela fechou a porta na minha cara. A pesada porta de carvalho se fechou, me selando para fora da minha antiga vida para sempre.

Fiquei ali por um longo momento, olhando para a porta fechada, para a aliança no chão. Não senti tristeza. Não senti raiva. Senti... nada. Uma vasta e vazia paz.

Não me abaixei para pegar a aliança. Deixei-a ali, uma relíquia de uma vida que não me pertencia mais.

Virei as costas para a casa, para a vida lá dentro, e fui embora. O sol estava quente em meu rosto.

Peguei meu celular e disquei um número que conhecia de cor. Meu amigo mais antigo, dono de uma galeria na Vila Madalena.

"Edu", eu disse quando ele atendeu. "Sou eu."

"Aliyah? Eu vi as notícias. Você está bem?"

"Nunca estive melhor", eu disse, um sorriso de verdade finalmente tocando meus lábios. "Estou indo para São Paulo. Para sempre. E preciso de um emprego."

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