
Do Avental Manhado à Coroa: A Ascensão de Fiona
Capítulo 3
No dia seguinte, a presença de Cecilia no nosso apartamento tornou-se ainda mais invasiva. Ela tratava o espaço como se fosse seu, deixando as suas coisas espalhadas pela sala, usando a minha caneca de café preferida.
Leonel via, mas não dizia nada. Parecia desconfortável, mas a sua lealdade estava claramente com ela.
"Leonel, posso usar o teu escritório para fazer umas chamadas? O sinal no quarto de hóspedes é péssimo," pediu Cecilia, com uma voz doce e inocente.
O escritório era o meu santuário. Era onde eu criava as minhas receitas, onde os meus livros de pastelaria estavam alinhados nas prateleiras.
"Cecilia, talvez seja melhor usares a sala de estar. A Fiona precisa do escritório para trabalhar," disse Leonel, finalmente mostrando um pingo de consideração.
"Oh, mas eu não quero incomodar. Prometo ser rápida," ela insistiu, fazendo beicinho.
Eu, que estava a passar pelo corredor, parei. "Usa o escritório, Cecilia. Eu não me importo."
A minha voz soou indiferente, o que era verdade. Aquele espaço já não me pertencia, não da mesma forma. Leonel olhou para mim, surpreendido e talvez um pouco frustrado pela minha falta de reação. Eu simplesmente encolhi os ombros e continuei a andar.
Mais tarde, Cecilia estava a "ajudar" Leonel na cozinha. Ela tentava cortar legumes, mas era desajeitada, quase se cortando várias vezes.
"Deixa, eu faço isso," disse Leonel, tirando-lhe a faca da mão com um suspiro.
"Desculpa, sou tão inútil," disse ela, os olhos a encherem-se de lágrimas novamente. "Eu só queria ajudar-te."
"Não és inútil. És apenas... delicada," disse ele, a sua voz a suavizar. Ele cedia sempre à sua chantagem emocional.
Eu estava sentada no sofá, a ler um livro, ou a fingir que lia. A cena era patética. Ele, o grande chef, reduzido a um tolo por uma estagiária manipuladora.
Naquela noite, não consegui dormir. A febre tinha voltado, mais baixa, mas persistente. Fui à cozinha buscar um copo de água. A porta do quarto de hóspedes, onde Cecilia estava, estava fechada, mas a da sala não.
Leonel estava lá, sentado no escuro, a olhar pela janela. Eu ia recuar, mas ele falou.
"Não consigo dormir," disse ele, sem se virar.
"Eu também não," respondi, a minha voz um sussurro rouco.
Ficámos em silêncio por um momento. Depois, ele disse as palavras que selaram o seu destino.
"Eu penso nela constantemente. Na Cecilia. Sinto que a minha vida só começou quando a conheci. Tudo antes parece... um erro."
O meu coração, que eu pensava já não poder partir-se mais, estilhaçou-se. A dor era tão intensa que me cortou a respiração. Um erro. Os nossos dois anos, o nosso amor, os nossos planos... um erro.
Agarrei-me à ombreira da porta para não cair. Ele nem sequer se virou. Não viu a minha dor. Estava demasiado perdido no seu novo amor.
Voltei para a cama, o corpo a arder. A febre consumia-me, mas a dor no meu coração era pior. Era um frio que queimava, um vazio que me sufocava. Naquela noite, na escuridão do meu quarto, enquanto ouvia o som ocasional da sua voz a falar suavemente com Cecilia ao telefone, eu soube que o amor que sentia por Leonel tinha morrido. Não com um estrondo, mas com o silêncio da sua indiferença.
Na manhã seguinte, senti-me oca. A febre tinha desaparecido, levando com ela os últimos vestígios de sentimento que eu tinha por ele.
Encontrei-os novamente na cozinha. Desta vez, estavam a rir-se de algo que ele disse. Cecilia olhou para mim por cima da sua chávena de café, o seu sorriso triunfante. Ela tinha vencido. E ela sabia disso.
Leonel ignorou-me completamente, continuando a sua conversa com ela.
Não senti nada. Nem raiva, nem tristeza. Apenas um vazio gelado.
Comecei a limpar o apartamento. Não as minhas coisas, mas as dele. Juntei as suas roupas, os seus livros, os seus prémios. Coloquei tudo em caixas. Estava a purificar o meu espaço, a prepará-lo para a sua partida.
Ele só reparou quando chegou a casa à noite e viu as caixas empilhadas na sala.
"O que é isto?" perguntou ele, confuso.
"As tuas coisas," respondi calmamente. "Acho que é mais fácil se já estiver tudo empacotado."
Ele olhou para mim, finalmente percebendo. "Fiona, estás a falar a sério sobre o divórcio?"
"Dissolução de união de facto," corrigi. "E sim, nunca falei tão a sério na minha vida."
O meu telemóvel vibrou. Era uma notificação do calendário. "Gala Anual de Vindimas - Quinta do Douro". O evento onde, todos os anos, eu ia como convidada anónima da minha própria família.
Leonel também recebeu a notificação. Vi o seu rosto iluminar-se.
"A gala da Quinta! A Cecilia disse que a família dela me ia arranjar um convite este ano. Finalmente vou conhecer a minha benfeitora!"
Ele olhou para mim, quase com pena. "Desculpa, Fiona. Só consegui um convite. É para a Cecilia, claro. Ela é a representante da família."
A ironia era tão espessa que eu podia cortá-la com uma faca.
"Não te preocupes," disse eu, com um pequeno sorriso. "Eu arranjo a minha própria maneira de entrar."
Ele não entendeu o meu tom. Estava demasiado cego pela sua ambição e pelo seu novo amor para ver a verdade que estava mesmo à sua frente. Mas em breve, todos veriam.
Você pode gostar





