
Duas Caras, Uma Traição
Capítulo 3
Subi as escadas, movendo-me como um autómato. O nosso quarto, o santuário que partilhámos durante cinco anos, parecia agora o quarto de um hotel impessoal.
Abri o guarda-roupa do Pedro. As suas roupas estavam perfeitamente arrumadas, camisas passadas a ferro, calças vincadas. Ao lado, as minhas roupas pareciam desbotadas e sem vida.
Num impulso, comecei a tirar as coisas dele. Primeiro, as camisas. Uma por uma, atirei-as para o chão. Depois as calças, os casacos, tudo.
A minha respiração estava ofegante. Cada peça de roupa que tocava parecia queimar a minha pele.
Eram memórias. A camisa que ele usou no nosso primeiro encontro. O casaco que compramos juntos em Paris. A gravata do nosso casamento.
Tudo mentiras.
No fundo do guarda-roupa, encontrei uma pequena caixa de madeira que eu nunca tinha visto. Não estava trancada.
Abri-a.
Dentro, havia fotografias. Dezenas de fotografias. Pedro e Ana.
Pedro e Ana a rir numa praia. Pedro e Ana a abraçarem-se em frente à Torre Eiffel, na mesma viagem que ele fez "sozinho para espairecer" três meses depois da morte do Lucas. Pedro e Ana a beijarem-se, a cara dela radiante de felicidade, a mão dele possessivamente na sua cintura.
Havia também um teste de gravidez positivo.
E um pequeno par de sapatos de bebé, azuis.
O ar foi-se dos meus pulmões. Caí de joelhos no meio das roupas dele, a caixa na minha mão. O som que saiu da minha boca não foi humano. Foi um grito de pura agonia.
Eles não estavam apenas a ter um caso. Eles estavam a construir uma vida. A vida que me foi roubada.
O "nosso sonho" da Ana. Um bebé. O bebé que eu não podia mais ter.
A dor era tão intensa que se tornou física. O meu peito doía, a minha cabeça latejava. Por um momento, pensei que ia morrer ali mesmo, no chão do meu quarto, rodeada pelas provas da traição do meu marido.
Mas a raiva voltou, mais forte do que nunca. Salvou-me.
Levantei-me. As minhas mãos tremiam, mas a minha decisão era firme como uma rocha.
Peguei em dois sacos de lixo grandes. Enfiei lá dentro todas as roupas do Pedro, todos os seus pertences. Não deixei nada. Esvaziei as suas gavetas, a sua mesa de cabeceira.
Levei os sacos para a rua e atirei-os para dentro do contentor do lixo.
Voltei para dentro e peguei na caixa de madeira. Guardei-a. Esta era a minha prova. A minha arma.
O meu telemóvel tocou. Era a minha sogra, a mãe do Pedro, a Dona Helena.
Atendi.
"Sofia, querida, está tudo bem? O Pedro disse que ligaste e que parecias chateada." A sua voz era mel.
"Estou ótima, Helena," respondi, a minha voz surpreendentemente calma.
"Ainda bem. Olha, eu sei que estes tempos têm sido difíceis, mas tens de ser forte. O Pedro também está a sofrer muito. E a Ana, coitadinha, tem sido um anjo para ele. Tens de ser mais compreensiva."
Compreensiva. A palavra ecoou na minha cabeça.
"Não se preocupe, Helena," disse eu. "Eu vou ser muito, muito compreensiva."
Desliguei antes que ela pudesse responder.
Sentei-me no sofá da sala vazia e esperei. A noite caiu, mas não acendi as luzes. Fiquei na escuridão, a planear o meu próximo passo.
A festa tinha acabado. Agora, o verdadeiro espetáculo ia começar.
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