
Ela e o Fogo da Vingança
Capítulo 2
O cheiro de fumaça enchia meus pulmões, e o calor do fogo queimava minha pele. Eu não lutei. Deixei as chamas me consumirem, assim como consumiam a casa que um dia foi meu lar. No meio do inferno, eu vi o rosto de Patrícia, contorcido em terror e dor, e um último pingo de satisfação percorreu meu coração moribundo. Ela ia morrer comigo. Era o fim justo para a mulher que destruiu tudo o que eu amava.
Tudo começou na véspera do vestibular. Uma data que deveria ser de esperança, mas que se tornou o início do nosso fim. Patrícia, minha colega de quarto, a garota que eu considerava uma amiga, me pediu com olhos pidões para passar o feriado em minha casa. Eu, na minha ingenuidade, concordei. Levei a serpente para o meu ninho.
Ela seduziu meu irmão, Pedro. Ele era jovem, inteligente, com um futuro brilhante pela frente, prestes a fazer a prova que definiria sua vida. Patrícia, com sua maldade calculada, o acusou falsamente de agressão. O mundo de Pedro desabou. A acusação o impediu de fazer o vestibular, sua reputação foi para o lixo e ele foi expulso da escola.
Para me "proteger", minha família foi forçada a acolher Patrícia. Ela se fez de vítima, e meus pais, com seus corações bons e ingênuos, caíram na armadilha. Patrícia se tornou uma parasita, explorando nossa culpa e nosso dinheiro. Ela forçou Pedro, meu irmão outrora promissor, a trabalhar em uma fábrica perigosa para sustentar seus luxos.
A morte dele não foi uma surpresa, mas ainda assim me quebrou. Um acidente na fábrica. Um corpo esmagado. Um futuro aniquilado. Meus pais não aguentaram. A dor os consumiu, e eles se foram logo depois, um após o outro, como se seus corações estivessem ligados por um fio de tristeza que finalmente se partiu.
Fiquei sozinha, com um ódio que era a única coisa que me mantinha de pé. Então, eu peguei a gasolina. E agora, o fogo. O fim.
Ou assim eu pensei.
Abri os olhos.
Não havia fumaça. Não havia calor.
Eu estava no meu quarto do dormitório da faculdade. A luz do sol da tarde entrava pela janela, iluminando as partículas de poeira no ar. Olhei para minhas mãos. Elas estavam limpas, sem queimaduras, sem cicatrizes.
Meu coração começou a bater descontroladamente. Peguei meu celular da mesinha de cabeceira. A tela se acendeu.
A data me fez prender a respiração.
Era o dia. O dia em que Patrícia me pediu para ir para casa com ela. O dia antes do vestibular de Pedro. O dia em que tudo começou a dar errado.
Eu não estava morta. Eu tinha voltado.
Uma onda de choque, de descrença, me atingiu. Era impossível. Mas a sensação do lençol sob meus dedos, o barulho dos estudantes no corredor, tudo era real. Uma segunda chance. Uma chance de salvar minha família. Uma chance de fazer Patrícia pagar de uma forma que a morte pelo fogo nunca poderia.
Naquele momento, a porta do quarto se abriu.
Era ela. Patrícia.
Ela entrou com seu sorriso doce e falso, o mesmo sorriso que enganou a todos. Seus olhos brilhavam com uma inocência ensaiada.
"Lívia, eu estava te procurando."
Sua voz, a mesma voz que sussurrou mentiras e destruiu minha família, soou como um veneno em meus ouvidos.
"O que foi?", perguntei, minha própria voz soando mais fria do que eu pretendia.
Ela se aproximou, sentando-se na beirada da minha cama, uma expressão vulnerável no rosto.
"Sabe, o feriado do vestibular está chegando... e eu não tenho para onde ir. Meus pais estão viajando, e eu não queria ficar sozinha no dormitório. Eu estava pensando... será que eu poderia ir para casa com você?"
O pedido. O mesmo pedido. As mesmas palavras.
Um calafrio percorreu minha espinha. A cena se desenrolava exatamente como na minha memória. Mas desta vez, a garota sentada na minha frente não era minha amiga. Era um monstro. E eu via através de sua máscara.
Meu peito se encheu de uma fúria gelada. Eu me lembrava de tudo. Da maneira como ela encantou meus pais com suas histórias tristes e sua falsa gratidão. Da forma como ela olhou para o meu irmão, não com afeto, mas com a cobiça de um predador. Da vulnerabilidade de minha família, sua bondade transformada em uma arma contra eles mesmos.
Na minha vida passada, eu disse "Claro, Patrícia! Meus pais vão adorar te conhecer!".
Desta vez, a resposta seria diferente. Eu olhei diretamente em seus olhos, e pela primeira vez, deixei meu ódio transparecer.
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