
Dilan irmãos Creed livro 2
Capítulo 2
Logo de manhã cedinho, após passar meia hora tentando enfiar colheradas do mingau, trazido pelo serviço de quarto, na boquinha firmemente cerrada de Bonnie e, por fim, desistir, Dylan deixou o hotel e foi procurar um Wal-Mart.
Bonnie precisava de uma cadeirinha de carro e um monte de outras coisas.
De modo que ele a colocou no carrinho de compras, e os dois começaram a passear. Dylan calculou o tamanho das roupas dela e Bonnie fez um escarcéu quando o pai tentou experimentar alguns sapatos nela, mas, após uma breve luta, ele venceu. No departamento de brinquedos, ele pegou uma boneca quase tão grande quanto a própria Bonnie, além de tudo, montada em um cavalo de plástico, mas nem nisso ela pareceu demonstrar muito interesse.
— Brinquedos — disse sagazmente uma mulher mais velha, inclinando-se para sussurrar a sua sabedoria — precisam ser de acordo com a idade.
Dylan empurrou para trás a aba do chapéu.
— De acordo com a idade?
A mulher apontou para a caixa contendo a boneca nova sentada sobre o cavalo.
— Isto é para crianças com mais de 5 anos. A sua garotinha não deve ter mais de 2.
— Ela é pequena para a idade — Dylan retrucou automaticamente, pois não gostava de que os outros lhe dissessem o que fazer, mesmo quando tinham razão.
Contudo, assim que a velhinha intrometida dobrou a esquina, ele devolveu a boneca à prateleira e pegou um unicórnio rosa macio com um chifre reluzente e uma crina felpuda. De acordo com a etiqueta, aquele serviria.
E Bonnie, na mesma hora, se encantou.
Após fazer mais algumas escolhas e pagar no balcão, estavam prontos para ir. Dylan fez algumas ligações de sua caminhonete e localizou uma pediatra nos arredores da cidade.
Jessica Welch, doutora em medicina, trabalhava em um centro comercial de luxo. Ela também era bonita, com seus cabelos, castanhos compridos e reluzentes, presos por uma presilha de prata na nuca. Não que fizesse diferença, porém, sempre que Dylan conhecia uma mulher, qualquer mulher, ele notava algumas coisas nela.
— O que temos aqui? — a dra. Jessica Welch perguntou, cutucando Bonnie, que estava com os braços apertados ao redor do pescoço de Dylan.
Bonnie jogou a cabeça para trás e soltou um daqueles gritos estridentes que pareciam atravessar o cérebro de um homem como um furador de gelo. Desde que Dylan chegara com ela na sala de espera, quase 45 minutos atrás, ela estava agarrada a ele. Dylan havia sido o único pai presente, e os olhares que recebera das várias mães aguardando com crianças mais silenciosas e bem-comportadas não eram do tipo que estava acostumado a receber das representantes do sexo frágil.
A dra. Welch não se deixou perturbar. É claro que crianças gritando não eram algo incomum no seu dia a dia.
— Por aqui — disse.
Dylan e Bonnie a seguiram por um pequeno corredor até chegar a pequena sala de exames. Bonnie não parou de gritar, e acrescentou chutes e contorções ao chilique. As hostilidades estavam escalonando.
— Acho que ela está pensando que vai receber uma vacina ou coisa parecida — sugeriu Dylan, sem saber o que dizer.
Àquela altura, Bonnie já havia lhe derrubado o chapéu e estava puxando o cabelo dele com ambas as mãos. A dra. Welch simplesmente sorriu.
— Vamos dar uma olhadinha em você, srta...?
— Bonnie — disse Dylan. — Bonnie Creed. Bonnie Creed. Gostava do som disso. A doutora examinou os papéis na sua prancheta.
— E você é o pai — disse.
Era retórico, uma conclusão e não uma pergunta, mas Dylan se sentiu na obrigação de responder.
— Sou.
— A semelhança já diz tudo — disse a doutora.
Ela logo mostrou que tinha alguns truques na manga. Ao deixar que Bonnie escutasse o coração de Dylan através do estetoscópio, ela conseguiu que a menina ficasse quieta.
— Algum problema de saúde significativo? — perguntou a doutora, encerrando o exame de rotina, coisas como olhar para dentro da orelha de Bonnie com uma lanterninha e espiar a garganta da menina.
