
Divórcio e Recomeço: A Virada de Lucas
Capítulo 2
A celebração pelo projeto milionário do "Residencial Vistas do Atlântico" enchia o salão de festas mais caro da cidade, mas para Lucas Silva, o arquiteto por trás de cada linha do projeto, o ar parecia rarefeito. Ele se sentia um estranho na própria festa de comemoração.
Sua esposa, Patrícia Costa, a dona da empresa de design de interiores que ele ajudou a construir do zero, estava no palco, radiante sob os holofotes. Lucas a observava da mesa, o copo de uísque intocado em sua mão. Ele esperava por este momento há meses, o momento em que seu esforço, suas noites em claro e sua genialidade seriam finalmente reconhecidos publicamente.
"Este projeto foi um divisor de águas para a Costa Design," a voz de Patrícia soou pelos alto-falantes, cheia de confiança, "e nada disso seria possível sem a visão e a dedicação incansável do meu novo assistente, Marcelo Fernandes!"
O nome ecoou no salão, e um jovem charmoso, de terno bem cortado e sorriso fácil, subiu ao palco ao lado de Patrícia, que o abraçou calorosamente.
Lucas sentiu o sangue gelar.
Marcelo? O assistente que havia chegado há menos de seis meses e cuja maior contribuição foi buscar café e concordar com tudo que Patrícia dizia?
O salão irrompeu em aplausos. Lucas permaneceu sentado, paralisado. Ele fechou os olhos por um segundo, tentando processar a humilhação pública. Ele não apenas liderou a equipe, ele fechou o contrato com o cliente, um investidor notoriamente difícil, após inúmeras reuniões e revisões que Marcelo nem sequer participou.
Mais tarde, quando a festa começou a esvaziar, um envelope foi discretamente entregue a Lucas pelo financeiro. Dentro, um cheque de cinco mil reais. Um bônus. Pelo projeto de cinquenta milhões que ele garantiu para a empresa. Era menos do que o salário de um estagiário.
A raiva começou a queimar em seu peito, uma chama lenta e dolorosa. Ele viu, do outro lado do salão, Patrícia entregando uma pequena caixa de veludo a Marcelo. Ele a abriu, e mesmo à distância, Lucas pôde ver o brilho de um relógio caríssimo. Depois, ela lhe entregou as chaves de um carro esportivo novo, estacionado na entrada como um troféu. Presentes que somavam, no mínimo, um milhão de reais.
Ele se levantou e caminhou até ela, a mandíbula travada.
"Patrícia, podemos conversar?"
Ela se virou, o sorriso desaparecendo ao ver a expressão dele. Marcelo ficou ao lado dela, um ar de superioridade no rosto.
"Agora não, Lucas. Estou ocupada."
"Cinco mil reais, Patrícia? É isso que o meu trabalho vale para você?" ele disse em voz baixa, mas firme, mostrando o cheque.
Patrícia olhou para o papel com desdém.
"Seja grato por ter recebido alguma coisa, Lucas. A empresa não está nadando em dinheiro, tivemos muitos custos."
"Custos como um carro e um relógio de luxo para o seu 'assistente'?" a voz dele era cortante como vidro.
O rosto de Patrícia se contraiu em irritação.
"Marcelo merece. Ele trouxe uma nova energia para a empresa, uma visão moderna. Você está muito acomodado, Lucas. Além disso, ele é jovem e precisa de incentivo."
Ela falou como se estivesse explicando algo óbvio a uma criança. A humilhação era agora completa, um nó apertado em sua garganta. Ele era o pilar daquela empresa, e ela o tratava como um móvel velho.
Naquela noite, em casa, o silêncio era pesado. Lucas estava na sala, a mala de viagem aberta no chão, quando ouviu o som de notificação do celular de Patrícia. Ele estava sobre a mesa de centro. Por um impulso que ele não conseguiu controlar, ele o pegou.
A tela de bloqueio mostrava uma nova postagem no Instagram de Marcelo. Uma foto dele e de Patrícia, abraçados, sorrindo. A legenda era a gota d'água: "Com a mulher que me inspira e me dá o mundo. O sucesso é só o começo quando se tem a parceira certa. Te amo, minha chefe."
O "Te amo" brilhava na tela. Vários colegas de trabalho e clientes já haviam curtido a postagem. O mundo inteiro estava assistindo ao seu circo particular.
Ele ouviu os passos dela descendo a escada.
"O que você está fazendo com o meu celular?" a voz dela era afiada.
Lucas virou o aparelho para ela, a tela ainda acesa.
"O que é isso, Patrícia?"
Ela olhou para a foto, sem um pingo de vergonha ou culpa.
"Qual o problema? É só uma postagem de agradecimento. Você está sendo paranoico."
"Paranoico? A legenda diz 'Te amo'. Ele te chama de 'minha chefe' e 'parceira'. Você dá a ele o crédito pelo meu trabalho, dá presentes de milhões enquanto me joga uma esmola, e eu sou o paranoico?"
"Você está exagerando, como sempre!" ela retrucou, cruzando os braços. "Marcelo é grato, é diferente de você, que vive reclamando. Talvez se você fosse mais como ele, as coisas seriam diferentes."
A frieza dela era inacreditável. Ela não estava apenas o traindo profissionalmente, mas pessoalmente, e ainda o culpava por sua reação.
Lucas respirou fundo, uma clareza gelada tomando conta dele. Ele olhou para a mala no chão e depois para ela.
"Acabou, Patrícia."
A voz dele era calma, desprovida de emoção.
"O quê?"
"Eu quero o divórcio."
A expressão de Patrícia mudou instantaneamente. A arrogância deu lugar ao choque, e depois à fúria.
"Você não pode fazer isso! Divórcio? Depois de tudo que eu fiz por você? Essa empresa, esta casa, tudo isso foi por minha causa!"
"Sua causa?" Lucas riu, um som amargo e sem alegria. "Eu construí a reputação técnica da Costa Design. Eu trouxe os maiores clientes. Eu liderei cada projeto importante enquanto você cuidava da sua imagem. Você não construiu nada sem mim."
"Você é um ingrato!" ela gritou, o rosto vermelho. "Você não vai a lugar nenhum! Nós construímos isso juntos, você não pode simplesmente sair!"
Era uma tentativa de controle, de moralismo barato. Mas para Lucas, a corda já havia arrebentado.
Ele não respondeu. Apenas se virou e começou a colocar suas roupas na mala, cada movimento deliberado e final.
No dia seguinte, no escritório, a atmosfera era pesada. Os membros da equipe de Lucas, os arquitetos e designers que trabalharam com ele no projeto, vieram até sua sala um por um.
"Lucas, nós vimos a premiação... e o bônus," disse Ana, a arquiteta sênior. "Isso é um absurdo. Todos nós sabemos quem fez o trabalho."
"Aquele Marcelo não sabe nem usar o AutoCAD direito," acrescentou Pedro, o designer 3D. "Ele passou o tempo todo flertando com a Patrícia. É nojento."
A solidariedade deles era um pequeno bálsamo na ferida aberta de Lucas. Eles eram a prova de que ele não estava louco. Eles sabiam a verdade.
"Obrigado, pessoal. Eu aprecio isso," ele disse, a voz rouca.
Ele sabia que sua decisão de sair não seria apenas sobre ele. Envolvia a equipe que confiava nele. E ele não os deixaria para trás. A guerra estava apenas começando.
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