
Ela Não Era Nada Sem Ele... Até Ser Tudo
Capítulo 3
Na manhã seguinte, o silêncio na casa era pesado e opressivo.
Pedro saiu para o trabalho sem dizer uma palavra, deixando para trás apenas o aroma persistente do café e a tensão no ar.
Eu vaguei pela casa, sentindo-me como um fantasma no meu próprio lar. Cada objeto, cada fotografia, era uma recordação de um amor que agora parecia uma farsa.
Decidi que precisava de sair, de respirar ar que não estivesse contaminado pela sua traição.
Enquanto conduzia sem rumo, o meu telemóvel tocou. Era a minha sogra, a Dona Elvira. Atendi com relutância.
"Catarina, querida. O Pedro contou-me o que aconteceu."
A sua voz era falsamente doce, como mel a esconder veneno.
"Ele está tão arrependido. Sabes como ele é, tem um coração de ouro. A Sofia estava a passar por um momento tão difícil."
"Ele faltou ao nosso aniversário para consolar a ex-namorada", respondi, a minha voz sem emoção.
"Oh, não sejas tão dramática. Foi apenas um deslize. Homens são homens. Tu és a esposa dele, tens de ser mais compreensiva. A Sofia é tão frágil, coitadinha, sozinha no mundo."
Frágil? A Sofia era uma advogada de sucesso que vivia num apartamento de luxo. A única fragilidade que eu via era a do meu casamento.
"Eu pedi o divórcio."
Houve uma pausa chocada do outro lado da linha.
"Divórcio? Estás louca? Depois de tudo o que fizemos por ti? Demos-te uma vida que nunca poderias sonhar! És uma ingrata!"
A sua voz subiu, aguda e acusadora.
"O teu pai era um bêbado que te abandonou, a tua mãe uma empregada. Nós tirámos-te da lama, Catarina! E é assim que nos pagas? Ameaçando destruir a nossa família por causa de um ciúme tolo?"
As suas palavras atingiram-me com a força de um soco. Ela sempre soube como usar o meu passado contra mim.
"Isto não tem nada a ver com gratidão. Tem a ver com respeito."
"Respeito? Tu não mereces respeito! És apenas uma cara bonita que teve sorte. O Pedro podia ter qualquer mulher que quisesse, mas escolheu-te a ti. Devias estar de joelhos a agradecer todos os dias, em vez de criar problemas!"
Desliguei a chamada, as minhas mãos a tremer.
As suas palavras ecoavam na minha cabeça: "tiramos-te da lama".
Era assim que eles me viam. Não como uma nora, não como uma esposa, mas como um projeto de caridade. Alguém que eles tinham resgatado e que lhes devia obediência eterna.
A raiva começou a borbulhar dentro de mim, quente e feroz. Uma raiva que eu tinha suprimido durante anos.
Eles não me tinham resgatado. Tinham-me enjaulado. E agora, eu queria a minha liberdade.
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