— Não que eu saiba — disse Dylan. — Ela estava... hã... morando com a mãe.
— Entendo — retrucou solenemente a dra. Welch.
— Estava torcendo para que pudesse me dizer o que dar de comer para ela e coisas do gênero — prosseguiu Dylan.
Ele sentiu as orelhas ardendo. Àquela altura, a médica provavelmente estaria se perguntando se não deveria notificar as autoridades, ou coisa parecida.
— Suponho que não tenha passado muito tempo com Bonnie — ela disse, pensativamente.
— Foi meio repentino. Sharlene decidiu que não podia mais cuidar dela e a deixou comigo.
Ele provavelmente devia soar e parecer calmo, mas se a dra. Welch pegasse o celular, ele e Bonnie sairiam dali em disparada e correriam para fora da cidade. Droga. Ele devia ter ligado para Logan. Pelo menos, então, teria alguma espécie de orientação legal...
— Precisarei de um número onde poderei entrar em contato com o senhor, sr. Creed.
Dylan lhe deu o número do celular e pegou Bonnie no colo, que estava na beirada da mesa de exames com os braços estendidos. Com um súbito sorriso, a dra. Welch prosseguiu:
— Crianças de 2 anos de idade costumam preferir uma dieta pastosa, um pouquinho de comida de bebê, mas não do tipo para crianças mais velhas. Qualquer coisa que seja fácil de mastigar.
— Nada de mamadeiras e coisa parecida? — perguntou Dylan.
— Um daqueles copinhos com o bico na tampa — a médica disse. — Bonnie precisa de muito leite, e suco também é bom, desde que tome cuidado com a quantidade de açúcar.
Dylan supôs que deveria estar tomando nota. Que diabos de copinho era esse com bico na tampa? E será que quase tudo já não vinha com açúcar?
Já tendo feito bastante papel de bobo, ele preferiu guardar para si as perguntas. Se a médica não achasse que ele era um seqüestrador de crianças seria um milagre.
A dra. Welch aplicou algumas vacinas em Bonnie, que a menina mal notou, fez uma lista de comidas saudáveis para crianças e se despediu. Dylan pagou a conta e ele e Bonnie foram embora. Até estarem 80 quilômetros ao norte de Vegas, ele não parou de procurar uma radiopatrulha no espelho retrovisor a cada cinco minutos.
No final das contas, Dylan não teve de ligar para Logan, pois Logan ligou para ele, em hora inconveniente, como de costume.
Ao que parece, Logan ia se casar com Briana Grant e nada o faria mudar de idéia, foi o que Dylan soube, ao atender a ligação do irmão no seu celular, enquanto estava sentado em um restaurante de caminhoneiros em algum lugar da estrada que levava à sua casa. Bonnie, na cadeirinha alta, insistia em jogar fios de macarrão nele. Ela estava coberta de comida, e ele também.
E estava começando a perder a paciência.
— Olhe, Logan, eu... — Ele se interrompeu quando Bonnie enfiou toda a cabeça no prato e, ao levantá-la, parecia uma Medusa de macarrão. — Pare com isso, droga...
Bonnie simplesmente riu e estufou um pouco o peito, como se aquela lambança de macarrão fosse uma peruca com a qual ela estivesse desfilando.
— Você está com uma mulher? — Logan perguntou.
— Quem dera — disse Dylan. — Vou ter que desligar agora... eu disse para parar... mas chegarei aí assim que puder. Se eu não chegar a tempo, prossiga sem mim.
Depois disso, Dylan mal registrou o que o irmão disse.
Logan lhe pediu para avisar Tyler. Pelo menos, disso ele lembrava. Deveria passar para o irmão caçula o recado de que Logan queria falar com ele, pessoalmente.
Como se isso fosse acontecer. Tyler estava furioso. Não iria ouvir a razão, e Dylan dissera exatamente isso.
Depois, Bonnie começou a jogar macarrão de novo. Desta vez, atingiu a mulher na mesa ao lado bem na nuca. Dylan encerrou o telefonema, tão próximo de pedir a ajuda de Logan quanto antes do irmão ligar, pegou a filha do demônio no colo, jogou algumas notas sobre a mesa para pagar a refeição e se mandou.
Agora, teria de achar um lugar para dar um banho na menina.
Ele a limpou com lencinhos umedecidos, comprados junto com o unicórnio, um troninho de plástico, um pequeno tênis e as roupas novas que ela praticamente já arruinara.
