
Do Avental Manhado à Coroa: A Ascensão de Fiona
Capítulo 2
"Fiona, atenção! O creme de baunilha está a talhar!"
A voz de Leonel soou tensa através do estúdio de televisão. Estávamos em direto, a competir no mais prestigiado concurso de gastronomia do país, e a pressão era imensa.
Olhei para a bancada da nossa assistente, Cecilia Perez. O creme, que deveria ser sedoso e homogéneo, estava granulado. Um erro básico para qualquer estagiária.
"Cecilia, tens de controlar a temperatura. Retira do lume agora e bate com força para tentar emulsionar," instruí, mantendo a minha voz calma e profissional, apesar das câmaras apontadas a nós.
Cecilia olhou para a tigela, o seu rosto pálido. Em vez de seguir a minha instrução, os seus lábios tremeram e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
"Eu... eu estraguei tudo," gaguejou ela, antes de largar o batedor de arames com um estrondo e fugir do estúdio a chorar.
O apresentador ficou sem palavras. O público murmurava. Eu fiquei paralisada, com uma tigela de massa de choux a meio de ser batida na minha mão.
"Cecilia!"
Leonel, o meu noivo e parceiro de equipa, gritou o nome dela. Ele olhou para mim, os seus olhos a arder de fúria.
"Viste o que fizeste? Humilhaste-a em frente de todo o país!"
"Eu só a estava a corrigir, Leonel. É um concurso," respondi, incrédula.
Ele não me ouviu. Atirou o seu avental para a bancada com um gesto violento. "Esquece o concurso."
E com isso, ele virou-me as costas e correu para fora do estúdio atrás de Cecilia, deixando-me sozinha, sob as luzes ofuscantes e o silêncio chocado de milhões de espectadores. A desqualificação foi imediata. A humilhação, pública e esmagadora.
Senti uma dor aguda no peito, uma mistura de raiva e desespero. Ele tinha-me abandonado. Por ela.
Quando finalmente cheguei ao apartamento que partilhávamos, a minha mão ainda tremia ao inserir a chave. Esperava encontrá-lo vazio, talvez com uma desculpa esfarrapada à minha espera.
Em vez disso, encontrei Leonel na cozinha. E ele não estava sozinho.
Cecilia estava sentada à nossa mesa de jantar, o seu rosto ainda manchado de lágrimas. Leonel estava a colocar um prato à sua frente. Não era um prato qualquer. Era o seu famoso "Lagostim em Cama de Citrinos", o prato que lhe valeu a sua primeira estrela Michelin.
O prato que ele sempre me disse ser "nosso". O prato que ele cozinhou para mim no nosso primeiro aniversário.
"O apartamento da Cecilia teve uma inundação," disse Leonel, sem sequer olhar para mim. "Ela vai ficar aqui por uns dias."
Eu não disse nada. Apenas olhei para a cena, para a intimidade forçada no meu próprio espaço. Senti-me uma estranha na minha própria casa.
A dor no meu peito intensificou-se, espalhando-se por todo o meu corpo como um veneno lento. Fui para o nosso quarto e fechei a porta, o som do riso baixo de Cecilia e da voz reconfortante de Leonel a ecoar pelo corredor.
Caí na cama, o corpo a doer de uma exaustão que era mais emocional do que física. Senti o meu corpo a ficar frio, um calafrio a percorrer-me apesar do calor da noite.
Horas mais tarde, acordei com sede. Arrastei-me para fora da cama, o corpo pesado e dorido. A porta do quarto estava entreaberta, e eu conseguia ouvir as suas vozes vindas da sala de estar.
"Leonel, sinto muito por hoje. Eu estraguei a vossa oportunidade," disse a voz chorosa de Cecilia.
"Não penses nisso," respondeu Leonel, a sua voz anormalmente suave. "Não foi culpa tua. A Fiona pode ser muito exigente. Ela não devia ter-te pressionado daquela maneira."
Fiquei paralisada, a minha mão no puxador da porta. Ele estava a culpar-me.
"És tão bom para mim," disse Cecilia. "Sinto que te devo tudo."
Houve um momento de silêncio. Depois, a voz de Leonel, mais baixa, carregada de uma emoção que fez o meu estômago revirar.
"Cecilia... eu amo-te. Amo-te loucamente. Se eu te tivesse conhecido mais cedo... se a vida fosse diferente..."
O mundo parou. O ar ficou preso nos meus pulmões. Cada palavra era uma facada no meu coração já ferido. Ele amava-a. E arrependia-se de me ter conhecido.
A dor tornou-se física. Uma pontada aguda no meu abdómen fez-me dobrar. Apoiei-me na parede, a respirar com dificuldade, a tentar não fazer barulho.
"Oh, Leonel..." a voz de Cecilia era um sussurro sedutor.
Não consegui ouvir mais. Voltei para o quarto, tropeçando na escuridão, e caí na cama. O meu corpo tremia incontrolavelmente. A dor no meu abdómen era agora uma agonia constante.
A febre começou a subir, e a minha consciência começou a desvanecer-se. A última coisa que pensei antes de a escuridão me engolir foi na ironia de tudo. Ele pensava que Cecilia era a sua ligação à sua misteriosa benfeitora, a sobrinha do administrador da "Quinta do Douro".
A verdade era que a benfeitora era eu. A herdeira anónima. E ele tinha acabado de declarar o seu amor a uma impostora, destruindo-nos no processo.
Na manhã seguinte, a febre tinha baixado, mas deixou-me fraca e vazia. Arrastei-me para fora do quarto.
Leonel e Cecilia estavam na cozinha, a tomar o pequeno-almoço. Ele tinha feito ovos para ela, com um pequeno coração desenhado com ketchup no topo. Um gesto que ele costumava fazer para mim.
Ele olhou para mim, a sua expressão fria. "Estás melhor?"
Não havia preocupação na sua voz. Apenas uma formalidade vazia.
Cecilia sorriu-me, um sorriso de vitória mal disfarçado. "Fiona, espero que não te importes. O Leonel insistiu em cuidar de mim."
Olhei para eles, para o coração de ketchup, para a intimidade deles na minha cozinha. E senti nojo. Nojo dele, dela, de mim mesma por ter amado este homem.
Voltei para o quarto sem dizer uma palavra. Abri o meu armário e comecei a tirar as minhas roupas, as minhas coisas, os vestígios dos dois anos que passámos juntos. Peguei numa fotografia nossa, sorrindo felizes numa viagem a Paris, e rasguei-a ao meio. Depois em quatro. Depois em mil pedaços.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Leonel.
"A Cecilia não se está a sentir bem. Tenho de a levar ao médico. Não vou conseguir ir contigo ver o local para a nossa pastelaria hoje. Remarcamos."
Ri-me. Uma risada seca e sem alegria. Claro que não ia. A sua prioridade estava clara.
Peguei no telemóvel e liguei ao meu advogado.
"Dr. Almeida," disse eu, a minha voz firme e decidida. "Quero iniciar os procedimentos para a dissolução da minha união de facto com Leonel Acosta. O mais rápido possível."
O amor podia ter morrido na noite anterior, mas a minha dignidade não. Ele podia ter escolhido a impostora, mas eu ia escolher-me a mim mesma.
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