
E o Vento Levou a Mentira: O Fim de um Império
Capítulo 2
No dia do meu casamento, o meu noivo, Pedro, desapareceu.
A igreja estava cheia de convidados, a música soava suavemente, mas o altar onde ele deveria estar, estava vazio.
O meu telemóvel vibrou na minha mão, escondido nas dobras do meu vestido de noiva. Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Se queres encontrar o Pedro, vem ao Hospital da Luz, quarto 302. Sozinha."
O meu coração parou por um segundo. Olhei para a minha mãe, que me olhava com preocupação, e para o meu futuro sogro, o Sr. Alves, que parecia sombrio e irritado com o atraso.
Sem pensar duas vezes, levantei a bainha do meu vestido e corri para fora da igreja, ignorando os chamados confusos atrás de mim.
"Sofia, onde vais?"
"O que está a acontecer?"
Não respondi a ninguém. O pânico era uma bola fria no meu estômago.
Quando cheguei ao quarto 302, a porta estava entreaberta. Empurrei-a suavemente e o que vi fez o meu mundo desabar.
Pedro estava sentado na beira da cama, segurando a mão de uma mulher pálida. Era a Eva, a sua ex-namorada, que supostamente tinha ido para o estrangeiro há anos.
"Pedro, estou com tanto medo," a voz dela era fraca, trémula. "O médico disse que a minha condição é muito instável. E se eu não conseguir aguentar?"
"Não digas isso, Eva," a voz de Pedro era suave, cheia de uma ternura que eu raramente ouvia. "Eu estou aqui. Não te vou deixar. Nunca mais."
Ele inclinou-se e beijou-a na testa.
Naquele momento, eles pareciam um casal apaixonado a enfrentar uma tragédia. E eu? Eu era a piada, vestida de noiva, parada à porta.
Fiz um barulho, talvez um soluço, e os dois olharam para mim.
O pânico nos olhos de Pedro foi rapidamente substituído por irritação.
"Sofia? O que estás a fazer aqui? Quem te disse para vires?"
Ele levantou-se, caminhando na minha direção e tentando empurrar-me para fora do quarto.
"Vamos conversar lá fora. Não incomodes a Eva, ela precisa de descansar."
A sua preocupação era toda para ela.
Eu não me mexi. Olhei para a mulher na cama, e depois para ele.
"Incomodar? Pedro, hoje é o nosso casamento. Os convidados estão à espera. A minha família está à espera. O que é que tu estás a fazer aqui?"
A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
"A Eva está doente, muito doente! Ela precisa de mim!" ele disse, como se isso explicasse tudo. Como se fosse óbvio que o sofrimento dela era mais importante do que o nosso compromisso.
"Ela está doente? E o nosso casamento? O que é isso para ti? Uma brincadeira?"
A raiva começou a queimar o meu choque.
"Sofia, não sejas egoísta!" ele disse, a sua voz a subir. "A Eva está a lutar pela vida! Não podes ter um pingo de compaixão? Ela voltou para Portugal por minha causa, e agora está assim. Eu tenho responsabilidade!"
A palavra "egoísta" atingiu-me com força. Eu, que planeei cada detalhe do nosso futuro, que o amei com tudo o que tinha, era a egoísta?
"Responsabilidade?" Ri, um som amargo e feio. "E a tua responsabilidade para comigo? Onde é que ela está, Pedro?"
Ele não respondeu. Apenas olhou para mim com uma expressão de desapontamento, como se eu fosse uma criança a fazer uma birra.
Nesse momento, o meu telemóvel tocou. Era o pai dele, o Sr. Alves. Hesitei, mas atendi, colocando no altifalante.
A voz dele era um trovão. "Sofia! Onde está o Pedro? Que tipo de vergonha é esta? Se não queres casar, podias ter dito antes! Fazer a nossa família passar por este ridículo!"
Antes que eu pudesse responder, Pedro arrancou o telemóvel da minha mão.
"Pai, sou eu. Acalma-te. Aconteceu uma emergência com a Eva. Eu não posso deixá-la agora."
Houve um silêncio do outro lado da linha, e depois a voz do Sr. Alves mudou completamente. Tornou-se mais suave, preocupada.
"A Eva? O que aconteceu com ela? Ela está bem? Onde vocês estão?"
"Estamos no Hospital da Luz. A condição dela não é boa."
"Meu Deus. Fica com ela, filho. Não te preocupes com o resto. A saúde da Eva é a prioridade. Eu trato das coisas aqui."
Ele desligou. Simples assim. A saúde da Eva era a prioridade. E o meu coração, a minha dignidade, o nosso casamento? Eram "o resto".
Pedro devolveu-me o telemóvel, o seu olhar era frio.
"Vês? Até o meu pai entende. Porque é que tu não consegues entender?"
Senti o meu corpo tremer. Olhei para o meu vestido branco, para o anel de noivado no meu dedo. Tudo parecia uma fantasia cruel.
"Entender o quê, Pedro? Que eu nunca fui a tua escolha? Que eu era apenas um substituto conveniente até a tua verdadeira amada voltar?"
"Não fales assim, Sofia. É mais complicado do que isso."
"Não," eu disse, a minha voz a quebrar finalmente. "Não é complicado. Tu amas-la. E nunca deixaste de a amar. E eu fui uma idiota por acreditar em ti."
Tirei o anel do meu dedo. A prata fria parecia queimar a minha pele. Estendi-o para ele.
"Acabou, Pedro. Podes ficar com a tua responsabilidade."
Virei-me e saí daquele quarto, deixando para trás o meu noivo, o seu verdadeiro amor e as ruínas do meu futuro.
Enquanto caminhava pelo corredor do hospital, o som dos meus próprios soluços era a única coisa que eu ouvia. O meu vestido de noiva arrastava-se no chão sujo, um símbolo perfeito de como me sentia.
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