
Divórcio à Força: O Despertar de Uma Mulher
Capítulo 3
Levantei-me e desliguei o fogão. A sopa já não me parecia apetitosa. Parecia uma piada cruel.
Vesti um casaco e saí de casa.
O ar frio da rua atingiu-me o rosto.
Chamei um táxi. O motorista era um homem idoso com um olhar cansado.
"Para o Hospital de São José, por favor."
Ele assentiu e não disse mais nada. Agradeci-lhe mentalmente pelo silêncio.
Durante o trajeto, olhei pela janela. A cidade movia-se, as pessoas viviam as suas vidas. Ninguém sabia que o meu mundo tinha acabado de ruir.
Pensei no João.
Ele não estava numa reunião com o chefe da Sofia. Ele estava com a Sofia. Sozinho.
A desculpa da "reunião" era tão fraca. Porque é que o marido da tia precisaria de estar presente para negociar a licença de maternidade da sobrinha? Não fazia sentido.
Mas eu tinha ignorado. Tinha ignorado tantas coisas.
As chamadas tardias. As "horas extra" que ele fazia, mas que nunca se refletiam no nosso extrato bancário. A maneira como os olhos dele brilhavam quando a Sofia entrava numa sala.
Eu tinha escolhido não ver. Porque amava o meu irmão. E o meu irmão amava a Sofia. Não queria causar problemas. Não queria destruir a felicidade dele.
Agora, a felicidade dele já não importava. Ele estava morto.
E a única coisa que me restava era a verdade. Uma verdade feia e dolorosa.
O meu marido não me amava. Talvez nunca me tivesse amado.
Cheguei ao hospital. A morgue ficava na cave. Um lugar frio e estéril.
O inspetor Mendes estava à minha espera. Ele era mais jovem do que eu esperava. Tinha um ar solene.
"Senhora Costa. As minhas condolências."
Eu apenas assenti.
"Ele está aqui."
Ele levou-me a uma sala com uma única maca de metal no centro, coberta por um lençol branco.
O meu coração batia tão forte que parecia que ia sair do peito.
O inspetor levantou o lençol.
Era o Pedro.
O seu rosto estava pálido e imóvel. Havia um pequeno corte na sua testa. Parecia que estava apenas a dormir. O meu irmãozinho, a dormir.
Toquei na sua mão. Estava gelada.
A realidade atingiu-me com a força de um muro.
Ele não estava a dormir. Ele tinha-se ido para sempre.
As lágrimas que eu tinha segurado finalmente caíram. Chorei em silêncio, o meu corpo tremia.
O inspetor deu-me espaço. Quando finalmente me acalmei, ele falou.
"O acidente aconteceu numa obra. Um andaime cedeu. Ele não sofreu."
Não sofreu. Era um pequeno consolo.
"A esposa dele já foi notificada?"
"Tentámos ligar, mas ela não atendeu."
Claro que não. Ela estava "ocupada" com o meu marido.
"Eu trato disso", disse eu, com a voz rouca.
Assinei os papéis necessários. O mundo parecia mover-se em câmara lenta.
Quando saí da morgue, o meu telemóvel tocou.
Era um número desconhecido. Atendi.
"Ana? Sou eu, Sofia."
A sua voz estava embargada, mas havia algo de estranho nela.
"Onde estás? Aconteceu uma coisa terrível. O Pedro..."
"Eu sei, Sofia. Eu já estou no hospital. Acabei de identificar o corpo."
Houve uma pausa.
"Tu... já? Como soubeste?"
"A polícia ligou-me."
"Oh. Claro. O João está comigo. Ele tem sido um anjo. Assim que soubemos, ele veio a correr para me ajudar."
Assim que souberam. Não quando a polícia ligou. Mas quando o João lhe contou.
"Isso é bom", disse eu, com a voz vazia de emoção.
"Estamos a ir para aí agora. Espera por nós."
Ela desligou.
Esperei no corredor frio do hospital. Cada minuto parecia uma hora.
Finalmente, vi-os.
João e Sofia.
Ele tinha o braço à volta dos ombros dela, segurando-a com força. A barriga proeminente dela estava pressionada contra ele.
Pareciam um casal.
Um casal a sofrer a perda de um ente querido.
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