
Ele a Descartou, Ela o Destruiu
Capítulo 2
Eu dei a ele meus melhores anos.
Isso não é uma figura de linguagem, é um fato.
Quando Mateus era apenas um estudante de direito, sonhando em entrar para a política, fui eu quem trabalhou em dois empregos para pagar suas contas. Fui eu quem vendeu o único bem da minha família, um pequeno terreno, para financiar sua primeira campanha para vereador.
Ele prometeu que nos casaríamos assim que ele vencesse.
"Elara, você é a base da minha vida. Sem você, eu não sou nada. Quando eu for alguém, o mundo inteiro saberá que você é minha rainha."
Essas palavras, sussurradas em noites cansadas, eram o meu alimento.
Em sua segunda campanha, para deputado estadual, a coisa ficou feia. Os oponentes dele descobriram um desvio de dinheiro na sua campanha anterior, algo que ele fez por desespero. Ele seria preso, sua carreira, acabada.
Na noite em que os investigadores bateram na nossa porta, eu não hesitei. Assumi a culpa.
Fui eu quem falsificou os documentos, eu disse a eles. Mateus não sabia de nada, ele era a vítima de uma assessora excessivamente zelosa.
Para tornar a história convincente, durante uma briga forjada com os "verdadeiros culpados" que os capangas de Mateus arranjaram, sofri um "acidente". Um incêndio.
O fogo deixou uma cicatriz que descia do meu olho esquerdo até o queixo, uma linha permanentemente repuxada e pálida. Minha mão direita também foi atingida, e os tendões do meu dedo anelar e do mindinho foram danificados para sempre. Eles ficaram curvados, inúteis, como garras de um pássaro morto.
Mateus chorou quando me viu no hospital.
"Nunca vou esquecer o que você fez por mim", ele disse, segurando minha mão boa. "Eu juro pela minha vida, Elara. Vou compensar você por tudo."
Eu acreditei nele.
Por dois anos, enquanto cumpria a pena em regime semiaberto e fazia trabalhos comunitários, eu o vi crescer. Ele se tornou deputado. Sua imagem estava em todos os lugares. O jovem promissor, o rosto da nova política.
Eu esperei.
Hoje, ele se tornou deputado federal. O noticiário da noite estava transmitindo ao vivo sua festa de posse, direto de Brasília. Eu estava assistindo em uma TV pequena no meu apartamento minúsculo, o mesmo que dividíamos quando não éramos nada.
O salão estava cheio de gente poderosa. Fotógrafos por toda parte.
E então, o mestre de cerimônias anunciou um momento especial.
Mateus subiu ao palco, sorrindo seu sorriso de um milhão de dólares. Ele pegou o microfone.
"Meus amigos, hoje é o dia mais feliz da minha vida. E não apenas pela vitória política. Mas porque hoje, eu quero compartilhar com todos vocês a minha maior bênção."
Ele se virou e estendeu a mão.
Do lado do palco, uma mulher deslumbrante em um vestido de seda surgiu. Vanessa de Almeida, a herdeira de um império de construção civil. Linda, perfeita, sem uma única cicatriz no rosto.
Mateus pegou a mão dela. Uma mão impecável, com unhas perfeitamente feitas.
"Eu quero apresentar a vocês a minha noiva, Vanessa. A mulher que esteve ao meu lado em todos os momentos e que em breve será minha esposa."
O salão explodiu em aplausos.
Meu coração não parou. Ele apenas se tornou uma pedra fria no meu peito.
Eu me levantei. Troquei de roupa, colocando o único vestido decente que eu tinha. Peguei um ônibus para o local da festa. Eu não sabia o que iria dizer. Eu só sabia que precisava ouvir da boca dele.
Os seguranças na porta me barraram. Minha aparência, minhas roupas simples, a cicatriz no meu rosto. Eu não pertencia àquele lugar.
"Eu conheço o Deputado Mateus. Eu preciso falar com ele."
Eles riram.
Mas eu fui insistente, e minha insistência causou uma pequena cena. Uma cena grande o suficiente para que alguém lá dentro notasse. Um dos assessores de Mateus, um homem que me conhecia dos velhos tempos, veio até a porta.
