
Do Inferno ao Paraíso
Capítulo 3
Quando Miguel abriu a porta de casa, o cheiro dele o atingiu primeiro. Um perfume caro e amadeirado que não era o seu. Era o perfume de Thiago.
Sofia veio recebê-lo na sala, com um sorriso que não alcançava os olhos.
"Amor, você demorou. Estava preocupada."
Ela tentou beijá-lo, mas Miguel virou o rosto. O cheiro dele estava nela também, impregnado na sua pele, no seu cabelo. O estômago dele se revirou.
Ele caminhou até o centro da sala, o som de sua perna machucada ecoando no silêncio. Ele não se sentou. Apenas ficou de pé, olhando para ela.
"Sofia, eu quero a separação."
As palavras saíram calmas, sem emoção. Frias como o gelo que se formara em seu coração.
O sorriso de Sofia desapareceu. Seus olhos se arregalaram em choque, uma confusão genuína passando por seu rosto antes de ser substituída pela máscara da vítima.
"O quê? Separação? Miguel, do que você está falando? Por causa daquela noite? Eu já te pedi perdão! Eu te amo, nós vamos ter um filho!"
"Esse filho não é meu."
A negação dela foi instantânea, quase um grito.
"Como você pode dizer isso? Você está me acusando? Depois de tudo que passamos? É a sua lesão, não é? Está te deixando amargo, cruel!"
Ela tentou se aproximar, mas ele deu um passo para trás.
"Eu ouvi você, Sofia. No telefone. Com o Thiago."
O rosto dela ficou pálido. A máscara caiu, revelando a feiura por baixo. A raiva brilhou em seus olhos.
"Então você estava me espionando? Que patético."
Ela cruzou os braços, a postura defensiva se transformando em agressividade.
"E se for verdade? E daí? O que você ia fazer, hein? Você não é mais o grande Miguel, o craque do time. Você é um aleijado, um ex-jogador. Thiago pode me dar uma vida que você não pode mais. Ele é um homem de verdade."
Cada palavra era um golpe calculado para ferir, para diminuí-lo.
"Eu não quero nada de você, Sofia. Apenas a minha liberdade. Quero que você saia da minha casa."
"Sua casa?", ela riu, um som estridente e feio. "Essa casa é nossa! E eu não vou a lugar nenhum. Estou grávida, Miguel! Você tem a obrigação de cuidar de mim e do meu filho. Mesmo que não seja seu, você vai criá-lo. É o mínimo que você pode fazer."
"Eu não vou."
A recusa dele, firme e final, a fez explodir.
Com um grito de fúria, ela correu até a estante onde ficavam os porta-retratos. Pegou a foto do casamento deles, a imagem de um dia que ele um dia considerou o mais feliz de sua vida, e a atirou no chão. O vidro se estilhaçou, espalhando cacos pelo tapete.
"Você vai se arrepender disso, Miguel! Eu vou destruir você!"
Ela começou a rasgar outras fotos, álbuns, qualquer lembrança que encontrava pela frente, num frenesi de ódio.
Miguel apenas observou, impassível. Quando ela parou, ofegante, no meio da bagunça, ele se abaixou lentamente, com dificuldade por causa do joelho. Ele pegou um dos pedaços da foto rasgada, o seu próprio rosto sorrindo, e o olhou por um instante. Depois, calmamente, o jogou na lixeira junto com os outros destroços.
Ele se virou e foi em direção ao quarto, sem dizer mais nada.
Pegou uma mala e começou a colocar algumas roupas dentro. Camisetas, calças, o essencial. Deixou para trás os ternos caros, os relógios, tudo que lembrava a vida que ele não queria mais. Ele pegou uma camisa simples, uma que usava antes da fama, e a vestiu. Era hora de um novo começo, por mais doloroso que fosse.
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