
Duas Caras, Uma Traição
Capítulo 2
Quando saí do hospital, o sol da tarde era forte. O calor do asfalto subia em ondas, distorcendo a visão da rua movimentada.
Eu segurava o relatório do médico na minha mão, o papel amassado pela força com que eu o apertava. As palavras eram simples: "Infertilidade secundária, prognóstico reservado."
O meu filho, Lucas, tinha falecido há um ano, num acidente de carro. Desde então, eu e o meu marido, Pedro, tentávamos ter outro filho, mas sem sucesso.
Hoje, recebi a resposta definitiva.
Peguei no telemóvel e liguei ao Pedro. Precisava de lhe contar, precisava do seu apoio.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, a sua voz estava distante, abafada por risos e música alta.
"Sofia? O que foi? Estou ocupado agora."
"Ocupado?", perguntei, a minha voz a tremer um pouco. "Onde estás?"
"Estou com a Ana e uns amigos. É o aniversário dela, lembras-te? Estamos a celebrar."
Ana. A minha prima. A mulher que se mudou para nossa casa há seis meses para "ajudar" depois da morte do Lucas.
"Pedro, eu recebi os resultados do médico," disse eu, tentando manter a calma. "Não são bons. O médico disse que..."
"Olha, Sofia, podemos falar sobre isso mais tarde?", ele interrompeu-me, impaciente. "A Ana está a cortar o bolo. Não quero estragar o ambiente. Liga-me depois."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ouvi a voz da Ana ao fundo, doce e melodiosa.
"Pedrinho, vem cá! Ajuda-me a apagar as velas! Deseja comigo que o nosso sonho se realize!"
O nosso sonho? Que sonho era esse?
O meu coração gelou. Um frio percorreu a minha espinha, apesar do calor sufocante da tarde.
"Pedro," insisti, a minha voz agora um sussurro. "Eu preciso de ti."
Houve um silêncio do outro lado, seguido por um suspiro irritado.
"Sofia, para de ser tão dramática. Já não és uma criança. Supera isso. A vida continua. Olha para a Ana, ela também está a sofrer, mas está a tentar ser feliz."
Ele desligou.
Fiquei parada no meio do passeio, o telemóvel ainda na minha mão. O barulho da cidade desapareceu. Só conseguia ouvir o som do meu próprio sangue a pulsar nos meus ouvidos.
A vida continua? Como é que ele se atrevia a dizer-me isso? O meu filho morreu. O nosso filho. E agora, a minha capacidade de ter outro tinha desaparecido.
Ele estava a celebrar. Com a minha prima.
A minha dor era um drama. A dor dela era real.
As lágrimas que eu tinha segurado começaram a rolar pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Olhei para o céu azul, sentindo um vazio tão grande dentro de mim que ameaçava consumir-me.
Naquele momento, eu soube. O meu casamento, tal como o meu sonho de ser mãe outra vez, tinha acabado.
Voltei para casa, um lugar que de repente parecia estranho e frio. A casa estava vazia. Sobre a mesa da cozinha, um pedaço de bolo de chocolate, com um bilhete ao lado.
A caligrafia era da Ana.
"Sofia, guardei uma fatia para ti. A festa foi incrível! O Pedro foi tão querido, até me deu um presente maravilhoso. Falamos quando chegares. Beijos, Ana."
O presente. Na semana passada, Pedro disse que não tínhamos dinheiro para a consulta de fertilidade que eu queria marcar. Disse que tínhamos de apertar o cinto.
Mas havia dinheiro para um presente maravilhoso para a Ana.
Peguei na fatia de bolo e no bilhete e atirei-os para o lixo. A raiva começou a queimar por baixo da minha dor, uma chama pequena mas feroz.
Eu não ia deixar que eles me destruíssem.
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