— Popô — ela disse, assim que deixaram a parada para caminhões e voltaram para a estrada. — Papai, popô.
— Não vamos voltar lá de jeito nenhum — Dylan disse. — Provavelmente estamos banidos do lugar, graças a você. Proibidos de pôr os pés ali por toda a eternidade.
— Popô — Bonnie insistiu.
Além de Papai, essa parecia ser a única palavra que ela conhecia. Ele se esgueirara com ela para dentro de, pelo menos, quatro banheiros masculinos desde que haviam deixado South Point, naquela manhã. Prendera-a no assento, de modo que ela não caísse, e fez o melhor que pôde para olhar para o outro lado.
O lábio inferior da menina começou a tremer.
— Popô — disse, melancolicamente.
— Ah, diabos — Dylan resmungou.
Ele encostou a caminhonete, localizou o troninho rosa e o colocou no chão entre alguns arbustos. Depois, desprendeu Bonnie da cadeirinha do carro e a carregou, ainda toda suja de macarrão, até o troninho.
Ele virou-se de costas.
Ela deve ter dado um jeito de abaixar as calças sozinha, porque ele escutou um suave e alegre tilintar. Quando, por fim, Dylan virou-se, ela estava sorrindo para ele, o cabelo coberto de molho de espaguete, e grunhindo agourentamente.
Dylan já havia montado os touros mais malvados do circuito de rodeios, e até conhecer Cimarron, o touro para dar fim a todos os outros touros, jamais havia sido derrubado. Já conseguira se defender em brigas de bar ou lutas em becos onde perder significaria ter a cabeça esmagada de encontro à calçada. Dera um jeito de vencer no blefe os jogadores de pôquer mais durões nas mesas mais duronas nas cidades mais duronas dos Estados Unidos.
Mas uma menininha fazendo popô... Isso era novidade.
— Limpa! — ela pediu, aumentando o seu vocabulário conhecido para três palavras.
— Nem pensar — Dylan disse.
Mas pegou alguns lenços umedecidos da caminhonete e os entregou à filha.
Ela já devia tê-los usado antes, pois quando voltou a passar por ele, estava com as calças levantadas e puxava atrás de si o troninho. Por mais complicada que a situação tivesse sido, Dylan encheu-se de orgulho. A menina era independente para uma criança de 2 anos. Ela tivera até a presença de espírito de se livrar das provas.
— Precisamos de uma mulher — disse para a filha assim que voltaram para a caminhonete. Ele usou outro lenço umedecido para lhe limpar as mãos. Depois, a prendeu na cadeirinha do carro, que era tão complicada que parecia ter sido inventada pela NASA. — Qualquer mulher.
Mas não foi qualquer mulher que lhe veio à cabeça. Foi Kristy Madison.
De jeito nenhum, ele disse para a imagem.
Depois disso, dirigiu por várias horas e, logo após três da manhã, chegaram aos arredores de Stillwater Springs, Montana.
Dylan tinha uma casa no rancho da família. Briana e os filhos estavam morando lá até recentemente, quando foram morar com Logan, mas soube que houvera uma invasão e um pouco de vandalismo, e não sabia se Logan já havia providenciado os reparos.
De modo que seguiu para a casa de Cassie.
Quando pararam na estrada de acesso à casa, Dylan viu a luz que brilhava através das paredes de couro de gamo de sua famosa tenda indígena. Ele passara muitas horas felizes naquela tenda, acompanhado de Logan e ou Tyler, fingindo que eram índios planejando um ataque ao acampamento dos brancos.
Agora, com Bonnie dormindo na cadeirinha, agarrada àquela boneca pelada e suja de tinta, o unicórnio rosa devidamente rejeitado, ele desceu da caminhonete e caminhou na direção da tenda.
Cassie, uma mulher encorpada e singularmente bonita, algo mais próximo de uma avó que ele já tivera, estava sentada observando as chamas baixas que tremulavam na fogueira dentro da tenda. Teria sido uma cena digna de uma foto se ela estivesse usando as vestimentas tribais, contudo calças de malha, apertadas nas costuras, tênis de cano alto verde-néon e uma camiseta com a foto de Custer, com uma flecha atravessando-lhe a cabeça estampada no peito, não tinham o mesmo impacto de um vestido de couro franjado e mocassins.
