
Ela e o Fogo da Vingança
Capítulo 3
"Não."
A palavra saiu da minha boca, curta e afiada. Não houve hesitação. Apenas a certeza fria e absoluta de quem já viveu o inferno e se recusa a revisitá-lo.
O sorriso de Patrícia vacilou por uma fração de segundo. Confusão genuína passou por seus olhos antes que ela a substituísse por uma máscara de mágoa.
"Não? Mas... por quê? Eu pensei que fôssemos amigas, Lívia. Eu realmente não quero ficar sozinha aqui."
Ela usou o mesmo tom choroso que a tornava tão eficaz. Era uma manipulação emocional descarada, projetada para me fazer sentir culpada, para me forçar a ceder. Na minha vida anterior, teria funcionado. Eu teria me sentido péssima e imediatamente voltado atrás na minha decisão.
Mas a Lívia que viveu para ver sua família morrer não sentia mais culpa. Apenas raiva.
"Eu disse não, Patrícia", repeti, mantendo meu tom de voz firme e baixo. "Meus pais estão com muitas coisas na cabeça por causa do vestibular do meu irmão. Não é uma boa hora para visitas."
Era uma desculpa plausível, uma barreira lógica contra seu ataque emocional.
A expressão de Patrícia se tornou ainda mais magoada. Seus olhos se encheram de lágrimas, lágrimas que eu sabia serem tão falsas quanto seu sorriso.
"Mas... eu não vou incomodar, eu juro! Eu posso até ajudar seu irmão a estudar, se ele quiser. Eu só... eu realmente não tenho outro lugar para ir."
Ela estava se fazendo de vítima, uma tática que ela dominava com perfeição. Ela queria que eu me sentisse responsável por seu suposto sofrimento. Mas eu conhecia a verdade. Eu sabia que por trás daquela fachada de menina abandonada havia um poço de inveja e maldade.
Eu me levantei da cama, criando uma distância física entre nós. Cruzei os braços, um gesto de desafio.
"Este não é um problema meu, Patrícia. Você é uma adulta. Encontre outra solução. Minha resposta é não, e é final."
Minha firmeza a pegou de surpresa. Ela não estava acostumada a ser rejeitada. Ela sempre conseguia o que queria através de charme e manipulação. Ver seu poder falhar a deixou visivelmente desconcertada.
As lágrimas falsas secaram instantaneamente. A máscara de donzela em perigo caiu, revelando uma carranca de pura irritação. Ela percebeu que sua estratégia inicial não estava funcionando.
"Tudo bem, Lívia", disse ela, sua voz agora tingida de um ressentimento mal disfarçado. "Se é assim que você quer. Eu só não esperava isso de você."
Ela se levantou abruptamente, como se minha presença a ofendesse. Ela caminhou em direção à porta, com uma rigidez dramática em seus ombros, garantindo que eu visse o quão "magoada" ela estava.
"Não se preocupe, não vou mais te incomodar com meus problemas", ela disse, antes de sair e bater a porta atrás de si.
O silêncio que se seguiu foi preenchido por um sentimento de alívio avassalador.
Eu consegui.
Eu a parei.
Recostei-me na parede, sentindo minhas pernas fracas. Um sorriso lento se espalhou pelo meu rosto. Era uma sensação de poder, de controle. Eu tinha mudado o roteiro. A tragédia tinha sido evitada com uma única palavra.
Pedro estaria seguro. Meus pais estariam seguros. Nossa família continuaria inteira e feliz.
Naquele momento, eu acreditei genuinamente que o pesadelo havia acabado antes mesmo de começar. Eu me permiti respirar fundo, sentindo uma esperança que eu não sentia há muito, muito tempo. Eu estava ingênua novamente, mas de uma maneira diferente. Eu acreditava que tinha vencido a batalha.
Mal sabia eu que a guerra estava apenas começando.
Você pode gostar





