
Ela Não Era Nada Sem Ele... Até Ser Tudo
Capítulo 2
No dia do nosso terceiro aniversário de casamento, o meu marido, Pedro, desapareceu.
Liguei-lhe dezenas de vezes, mas o telemóvel dele estava sempre desligado.
O nosso jantar de aniversário, que eu tinha preparado durante horas, arrefeceu sobre a mesa. A luz das velas tremeluzia, projetando sombras longas e solitárias na sala de jantar vazia.
Senti um aperto no peito, uma sensação familiar de abandono.
Às três da manhã, finalmente ouvi o som da porta a abrir.
Pedro entrou, cambaleando, com o cheiro a álcool e a um perfume feminino barato a pairar sobre ele. O seu fato, normalmente impecável, estava amarrotado, e havia uma mancha de batom vermelho vivo no colarinho da sua camisa branca.
Ele olhou para mim, os seus olhos turvos e desfocados.
"Ainda estás acordada? Não precisavas de esperar."
A sua voz era arrastada, desprovida de qualquer calor.
Apontei para a mancha de batom. O meu coração batia forte e de forma dolorosa no meu peito.
"O que é isto, Pedro?"
Ele baixou o olhar, viu a mancha e encolheu os ombros com uma indiferença que me cortou a respiração.
"Não é nada. Apenas negócios. Sabes como é."
"Negócios? Que tipo de negócios deixam marcas de batom no teu colarinho às três da manhã no nosso aniversário?"
Ele suspirou, um som pesado de irritação.
"Catarina, não comeces. Estou cansado. Tive um dia longo."
Ele tentou passar por mim, mas eu bloqueei-lhe o caminho.
"Não. Não vamos ignorar isto. Onde estiveste?"
A sua paciência esgotou-se. Ele agarrou-me os braços, a sua força a surpreender-me.
"Eu disse para não começares! Estive com a Sofia. Ela precisava de mim."
Sofia. A sua ex-namorada. A mulher que ele jurou ter deixado para trás quando nos casámos.
"A Sofia? O que é que ela tem de tão importante que te fez esquecer o nosso aniversário?"
"O gato dela morreu", disse ele, como se isso explicasse tudo. "Ela estava destroçada. Eu tinha de estar lá para ela."
Um gato.
Ele faltou ao nosso aniversário, ignorou as minhas chamadas e voltou para casa a cheirar a outra mulher por causa de um gato.
O riso amargo escapou dos meus lábios antes que eu o pudesse conter.
"Um gato? Tu trocaste-me por um gato morto, Pedro?"
A raiva brilhou nos seus olhos.
"Não sejas tão insensível, Catarina! Não era apenas um gato, era o Gugu! Tu sabes o quanto ele significava para ela. Tu não tens um pingo de compaixão?"
Compaixão? E a minha dor? E o nosso casamento?
"Então vamos divorciar-nos", disse eu, a minha voz fria e firme, surpreendendo até a mim mesma. "Eu não consigo mais fazer isto."
Pedro ficou em silêncio por um momento, depois soltou uma gargalhada cruel.
"Divórcio? Não sejas ridícula. Estás a exagerar por causa de uma coisinha de nada. Achas que podes viver sem mim? Sem o meu dinheiro?"
Ele empurrou-me para o lado e foi para o quarto, fechando a porta com força.
Fiquei sozinha na sala de jantar, o cheiro a cera de vela derretida e a comida fria a encher o ar. Olhei para a nossa fotografia de casamento na parede. Parecíamos tão felizes, tão cheios de esperança.
Agora, essa felicidade parecia uma mentira. O seu dinheiro. Era sempre sobre o dinheiro dele.
Ele tinha razão. Sem ele, eu não tinha nada. Tinha desistido da minha carreira, dos meus amigos, de tudo, para ser a sua esposa perfeita.
Mas agora, a perfeição tinha-se estilhaçado. E eu não tinha a certeza se queria juntar os cacos.
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