Porém, a foto de Custer dava um toque especial à cena. A julgar pela sua expressão favoravelmente confiante, a flecha não parecia incomodá-lo muito.
— Dylan — disse Cassie, erguendo o olhar. E ela não parecia muito surpresa.
— Preciso de ajuda — ele disse.
Não adiantava enrolar com Cassie. Ela era capaz de enxergar através das pessoas.
Ela sorriu. Assentiu. Fez menção de se levantar. Dylan estendeu a mão para ajudá-la. E a conduziu até a caminhonete.
Ela inspirou profundamente ao ver Bonnie, ainda dormindo o sono dos justos.
— Sua? — ela sussurrou.
— Minha — confirmou Dylan e, mais uma vez, encheu-se de orgulho.
— Onde está a mãe?
— Só Deus sabe. — Dylan retirou Bonnie da cadeirinha do carro, sua cabeça encostada no ombro dele. — Vou pedir custódia plena, mas, para isso, vou precisar da ajuda de Logan.
— Há muitos advogados neste mundo — Cassie comentou, baixinho. — Por que Logan?
— Porque isto pode ficar... bem... complicado.
— Dylan Creed, você roubou a menina da mãe?
Eles alcançaram o portão, e Cassie abriu caminho até a varanda, mexendo na maçaneta da porta.
Era evidente que ela não conseguia enxergar através dele. Pelo menos, nem sempre.
— Não — disse Dylan. Estava tarde, ou cedo, demais e estava muito cansado da viagem e do esforço de cuidar de uma criança de 2 anos de idade para se aprofundar na história. — Será que pode me dar um pouco de crédito? Não sou um criminoso.
— Mas está olhando por sobre o ombro por algum motivo — sussurrou Cassie, ligando a luz na familiar sala de estar de sua velha casinha.
Ela tomou Bonnie das mãos de Dylan, sussurrando algo tranquilizador quando a menininha se agitou no sono.
— Não tenho a custódia legal — respondeu Dylan. — Até que a tenha, vou tentar não despertar muita atenção, para o caso de Sharlene mudar de idéia. Eu lhe contarei o resto amanhã de manhã.
Cassie lhe fitou os olhos por um longo instante, depois, assentiu novamente.
— Tudo bem — disse, seguindo para o quarto de visitas. — Vou colocar esta criança na cama. Se estiver com fome, tem galinha fria na geladeira.
Grato, Dylan se largou no sofá e, antes que se desse conta, o sol já raiava e Bonnie estava de pé ao lado dele, puxando de leve o seu cabelo.
Ele sorriu, feliz em vê-la. Ela estava usando uma das enormes camisetas de Cassie, presa aqui e ali com alfinetes de segurança, para poder caber, e estava limpa.
Deus abençoe Cassie. Apesar de seus evidentes receios, tinha dado um banho muito necessário em Bonnie, e, provavelmente, também lhe alimentava.
— Papai — disse Bonnie, com um ar angelical, com a mãozinha lhe acariciando o queixo com a barba por fazer.
E, se até então Dylan não sabia que faria qualquer coisa para manter e criar esta criança, a sua filha, ele soube naquele instante.
— Dylan esta na casa de Cassie — disse a cabeleireira de Kristy, Mavis Bradley, quando ela passou lá, na hora do almoço, para dar uma aparada no cabelo. — Vi a caminhonete dele estacionada lá quando estava vindo para o trabalho.
Um arrepio percorreu o corpo de Kristy, em parte por medo, em parte por expectativa. Ela esperou que ele passasse. Se Dylan estava mesmo na cidade, em breve partiria. Era o padrão de comportamento dele. Venha, pisoteie o coração de alguém com o salto da bota e parta novamente.
— E, menos de uma hora antes, Cassie estava na loja comprando fraldas e comida para bebê naquelas embalagens plásticas que custam os olhos da cara — Mavis prosseguiu, antes que Kristy pudesse pensar no que responder. — Foi o que Julie Danvers me disse quando veio fazer as unhas.
Kristy reservou um instante para se sentir aliviada por não ter esbarrado em Julie. As duas não se davam bem, pelo menos no que dizia respeito a Julie, porque, por um breve período de tempo, Kristy havia sido noiva de seu marido, Mike, e ele não encarara bem o rompimento. Agora, os dois tinham dois filhos, uma enorme casa e um próspero negócio, e Mike era candidato a xerife. Era um mistério para Kristy por que essa história em particular ainda não eram águas passadas.
