
Ela levou a casa, o carro e meu coração
Capítulo 2
A decisão de Kristian era óbvia, quase pragmática. Na ausência de Ashley, ele precisava de alguém para cuidar dos seus pais e avô, e Freya, tão adorada por todos, parecia a escolha perfeita.
No entanto, ela não conseguia afastar a sensação de que ele a subestimava. Será que realmente a considerava tão ingênua? Se não, por que acreditaria que ela aceitaria esconder seu caso sem questionar?
Agora, com o pedido repentino de divórcio, a frustração de Freya fervia sob a superfície.
Mesmo depois de seis meses tentando se preparar emocionalmente para esse momento, ainda havia uma parte dela que se recusava a aceitar tão facilmente.
Ela soltou um suspiro lento, atravessou a sala até o sofá e pegou o celular.
Com dedos firmes, ela abriu o contato marcado como "Fred", intocado por dois anos, e digitou: "Verifique se o Grupo Shaw está enfrentando algum problema. E descubra se Kristian está gravemente doente."
As mensagens de Fred surgiram quase que instantaneamente na tela, uma após a outra.
"Freya?!"
"Nunca pensei que falaria com você de novo!"
"Dois anos, Freya. DOIS."
"Onde você esteve?!"
Ela não se deu ao trabalho de explicar. Com o humor sombrio que a dominava, ela respondeu apenas: "Verifique."
Fred cedeu. "Agora mesmo!"
Freya largou o celular ao lado e esperou.
Se Kristian estivesse se divorciando para poupá-la de alguma tragédia iminente, ela o perdoaria, talvez até o ajudasse. Mas se ele fosse apenas um traidor? Nesse caso, ela o abandonaria sem hesitar.
Meia hora depois, seu celular vibrou com a resposta de Fred: "Nada. Sem doenças, sem crise financeira, sem escândalos. Por que você está perguntando? Kristian é rico, bonito e esperto — vocês dois combinam. Não gosta de garotos bonitos? Dê uma chance!"
Ela ignorou a provocação e respondeu: "Você é tão ingênuo."
Em seguida, ela silenciou seu celular.
Se não havia nenhuma razão externa, isso só significava que Kristian era mesmo um canalha.
Fred encarou a tela do celular, perplexo. Será que Freya tinha acordado de mau humor?
Quando se levantou para tomar banho, o olhar de Freya cruzou com os papéis de divórcio sobre a mesa. Depois de um breve momento de hesitação, ela pegou uma caneta, assinou seu nome com firmeza e empurrou os documentos para dentro de uma gaveta, então, foi tomar banho.
Quando saiu do banho, os cabelos ainda úmidos presos numa toalha, ela viu o celular vibrando ininterruptamente.
Várias mensagens não lidas e trinta e duas chamadas perdidas. Obviamente, Frederick Price, claramente empolgado com seu retorno à vida social, já devia ter espalhado a notícia para todos.
Quando o celular tocou mais uma vez, ela o pegou e congelou ao ver que era seu pai.
O peito de Freya apertou. Dois anos sem contato e, agora, ele decidia ligar?
Ela havia deixado Alerith devido a uma situação envolvendo sua mãe e, desde então, por falta de interesse de ambas as partes, ela não havia mais falado com ele.
Após ponderar um pouco, ela atendeu friamente. "Alô."
O silêncio do outro lado da linha se arrastou por segundos desconfortáveis, antes que a voz rouca de Hugh Briggs rompesse a tensão. "Mina."
O apelido a fez fechar os olhos por um instante, uma lembrança que ela preferia esquecer e que ameaçava romper a barreira que ela erguera ao longo dos anos.
"O que você quer?", ela perguntou friamente.
Hugh hesitou, como se as palavras pesassem na sua língua. "Fred me disse que você o procurou... Disse que estava investigando Kristian. Precisa de ajuda?"
"Não." Freya não tinha interesse em qualquer intervenção da parte dele.
Um momento passou antes de Hugh arriscar: "Qual é seu relacionamento com ele?"
Lentamente, ela confessou: "Somos um casal, mas estamos prestes a nos divorciar."
Hugh quase engasgou. Ela estava casada?
"Você...", ele começou.
Mas Freya o interrompeu, pois não queria perder tempo com ele. "Se é só isso, vou desligar."
"Espere!", ele disse rapidamente.
Freya hesitou, o celular ainda colado ao ouvido. A linha estalou, carregando uma tensão palpável.
Finalmente, ele murmurou, "Quando você vai voltar? Aquela mulher se foi."
Então, apressadamente, ele acrescentou: "Os pertences da sua mãe ainda estão aqui, intocados."
Freya fechou os olhos por um segundo, os dedos apertando o celular com força. Uma maré de emoções ameaçou transbordar, mas ela as reprimiu com a mesma frieza que a definia. "Anotado."
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ela encerrou a chamada.
Hugh ficou olhando para o celular, a frustração crescendo no seu peito. Ele nem sequer conseguira perguntar sobre o casamento da filha.
Freya não deu mais atenção a ele. Ela colocou seu celular no modo avião, secou o cabelo com a toalha e se atirou na cama.
A noite passou sem sonhos.
Na manhã seguinte, às oito em ponto, ela já estava pronta.
Maquiagem impecável, pele radiante, e lábios naturalmente carnudos.
O sorriso de Freya era radiante, trazendo um calor que poderia instantaneamente levantar o ânimo de qualquer um, e seus olhos, sempre afiados e vigilantes, refletiam a determinação que a guiava.
Quando Kristian entrou na sala, ela o esperava no sofá, uma figura de controle absoluto, com os cabelos cuidadosamente presos sob uma boina preta.
Ao vê-lo, ela se levantou, pegou o casaco e o jogou despreocupadamente sobre o ombro.
"Vamos."
Kristian não se moveu. Seu terno sob medida enfatizava sua altura enquanto ele dizia: "Hoje não."
Freya estreitou os olhos, surpresa com a recusa.
"Tenho outros compromissos. Vamos lá amanhã mesmo", ele acrescentou, seu tom neutro, mas o olhar se demorou mais do que o necessário no rosto dela.
Freya deu um passo à frente, os olhos cravados nos do marido, e disse num tom autoritário: "Kristian Shaw, eu me maquiei hoje. Se quer que esse divórcio ocorra sem complicações, deixe de lado qualquer plano que tenha hoje. Não lido com promessas quebradas."
Os olhos de Kristian se estreitaram.
Após considerar as palavras dela por um momento, ele saiu para fazer uma ligação. Freya ouviu fragmentos da conversa: "Ashley… hospital… acompanhamento."
Isso a fez soltar um suspiro profundo, a mão apertando a alça da bolsa até os dedos ficarem brancos. Por dentro, ela fervia de raiva. Mesmo agora, ele só conseguia pensar em Ashley.
Kristian estava alheio à fúria de Freya. Tudo o que ele viu foi como ela brilhava hoje, diferente da mulher submissa que ele conhecia.
Quando Kristian voltou, perguntou onde ela queria fazer compras.
Sem hesitar, ela mencionou o maior shopping de luxo da cidade. Entrar lá significava gastar uma fortuna.
Às 10 da manhã, os quatro seguranças a seguiam como mulas de carga, seus braços empilhados com sacolas de relógios, joias, e bolsas de grife.
O celular de Kristian tocava sem parar.
Enquanto Freya entrava em mais uma boutique de joias, ele cerrou os dentes. Para ele, ficou claro que a intenção dela ali não era fazer compras, mas irritá-lo.
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