
Divórcio e Recomeço: A Virada de Lucas
Capítulo 3
A vingança de Patrícia não demorou a chegar, e foi tão mesquinha quanto Lucas esperava. Na manhã seguinte, um e-mail do departamento de RH foi disparado para toda a equipe de design. O assunto era "Revisão de Bônus do Projeto Vistas do Atlântico".
Com o coração na mão, os membros da equipe de Lucas abriram o anexo. A tabela de bônus havia sido brutalmente cortada. O valor original, que já não era generoso, foi reduzido a menos da metade para cada um deles. Ao lado de cada corte, uma justificativa absurda: "Atraso na entrega de rascunhos preliminares", "Uso excessivo de recursos de impressão", "Horas extras não aprovadas previamente".
Eram mentiras descaradas. A equipe havia trabalhado fins de semana e feriados para cumprir os prazos, muitas vezes usando seus próprios computadores para não sobrecarregar a rede da empresa.
Ana, a arquiteta sênior, foi a primeira a entrar na sala de Lucas, o rosto pálido de raiva.
"Ela cortou setenta por cento do meu bônus, Lucas. Setenta por cento! A justificativa é que eu 'questionei a autoridade da gestão'. Isso foi porque eu disse ao Marcelo que a sugestão dele de usar mármore Carrara na área da piscina era estúpida e perigosa!"
Logo, a sala de Lucas estava cheia. Todos estavam furiosos.
"Eu praticamente paguei para trabalhar neste projeto," disse Pedro, jogando o celular na mesa de Lucas. "Com os cortes, meu bônus não cobre nem a gasolina que gastei vindo para o escritório nos fins de semana."
"A gente tem que sair daqui, Lucas," disse uma jovem designer, com lágrimas nos olhos. "Isso não é mais um trabalho, é uma humilhação. Nós vamos com você para onde você for."
"Sim, vamos todos," ecoou o resto da equipe. A lealdade deles era a única coisa que mantinha Lucas de pé. Ele olhou para os rostos indignados e determinados à sua frente e soube que não podia falhar com eles.
"Ok," ele disse, sua voz firme enchendo a sala. "Ninguém vai ficar para trás. Me deem um dia."
Ele não perdeu tempo. Assim que a equipe voltou para suas mesas, ele pegou o telefone. Havia um nome em sua mente, uma carta na manga que ele nunca pensou que usaria: Sofia Almeida.
Sofia era a dona da Almeida Arquitetura, a principal concorrente da Costa Design. Ela e Patrícia eram rivais ferrenhas, duas leoas lutando pelo mesmo território. Mas Lucas sempre respeitou Sofia. Ela era dura, mas justa, uma arquiteta brilhante que entendia o valor do talento. Eles haviam se cruzado em eventos do setor algumas vezes, e a conversa sempre fora profissional e respeitosa.
Ele encontrou o número dela e ligou, o coração batendo um pouco mais rápido.
Ela atendeu no segundo toque.
"Sofia Almeida."
"Sofia, aqui é Lucas Silva, da Costa Design."
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Lucas Silva," ela disse, e o tom dela era de surpresa e interesse. "Eu estava me perguntando quando você ia ligar. Eu vi a cerimônia de premiação. Um trabalho brilhante. Ouvi dizer que seu 'assistente' é um prodígio."
O sarcasmo era sutil, mas inconfundível. Lucas sentiu um alívio imediato. Ela sabia.
"É sobre isso que eu gostaria de conversar," disse Lucas. "Estou deixando a Costa Design."
"Eu imaginei," respondeu Sofia, sem rodeios. "O que você tem em mente?"
"Eu tenho uma equipe," Lucas disse, indo direto ao ponto. "Vinte dos melhores arquitetos e designers da cidade. A equipe que realmente projetou o Vistas do Atlântico. Eles estão sendo punidos pela lealdade a mim, e eu não vou deixá-los na mão. Se você me quiser, terá que levar todos eles."
Ele prendeu a respiração. Era um pedido audacioso. Contratar uma equipe inteira de uma vez era um risco financeiro e logístico enorme.
Sofia ficou em silêncio por um momento. Lucas podia quase ouvi-la pensando, calculando.
"Vinte pessoas," ela repetiu. "Essa é praticamente toda a sua divisão de projetos de elite, não é?"
"É," confirmou Lucas.
"Eles são leais a você?"
"Totalmente."
Outra pausa. Então, a voz de Sofia voltou, decisiva e clara.
"Mande-me os portfólios e os currículos de todos. Quero vê-los na minha sala amanhã de manhã. Todos os vinte. E Lucas..."
"Sim?"
"Não se preocupe com o salário. Eu sei o valor do talento. Eu vou cobrir qualquer oferta que Patrícia tenha feito e vou garantir que eles recebam o bônus que merecem pelo seu último projeto. Considere isso um 'bônus de contratação' por me trazerem o coração da empresa da minha maior rival."
Lucas sentiu uma onda de euforia e alívio tão forte que precisou se sentar.
"Sofia, eu não sei o que dizer."
"Não diga nada ainda," ela disse, com um toque de humor na voz. "Apenas venha amanhã e me mostre que vocês valem o investimento. Estou ansiosa para ver o que podemos construir juntos."
Ele desligou o telefone e respirou fundo, o primeiro sopro de ar verdadeiramente fresco em meses. A esperança era uma sensação poderosa. Ele se levantou e foi até a área de trabalho da equipe.
"Reunião rápida," ele chamou.
Todos se viraram, os rostos expectantes.
"Preparem seus portfólios," ele disse, um sorriso se formando em seu rosto pela primeira vez em dias. "Temos uma entrevista de emprego amanhã de manhã. Todos nós."
Um murmúrio de excitação percorreu a sala. A indignação deu lugar a uma energia nova e vibrante. Eles finalmente tinham um caminho, uma saída. Juntos.
Enquanto a equipe freneticamente atualizava seus currículos e montava seus melhores trabalhos, Lucas sentia o peso da responsabilidade, mas também uma imensa sensação de poder. Ele não era mais uma vítima. Ele era um líder levando suas tropas para uma nova batalha, uma que ele estava determinado a vencer.
Patrícia, em sua arrogância, havia subestimado não apenas ele, mas a força da lealdade e do respeito profissional. Ela achava que tinha arrancado o coração da operação ao promover seu amante. Mal sabia ela que o verdadeiro coração da empresa estava prestes a sair pela porta da frente, deixando para trás apenas uma carcaça vazia.
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