— Interessante — disse Kristy, visto que conhecia Mavis desde a primeira série e sabia que a mulher continuaria a falar sem parar até obter algum tipo de reação.
Todo mundo na região sabia que, outrora, Kristy e Dylan haviam sido muito apaixonados um pelo outro, e Mavis certamente não seria a última pessoa ansiosa para lhe dizer que Dylan estava de volta.
— Agora, para que Cassie precisaria de coisas de bebê, a não ser que...
— Mavis — interrompeu Kristy. — Eu não faço idéia.
— Acha que vai vê-lo?
Kristy deu de ombros. Não adiantava fingir que não sabia sobre o que Mavis estava falando.
— Talvez pela cidade — disse, com uma indiferença que certamente não sentia. — Dylan e eu somos coisa do passado.
— Assim como você e Mike Danvers — retrucou Mavis, astutamente. — Mas isso não impede que Julie suba nas tamancas sempre que ele menciona o seu nome. O que, ao que tudo indica, acontece com um bocado de freqüência.
Kristy precisava ter cuidado para responder essa. Tudo que dissesse se espalharia pela extensa rede de contatos de Mavis, menos de cinco minutos após ela ter pago o corte de cabelo e partido.
— Que bobagem. Mike e Julie estão casados há muito tempo, têm dois lindos filhos e uma vida maravilhosa. E daí que Mike menciona o meu nome de vez em quando? Stillwater Springs é uma cidade pequena. Ele provavelmente menciona o nome de muita gente.
— Bem — disse Mavis, astutamente —, pensei que você, no mínimo, ficaria curiosa quanto ao motivo de Cassie comprar fraldas. E tem também o fato de a caminhonete de Dylan estar parada diante da casa dela, de manhã tão cedinho; ele deve ter chegado durante a noite...
— Não fico nada curiosa — mentiu Kristy, e enfaticamente. Se Dylan tinha um filho, seria a maior das injustiças por parte do universo. Era ela quem queria uma casa cheia de crianças. Dylan jamais quis se assentar, apenas fingiu fazê-lo, por motivos óbvios. — O que Dylan Creed faz, ou deixa de fazer, simplesmente não me interessa.
— Conversa — Mavis disse. — Suas orelhas estão ficando vermelhas.
— Isso é porque você fica me cutucando com a tesoura o tempo todo. Nós já terminamos? Preciso voltar para a biblioteca.
Mavis suspirou, teatralmente.
— A biblioteca — zombou. — Você costumava ser líder de torcida na escola. Foi a rainha do baile de formatura. E a Miss Rodeio Montana, segunda colocada para Miss Rodeio América. Quem pensaria que logo Kristy Madison acabaria em um emprego de solteirona? Isso me lembra uma cena em A felicidade não se compra, na qual Donna Reed é esta velhota infeliz só porque George Bailey jamais nasceu...
— Ah, pelo amor de Deus, Mavis! — Àquela altura, Kristy já estava pronta para saltar da cadeira, para arrancar a capa de plástico e marchar para a rua, mesmo com o cabelo dividido com aqueles idiotas grampos de metal. — Se você não sabe, algumas de nós já deixaram a escola para trás. E qual é o problema em ser bibliotecária?
Mavis recuou um pouco. No espelho que dava de frente para a cadeira, seu rosto pontiagudo pareceu triste.
— Nada — disse, baixinho.
— Sinto muito — disse Kristy, na mesma hora arrependendo-se de sua explosão. — Não quis estourar com você. É só que...
— É só que, quando alguém menciona Dylan Creed, você fica mal-humorada — completou Mavis, gentilmente.
— Então, por que insiste em mencioná-lo? — indagou Kristy, com um tom de voz cansado.
Mavis lhe apertou o ombro com uma das mãos manicuradas.
— Não quis aborrecê-la. Apenas pensei que você poderia ficar contente por Dylan estar de volta. Sei que tem passado por poucas e boas, Kristy. Perder seus pais do modo como perdeu, além do rancho e de Sugarfoot, praticamente de uma vez. Gostaria de vê-la feliz de novo, e você era feliz com Dylan, até aquela briga no dia do enterro do pai dele. Todo mundo em Stillwater Spring pensa da mesma forma... Quero dizer, todos gostariam de vê-la feliz.
