
E o Vento Levou a Mentira: O Fim de um Império
Capítulo 3
Saí do hospital e entrei no primeiro táxi que vi. O motorista olhou para mim pelo espelho retrovisor, para o meu vestido de noiva e o meu rosto manchado de lágrimas, mas não disse nada.
"Para a igreja de Santo António, por favor," murmurei.
Eu precisava de enfrentar a humilhação. Precisava de dizer a todos que o casamento tinha sido cancelado.
Quando cheguei, a maioria dos convidados já tinha ido embora. Apenas a minha família e alguns amigos próximos permaneciam, os seus rostos uma mistura de confusão e pena.
A minha mãe correu para mim, abraçando-me com força.
"Sofia, minha querida, o que aconteceu? Onde está o Pedro?"
"Ele não vem, mãe," disse eu, a minha voz vazia. "O casamento acabou."
Expliquei o que tinha visto no hospital. Cada palavra era como vidro na minha garganta. O Sr. Alves, que tinha voltado do hospital, estava lá, de pé ao lado do meu pai. A sua expressão não era de simpatia por mim, mas de preocupação pelo seu filho e pela Eva.
"A Sofia está a exagerar," disse ele, dirigindo-se ao meu pai. "O Pedro é um homem bom. A Eva está gravemente doente, ela é como uma filha para mim. É natural que ele queira estar ao lado dela. A Sofia devia ser mais compreensiva."
"Compreensiva?" O meu pai, um homem geralmente calmo, deu um passo à frente, a sua voz cheia de uma raiva fria. "A sua filha está a ser humilhada no dia do seu casamento, e o senhor pede-lhe para ser compreensiva? Onde está a honra da sua família, Sr. Alves?"
"Honra? Não me fale de honra! A saúde da Eva é mais importante do que esta cerimónia! O Pedro fez a coisa certa!"
A discussão tornou-se acalorada. Eu sentia-me distante, a observar tudo como se fosse um filme.
Finalmente, não aguentei mais.
"Parem," disse eu, a minha voz a cortar a discussão. "Já não importa. Eu vou para casa."
Virei-me e comecei a afastar-me.
"Sofia!" O Sr. Alves chamou o meu nome. "Não tomes nenhuma decisão precipitada. O Pedro ama-te. Ele só está confuso agora. Dá-lhe tempo."
"Tempo?" Ri sem humor. "Ele teve três anos. O tempo dele acabou."
Fui para casa, para o apartamento que eu e o Pedro tínhamos decorado juntos. Cada objeto era uma recordação dolorosa. O sofá onde nos sentávamos para ver filmes, a cozinha onde tentámos cozinhar juntos e queimámos o jantar, a varanda onde planeámos o nosso futuro.
Sentei-me no chão da sala vazia, ainda com o meu vestido de noiva. Senti-me oca, esvaziada de tudo.
O meu telemóvel tocou. Era o Pedro. Ignorei. Ele ligou de novo. E de novo. Finalmente, atendi, cansada de ouvir o som.
"Sofia, por favor, ouve-me."
"Não tenho nada para te ouvir, Pedro."
"Eu sei que estás magoada," disse ele. "Eu estraguei tudo. Mas a situação da Eva é crítica. Ela teve um colapso quando soube que eu ia casar. Os médicos dizem que o stress pode matá-la. Ela precisa de mim."
"E eu? Eu não precisava de ti hoje?"
"É diferente, Sofia. Tu és forte. A Eva... ela é frágil. Sempre foi."
Então era isso. Eu era a "forte". A que aguentava tudo. A que podia ser deixada para trás porque, de alguma forma, ia ficar bem.
"Não me ligues mais, Pedro. Vai cuidar da tua mulher frágil. Eu vou tratar do divórcio... ou da anulação, ou seja o que for que se faz quando o noivo foge do altar."
"Divórcio? Sofia, não fales a sério! Eu amo-te! Só preciso de tempo para resolver isto!"
"Tu não me amas, Pedro. Tu amas a ideia de mim. A ideia de uma mulher estável e forte que pode cuidar de tudo enquanto tu salvas a tua donzela em apuros. Mas eu cansei-me desse papel."
Desliguei o telefone e bloqueei o número dele.
Nos dias seguintes, agi como um autómato. Contactei uma advogada. Comecei a empacotar as coisas do Pedro em caixas. Cada item que tocava trazia uma onda de memórias que eu empurrava para o fundo da minha mente.
A minha mãe vinha todos os dias, trazendo comida que eu mal tocava, tentando fazer-me falar. Mas não havia nada para dizer.
Uma semana depois do não-casamento, recebi uma chamada da minha advogada.
"Sofia, tenho notícias. O Sr. Alves está a contestar a separação de bens. Ele alega que, como o casamento não foi oficializado, todos os investimentos que fizeram juntos no apartamento pertencem ao filho dele."
"O quê? Mas eu paguei metade de tudo!"
"Eu sei. Mas eles estão a usar uma brecha legal. E mais uma coisa... eles querem que saias do apartamento o mais rápido possível. Dizem que o Pedro precisa de um lugar para 'recuperar do stress emocional'."
A audácia deles deixou-me sem fôlego. Eles não só me humilharam, como agora queriam tirar-me a minha casa.
"Eles não vão conseguir," disse eu, uma nova determinação a endurecer a minha voz. "Se eles querem uma luta, vão ter uma."
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