
Ele a Descartou, Ela o Destruiu
Capítulo 3
Eu arrumei minhas poucas coisas em uma mala gasta. Roupas velhas, alguns livros, as economias que eu tinha juntado, que mal dariam para a passagem de ônibus. O apartamento parecia um túmulo, cada canto gritando as mentiras de Mateus.
Eu estava prestes a sair quando a porta se abriu com um estrondo.
Mateus estava lá. Sozinho. Seu rosto estava contorcido de raiva.
"Onde você pensa que vai?"
Ele entrou e chutou a porta, fechando-a. O som ecoou no pequeno espaço.
"Eu não te devo satisfações", eu disse, minha voz firme apesar do medo que gelava minha espinha.
Ele riu, um som sem humor.
"Você não me deve nada? Elara, Elara. Você ainda não entendeu. Você é minha. Tudo o que você é, eu fiz. Sua cicatriz, sua mão aleijada, seu registro criminal. Isso tudo é minha marca em você."
Ele se aproximou, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro de uísque caro e colônia encheu o ar.
"Eu te dei uma chance. Eu te ofereci dinheiro para sumir. Mas você tinha que fazer uma cena."
"Uma cena? Eu sacrifiquei tudo por você!"
"E você foi compensada!" ele gritou, seu rosto a centímetros do meu. "Você viveu. Eu poderia ter deixado você morrer naquele incêndio. Eu poderia ter deixado você apodrecer na cadeia. Eu te dei uma vida!"
A violência em seus olhos era algo que eu nunca tinha visto antes. Era a verdade nua e crua, despida de qualquer fingimento.
Ele agarrou meu braço com força, o mesmo braço da mão defeituosa. A dor foi aguda, lancinante. Eu gritei.
"Você vai ficar aqui", ele sibilou. "Vanessa teve uma ideia. Ela precisa de uma nova empregada pessoal. Alguém para limpar seus sapatos, lavar suas roupas íntimas. Alguém que a lembre todos os dias de como ela é sortuda por não ser... você."
A bile subiu pela minha garganta. A humilhação era tão profunda, tão avassaladora, que eu mal conseguia respirar.
"Eu prefiro morrer."
"A morte é fácil demais", ele disse, apertando ainda mais. Senti um estalo no meu pulso. "Você vai aprender seu lugar."
Ele me jogou no chão. Minha cabeça bateu na quina de uma mesa de centro barata. O mundo girou.
Ele se ajoelhou ao meu lado.
"E para garantir que você não tente fugir de novo..."
Ele pegou um pequeno porta-joias da minha penteadeira, um dos poucos itens de valor que eu tinha, um presente da minha falecida avó. Ele o enfiou no próprio bolso.
"Agora você não tem escolha. Ou você vem comigo por bem, ou eu chamo a polícia e digo que você me atacou e roubou este item valioso. Quem eles vão acreditar? No honrado deputado ou na ex-presidiária desfigurada?"
A injustiça daquilo era um soco no estômago. Ele estava me incriminando de novo, usando a mesma tática, a mesma crueldade.
Meus vizinhos, ouvindo o barulho, começaram a sair para o corredor.
"O que está acontecendo aqui?" perguntou Dona Sônia, a senhora do apartamento ao lado.
Mateus se levantou, seu rosto se transformando instantaneamente. A máscara de vítima preocupada estava de volta.
"Graças a Deus vocês estão aqui", ele disse, com a voz embargada. "Elara não está bem. Ela está tendo um surto, me atacou. Ela roubou um anel de noivado que eu ia dar para ela anos atrás."
Ele mostrou o porta-joias.
"Eu só quero ajudá-la. Levá-la para um lugar onde ela possa ser tratada."
A multidão no corredor olhava para mim, caída no chão, para minha cicatriz, para o caos no apartamento. E eles acreditaram nele.
"Coitado do Dr. Mateus."
"Ela sempre pareceu estranha."
"Ele é um santo por ainda tentar ajudar."
O mundo se tornou um pesadelo. Ninguém via a verdade. Eles viam o que queriam ver: o homem poderoso e bom, e a mulher louca e ingrata.
Lembrei-me de um tempo, anos atrás. Estávamos em um parque. Ele me deu o relicário de prata.
"Para que você nunca se esqueça de que meu coração é seu", ele disse.
Sua voz era tão sincera. Seus olhos, tão cheios de amor.
Onde estava aquele homem? Ele morreu, ou ele nunca existiu?
Essa dor, a dor da memória, me deu uma nova força. Uma força nascida do desespero absoluto.
Eu não seria sua escrava. Eu não viveria para ser um troféu de sua crueldade.
Quando ele se inclinou para me levantar, eu reagi.
Usei toda a minha força para empurrá-lo. Ele tropeçou para trás, surpreso pela minha resistência.
"Fique longe de mim!" eu gritei.
Eu me arrastei em direção à porta, tentando desesperadamente escapar.
A raiva no rosto de Mateus se tornou fúria. A máscara caiu completamente na frente de todos.
"Sua vadia ingrata! Você não vai a lugar nenhum!"
Ele se lançou sobre mim. Mas antes que pudesse me tocar, a porta do corredor se abriu mais.
Dois homens altos e de aparência rústica, vestidos com simplicidade, mas com uma aura de autoridade silenciosa, entraram no corredor. Eles não eram da cidade. Seus rostos eram curtidos pelo sol, seus olhos afiados.
Eles bloquearam o caminho de Mateus.
"O senhor tem algum problema, doutor?" um deles perguntou, a voz calma, mas com um sotaque forte do interior.
Mateus parou, pego de surpresa.
"Quem são vocês? Isso não é da sua conta. Saíam do meu caminho."
"Acho que é da nossa conta, sim", disse o outro homem. "Nosso patrão não gosta de ver homens batendo em mulheres."
Mateus olhou para eles, depois para a escada. Um terceiro homem estava parado ali. Mais velho, com cabelos grisalhos e um olhar que parecia ver através das pessoas. Ele usava um chapéu de couro e roupas simples, mas carregava um poder que não vinha de dinheiro ou política. Vinha de algo mais antigo. Mais real.
A atmosfera no corredor mudou instantaneamente.
O ar ficou pesado com uma tensão diferente.
A ajuda não veio de onde eu esperava. A ajuda veio do desconhecido.
E pela primeira vez naquela noite, um pingo de algo que não era desespero começou a se formar no meu coração.
Era uma pergunta.
Quem eram eles?
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