Seu rosto ficou pálido quando me viu.
Ele me levou para uma sala lateral, longe dos convidados. Pouco depois, Mateus entrou.
Ele fechou a porta. O sorriso tinha desaparecido. Seu rosto era uma máscara de irritação fria.
"O que você está fazendo aqui, Elara?"
Meu corpo inteiro tremia.
"Sua noiva... Você disse que ela esteve ao seu lado em todos os momentos."
Ele suspirou, impaciente.
"Não comece com drama. O que você esperava? Que eu me casasse com... você? Olhe para você. Olhe para o seu rosto. Para a sua mão."
Cada palavra era um golpe físico.
"Você me prometeu."
"Promessas mudam. As pessoas mudam. Eu mudei. Eu sou um deputado federal agora, Elara. Eu preciso de uma mulher que possa estar ao meu lado em jantares de estado, não de alguém que assuste as crianças."
A porta se abriu de repente e Vanessa entrou. Ela olhou para mim de cima a baixo, com um nojo mal disfarçado.
"Mateus, querido, quem é essa... criatura? Ela está causando um alvoroço."
Mateus colocou um braço ao redor dos ombros dela, um gesto possessivo.
"Não é ninguém, meu amor. Apenas uma antiga vizinha com alguns problemas mentais. Ela acha que eu lhe devo algo."
"Problemas mentais?" Eu sussurrei, incrédula.
Vanessa riu, um som agudo e cruel.
"Ah, uma daquelas. Dê um dinheiro para ela e mande-a embora. Não quero que estrague a nossa noite."
Mateus tirou a carteira do bolso. Ele pegou um maço de notas e jogou no chão, perto dos meus pés.
"Pegue isso e desapareça da minha vida. É mais do que você merece."
O dinheiro, as palavras, o olhar de desprezo no rosto do homem pelo qual eu sacrifiquei meu rosto, minha mão, minha liberdade.
Algo dentro de mim se partiu.
"Você é um monstro", eu disse, minha voz soando estranha para os meus próprios ouvidos.
Vanessa deu um passo à frente.
"Como você ousa falar com meu noivo assim, sua aberração? Seguranças!"
Dois homens enormes entraram na sala. Eles me agarraram pelos braços. A força deles era brutal.
"Levem-na para fora. E se ela resistir, podem ser um pouco mais duros. Ela parece do tipo que gosta."
Vanessa disse isso com um sorriso doce nos lábios.
Eles me arrastaram para fora, passando pela entrada lateral. As pessoas na calçada olhavam, cochichando. A mendiga, a louca, a desfigurada sendo expulsa da festa do homem bom.
"Ela tentou atacar o deputado!"
"Disse que era uma ex-namorada, coitado dele, ter que lidar com esse tipo de gente."
"Olha a cara dela, deve ser uma criminosa."
As vozes da multidão me cercaram, me sufocaram. Humilhação queimava mais quente que o fogo que me marcou.
Eles me jogaram na calçada molhada pela chuva fina que começara a cair.
Eu caí de joelhos.
No meu bolso, meus dedos encontraram um objeto pequeno e frio. Um relicário de prata que Mateus me deu anos atrás. Dentro, uma foto nossa, de quando éramos jovens e cheios de sonhos.
Com a mão que ainda funcionava, eu o arranquei do meu pescoço. A corrente fina cortou minha pele.
Eu olhei para a porta por onde eles me jogaram. Mateus e Vanessa estavam lá, olhando para mim como se eu fosse lixo.
Eu levantei o relicário. Nossos olhos se encontraram por um segundo.
Com toda a força que me restava, eu o joguei no chão. Ele se partiu com um som minúsculo e patético.
Eu me levantei, ignorando a dor em meus joelhos.
Virei as costas para eles, para aquela cidade, para aquela vida.
Havia um lugar. Um lugar para onde eu poderia ir. Uma pequena comunidade no sertão da Bahia, de onde minha mãe veio. Um lugar esquecido pelo tempo.
Eu não tinha um plano. Eu não tinha esperança.
Eu só tinha uma certeza. Eu precisava sair dali. Voltar para o pó, para o lugar de onde eu vim.
Era a única escolha que me restava.
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