Kristy lutou contra as lágrimas, não por causa das lembranças tristes, mas porque estava comovida. Mavis, do seu próprio jeito atrapalhado, de fato, gostava dela, assim como muitas outras pessoas.
— Eu sou feliz, Mavis — disse. — Tenho meu trabalho, minha casa, meu gato...
— Bem, eu tenho meu trabalho, minha casa e quatro gatos, mas ainda é o meu bem quem faz meu coração bater mais forte — argumentou Mavis, alegremente.
— Você tem sorte — disse Kristy.
E estava falando sério. Mavis estava casada com o mesmo homem desde o dia seguinte à formatura do colégio e, embora ela e Bill jamais tivessem tido filhos, era do conhecimento geral que ela e Bill ainda estavam profundamente apaixonados um pelo outro.
Mavis terminou o corte de cabelo sem mencionar novamente Dylan, o que foi um ato de misericórdia, e Kristy voltou correndo para a biblioteca para comer um sanduíche no seu pequeno escritório atrás do balcão de informações. Era quarta-feira, e o dia estava devagar o suficiente para suas duas ajudantes voluntárias, Susan e Peggy, cuidarem de tudo.
Contudo, a hora da história estava chegando, às três da tarde, e isso era o bebê de Kristy. Ainda não havia escolhido um livro, o que a deixava um pouco tensa. Era uma pessoa de detalhes, e poucos detalhes eram mais importantes para ela do que fazer um trabalho bem feito.
De modo que terminou o sanduíche e voltou para a parte principal da biblioteca, seguindo para a seção para as crianças. Escolher a história para ler era sempre uma questão delicada, porque as crianças que se reuniam em círculo aos pés do totem de mentirinha na pequena área de recreação variavam de 3 a 12 anos de idade. As mais turbulentas chegavam após a aula de natação na piscina comunitária, cheirando a cloro e a sol, e sempre um pouco molhadas, e as que tinham mães trabalhando invariavelmente chegavam mais cedo.
Apressadamente, Kristy foi de livro em livro, de prateleira em prateleira.
Por fim recorreu a um que sempre tinha de prontidão, um dos mistérios de Nancy Drew que ela adorara na juventude. Os meninos dariam risadinhas de deboche, e os menores não entenderiam uma palavra, mas ela sabia que, apenas escutar, fazia parte da magia.
Sim, hoje seria O segredo do velho relógio.
Faria bem às meninas escutar sobre a inteligente e perspicaz Nancy e seus alegres assistentes, George e Bess. E a experiência também não faria mal aos meninos. Podia dizer que estava lhes despertando a consciência.
O tempo passou rapidamente, pois Kristy se ocupou registrando uma pilha de livros devolvidos, e quando desviou a atenção de seu trabalho, viu pelo menos uma dúzia de crianças reunidas na área de recreação, aguardando.
— Está na hora do espetáculo — Susan sussurrou, sorrindo. — Deixe que eu termino as devoluções. E hoje também posso ficar até a hora de fechar. Jim está em Choteau com a sua liga de boliche.
Susan, com seus 50 e poucos anos de idade, era supercompetente. O fato de ela ficar significava que Kristy poderia ir embora às cinco da tarde, em vez de às nove da noite, como uma pessoa normal, e pintar pelo menos parte da cozinha antes de esquentar algo para jantar e cair na cama com Winston para ler um pouco antes de dormir.
— Obrigada — disse, apertando ligeiramente o ombro da amiga.
Carregando O segredo do velho relógio, seguiu para a área de recreação e fez uma mesura exagerada quando as crianças começaram a bater palmas e a gritar. Sempre faziam isso, provavelmente porque gostavam de fazer barulho na biblioteca, onde costumava ser proibido, mas, mesmo assim, Kristy se divertia com a demonstração rotineira.
Ela sentou-se no chão, cruzando as pernas.
— Hoje — anunciou —, Nancy Drew.
Como já era de se esperar, os meninos gemeram. As meninas deram risadinhas.
Os que estavam acostumados a permanecer em casa sozinhos ficavam contentes em simplesmente ver um adulto.
Kristy abriu teatralmente o livro. Isso também fazia parte do show. Sempre um floreio. As crianças gostavam. Sua mãe sempre fizera do ato de ler, e de ter alguém lendo para você, uma coisa divertida, usando vozes diferentes para cada personagem e, às vezes, até interpretando parte da história.
