
Divórcio à Força: O Despertar de Uma Mulher
Capítulo 2
Quando recebi a notícia da morte do meu irmão, estava na cozinha a preparar uma sopa para a minha cunhada, Sofia.
O telefone tocou. Era um número desconhecido.
Atendi.
A voz do outro lado era calma e profissional.
"É a senhora Ana Costa? Sou o inspetor Mendes."
"Sim, sou eu."
"Lamentamos informar, mas o seu irmão, Pedro Costa, faleceu num acidente de trabalho esta manhã. Precisamos que venha ao hospital para identificar o corpo."
A minha mão tremeu, e o telefone quase caiu.
O inspetor continuou a falar, mas eu já não ouvia.
Olhei para a panela no fogão. A sopa de galinha fervia, libertando um aroma reconfortante. Era a preferida do meu irmão.
Sofia estava grávida de oito meses. O meu irmão trabalhava horas extra para comprar um berço melhor.
Desliguei a chamada sem dizer mais nada.
Sentei-me à mesa da cozinha. O silêncio da casa era pesado.
Respirei fundo e liguei ao meu marido, João.
O telefone chamou uma, duas, três vezes.
Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava irritada.
"Ana? Estou ocupado. O que foi?"
"O Pedro... morreu."
Houve um silêncio do outro lado. Não um silêncio de choque, mas um silêncio vazio.
"Ok. E?"
A sua resposta foi tão fria que me deixou sem palavras.
"E? João, o meu irmão morreu!"
"E o que queres que eu faça? Eu estou no meio de uma reunião importante. O chefe da Sofia está aqui, a discutir a licença de maternidade dela. Isto é crucial para o futuro deles."
A voz de Sofia soou ao fundo, suave e agradecida.
"João, muito obrigada por estares aqui. Não sei o que faria sem o teu apoio. O senhor Martins é tão compreensivo."
O senhor Martins. O chefe dela.
O meu marido estava a ajudar a minha cunhada a negociar a licença de maternidade dela, enquanto o meu irmão, o marido dela, estava morto numa morgue.
Senti um nó na garganta.
"João, preciso de ti. Tenho de ir ao hospital."
"Pede um táxi. Eu não posso sair agora. A Sofia precisa de mim. Ela está grávida e acaba de perder o marido. Imagina o estado dela. Tens de ser forte por ela."
Ele estava a pedir-me para ser forte.
Ele, que deveria ser o meu apoio.
"Vamos divorciar-nos, João."
A frase saiu sem pensar. Mas no momento em que a disse, soube que era a única coisa certa a fazer.
A sua raiva explodiu do outro lado da linha.
"Divórcio? Estás a brincar? O teu irmão acaba de morrer e estás a pensar em divórcio? Que tipo de pessoa és tu? Não tens compaixão? A tua cunhada está devastada e grávida!"
"E eu? E o meu luto?"
"O teu luto pode esperar! A prioridade é a Sofia e o bebé. És a tia, comporta-te como tal! Para de ser egoísta!"
Ele desligou o telefone.
Fiquei a olhar para o ecrã escuro.
Tentei ligar de volta. Caixa de correio. Ele tinha-me bloqueado.
Claro que tinha.
A prioridade era a Sofia. Sempre foi a Sofia.
Desde que o meu irmão a conheceu, a Sofia tornou-se o centro do universo da nossa família. E o João, o meu marido, tornou-se o seu maior defensor.
"Ela é tão frágil", dizia ele. "Ela não teve uma vida fácil."
E eu? A minha vida tinha sido fácil?
Cresci a cuidar do meu irmão mais novo, o Pedro. Os nossos pais morreram quando eu tinha vinte anos. Fui eu que o criei. Fui eu que me certifiquei de que ele ia para a universidade.
E agora, ele estava morto. E eu estava sozinha.
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