
Do Inferno ao Paraíso
Capítulo 2
Miguel sentiu o mundo desabar quando o médico, com um olhar de pena, confirmou a gravidez de Sofia. Seria uma notícia feliz, se não fosse por um detalhe: ele não tocava nela há meses, desde a lesão que o tirou dos campos.
"Parabéns, Miguel. Pelo ultrassom, Sofia está com quase três meses."
Três meses. A conta não fechava.
O silêncio no carro, na volta para casa, era pesado. Sofia olhava pela janela, a mão pousada sobre a barriga que ainda mal aparecia. Miguel segurava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, a confusão e a dor batalhando dentro dele.
Assim que entraram em casa, Sofia desabou a chorar. Era um choro ensaiado, que ele já conhecia.
"Me perdoa, Miguel. Me perdoa, por favor."
Ela se agarrou a ele, o rosto molhado de lágrimas falsas.
"Foi só uma vez, eu juro. Naquela festa do clube, depois que você se machucou. Eu bebi demais, estava tão perdida, com tanto medo por você. Foi uma noite de excessos, não significou nada."
A desculpa era patética, mas ele era seu namorado desde a infância, o homem que a amava mais do que a si mesmo. Uma parte dele, a parte tola e desesperada, queria acreditar.
"Eu te amo, Miguel. Só a você. Esse bebê... ele não tem culpa. Podemos criá-lo juntos. Ele vai ser nosso filho."
Ela o manipulava com a precisão de um cirurgião, tocando em todos os seus pontos fracos: o amor deles, o sonho de ter uma família, a sua própria fragilidade desde a lesão.
Nos dias seguintes, Sofia se transformou na namorada perfeita. Cuidava dele, cozinhava seus pratos favoritos, falava sem parar sobre o futuro, sobre o quarto do bebê, sobre como seriam uma família feliz. Miguel, perdido na névoa da traição, quase se deixou levar.
A verdade o atingiu como um soco no estômago, numa tarde chuvosa. Ele estava mancando pela casa, procurando um analgésico, quando ouviu a voz de Sofia vindo do quarto. Ela falava baixo ao telefone, mas a porta estava entreaberta.
"Sim, Thiago, ele está engolindo tudo. O idiota apaixonado acredita que o filho é um erro de uma noite."
Uma pausa. A risada dela, baixa e cruel, cortou o ar.
"Claro que ele vai assumir. Com a carreira acabada, ele não tem mais nada, só a mim. E o dinheiro dele? Agora é nosso dinheiro, meu amor. Nosso e do nosso filho."
Thiago. Seu empresário. Seu amigo.
Miguel se apoiou na parede, o ar faltando em seus pulmões. A dor no joelho não era nada comparada à dor que rasgava seu peito. Ele olhou para a sala, para as fotos dos dois sorrindo, para a vida que ele achava que tinha. Era tudo uma mentira. Uma farsa nojenta.
Ele sentiu um cansaço profundo, uma náusea que subia pela garganta. A imagem de Sofia e Thiago juntos, rindo da sua desgraça, se fixou em sua mente. O amor que ele sentia se transformou em pó, em cinzas de desgosto. Estava acabado. Ele não seria o idiota da história deles.
Sem pensar, ele pegou o celular e discou um número que não usava há tempos.
"Isabella?"
A voz dela soou calorosa do outro lado, uma lufada de ar fresco naquele ambiente podre.
"Miguel? Aconteceu alguma coisa?"
"Você está ocupada? Preciso conversar."
Era um pedido de socorro. Um primeiro passo para fora do abismo.
No dia seguinte, ele foi a uma consulta de rotina com o ortopedista. A ressonância magnética confirmou o que ele já temia.
"Sinto muito, Miguel. A lesão foi grave. A cirurgia estabilizou seu joelho, mas para o futebol de alto rendimento... acabou. Você não pode mais jogar profissionalmente."
As palavras do médico foram o prego final no caixão de seus sonhos. Ele saiu da clínica sentindo-se oco, um fantasma de si mesmo. Sem rumo, dirigiu até um café perto do consultório.
E lá estavam eles. Sofia e Thiago.
Sentados numa mesa no canto, riam e conversavam animadamente. Thiago colocou a mão sobre a barriga de Sofia, um gesto íntimo, possessivo. Depois, ele se inclinou e a beijou. Um beijo longo, apaixonado, que não deixava dúvidas sobre a natureza da relação deles.
Miguel ficou parado do lado de fora, na chuva fina que começava a cair, observando a cena pelo vidro. Cada risada, cada toque, era uma facada. Ele se lembrou de todos os sacrifícios, de todas as promessas, de todos os anos que dedicou a ela. Tudo para acabar assim, sendo o espectador da felicidade construída sobre suas ruínas.
A dor se transformou em uma raiva fria e lúcida. Ele não sentia mais tristeza, apenas uma determinação gelada.
Ele pegou o celular novamente. Não ligou para Isabella desta vez. Ligou para o melhor advogado da cidade.
"Preciso dos seus serviços. É uma questão pessoal. E urgente."
A guerra estava apenas começando.
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