Quando ela ergueu o olhar, pronta para começar, seu coração veio à boca, e ela se viu incapaz de dizer uma palavra sequer.
Dylan Creed aparecera do nada. Ele estava sentado, de pernas cruzadas, como Kristy, segurando entre os braços a menininha mais linda que Kristy já vira.
Ela engoliu em seco.
Não havia dúvida de que a menina era dele. A semelhança deixou Kristy sem fôlego.
Os olhos azuis de Dylan dançavam travessamente ao observá-la. Ela pigarreou.
— Capítulo Um — começou. Depois, congelou novamente.
Um dos meninos mais velhos começou a entoar:
— Nan-cy! Nan-cy!
Todas as outras crianças seguiram o exemplo. Até mesmo o ser angelical no colo de Dylan começou a bater palmas com as lindas mãos gordinhas, esforçando-se para se juntar à brincadeira.
Dylan soltou um súbito assovio estridente.
O silêncio tomou conta do recinto.
A menininha ergueu a cabeça, fitando-o com curiosidade.
— A moça — disse Dylan — está tentando ler uma história. De modo que é melhor todo mundo ficar quieto e escutar.
De algum modo, Kristy foi capaz de ler três capítulos do livro, mas foi uma apresentação desprovida de brilho e entusiasmo. Seu olhar insistia em se fixar em Dylan, e, sempre que isso acontecia, sentia uma onda de calor subindo pelo pescoço.
Por fim, as mães começaram a chegar para recolher os filhos. Kristy tentou dar a impressão de estar ocupada, mas foi difícil, visto que estava sentada no chão, com nada nas mãos além de um livro de histórias. Pior, suas pernas haviam adormecido, e ela sabia que, caso se levantasse rápido demais, provavelmente cairia de cara no chão.
Diante de Dylan Creed.
Por que ele não foi embora, como todo o resto?
— Belo trabalho — disse ele, e Kristy surpreendeu-se ao se dar conta de que ele estava sentado bem ao lado dela. A menininha estava brincando com os enormes blocos de plástico que os Amigos da Biblioteca haviam fornecido para a área de recreação.
Será que ele estava se divertindo à custa dela?
Kristy engoliu de novo, ruidosamente, para falar a verdade.
— Ela é linda — disse com a voz rouca e inclinando a cabeça na direção da menina.
Dylan assentiu.
— O nome dela é Bonnie — disse.
O que você quer? Era o que Kristy teria perguntado se não tivesse sido tão covarde, mas o que escapou de seus lábios foi:
— Soube que estava de passagem. Ótimo.
Agora, ele iria pensar que ela não deixava escapar nenhuma notícia a respeito de Dylan Creed que aparecesse em seu caminho.
— Não estou de passagem — Dylan retrucou, observando Bonnie com um brilho suave nos maliciosos olhos azuis. — Estou planejando ficar. Demolir aquela minha velha casa, agora que Briana e os meninos não precisam mais dela, e construir uma nova. Também vou querer um celeiro, e alguns cavalos. Talvez até algumas cabeças de gado para juntar à manada de Logan.
Por que ele estava lhe dizendo tudo isso? Será que achava que ela ligava a mínima?
Ela ligava a mínima?
Não, não, mil vezes não.
Controle-se, disse para si mesma.
Tudo bem, então Bonnie poderia ter sido filha dela assim como de Dylan, caso as coisas tivessem sido diferentes. Mas não foram, e esse era o fim da história.
Ela possuía uma casa, um trabalho e um belo gato. Uma vida excelente, droga.
— Que bom — disse ela, esticando as pernas e sacudindo-as sutilmente para ativar de novo a circulação, de modo a conseguir ficar de pé e afastar-se com um mínimo de dignidade. Cuidaria de sua vida. Diria a Susan que estava com dor de cabeça e que não ficaria até às cinco.
Mas isso seria mentira.
Era o seu coração que doía, não a cabeça.
— Como tem passado, Kristy? — perguntou Dylan.
O que era isso, A Semana de Ser Gentil com Antigas Namoradas?
— Bem — respondeu.
Um dos cantos da boca de Dylan inclinou-se para cima em um ligeiro sorriso triste.
— Até a última vez em que falei com Logan, pensei que havia se casado com Mike Danvers.
O nome caiu entre os dois como um enorme peso de chumbo.
Kristy recobrou-se rapidamente, mas não rápido o suficiente. Algo moveu-se no olhar de Dylan enquanto ela estava elaborando uma resposta, mesmo que apenas por uma fração de segundos.
— Não teria dado certo entre mim e Mike — disse.
— Assim como não deu certo entre nós dois — disse Dylan, e por mais que se esforçasse, Kristy não conseguiu interpretar o seu tom.
— Éramos jovens — ouviu-se dizer. — O mundo estava desmoronando. Seu pai havia acabado de morrer naquele acidente, e meus pais...
— Papai! — Bonnie exclamou subitamente, cheia de alegria. — Papai! Papai! Papai!
Ela correu para Dylan, que a tomou nos braços.
— Popô! — Bonnie gritou, triunfantemente. Dylan suspirou.
— Será que se importaria de levá-la ao banheiro feminino? — pediu a Kristy.
Grata por uma desculpa para escapar dele, mesmo que apenas por alguns minutos, e rezando para que suas pernas houvessem acordado, Kristy ficou de pé, deu a mão a Bonnie e a acompanhou até o banheiro.
Como muitas das crianças que vinham à biblioteca eram pequenas, Kristy estava acostumada com a tarefa. Mas esta era a filhinha de Dylan. Ele concebera esta criança finda com alguma mulher desconhecida, não com ela.
Que droga. Quando haviam feito amor todas aquelas vezes, antes de rodeios e morte e tantas outras coisas que se intrometeram entre eles, sempre acabavam escolhendo nomes após o ato. Chamariam um menino de Timothy Jacob, em homenagem aos pais dos dois. E uma menina Maggie Louise, em homenagem às mães...
Quando ela e Bonnie deixaram o banheiro, Dylan as aguardava no corredor, apoiado na parede com aquela graça indolente que parecia emanar de seu próprio DNA.
— Obrigado — disse.
— Não tem de quê. Ele tomou Bonnie nos braços.
— Foi bom revê-la, Kristy — disse, com a voz um pouco rouca.
— Você também — ela respondeu.
Felizmente, Dylan foi embora antes que as lágrimas lhe brotassem nos olhos. Obrigado. Não tem de quê. Foi bom revê-la...
A você também.
Kristy voltou para o banheiro feminino, ligou a torneira de água fria e ficou jogando água no rosto até sentir a ardência diminuir. Mas ainda escutava as vozes, dela e de Dylan, embora, desta vez, elas viessem de muito tempo atrás.
Quando a lua se soltar no espaço, Dylan Creed, e a última estrela se apagar para sempre, eu ainda o amarei.
Ele sorrira, lhe acariciara o cabelo e a beijara, incendiando-lhe novamente as veias.
Você lê demais, brincara. Adoro isso em você. Com você como mãe, nossos filhos terão a chance de ser inteligentes.
Você também é inteligente, Dylan, ela protestara, sendo sincera.
Mas não instruído, ele retrucara. Não sei recitar poesias, como você faz.
E isso importa?, perguntara, com o coração explodindo de ternura. Nada importa além de nós dois, Kristy. Nada importa além de nós dois.
Dar um pulo na biblioteca provavelmente havia sido um erro tático, admitiu Dylan para si mesmo. Havia sido um impulso espontâneo, uma compulsão súbita de ver Kristy novamente, mesmo que de longe.
Contudo, o que aconteceu é que ela havia acabado de reunir um grupo de crianças para contar histórias quando ele e Bonnie atravessaram a porta da frente, e, na mesma hora, ele se viu atraído para o círculo. Era como se houvesse bater de tambores e uma fogueira, como a que havia na tenda de Cassie. O círculo de crianças exercia o mesmo tipo de atração visceral, primordial.
Kristy ainda era linda. Cinco anos sem ele por perto para lhe complicar a vida só haviam servido para deixá-la ainda mais bonita. Ela parecia mais centrada e serena do que antes, embora ele tivesse ficado satisfeito de ver que sua presença inesperada a abalara um pouquinho.
A única parte ruim foi a mágoa que vislumbrou nos olhos de Kristy, quando se deu conta da identidade de Bonnie.
Ele olhou para a filha, presa na cadeirinha do carro e agarrada à boneca suja de tinta. Se pensasse bem, o brinquedo provavelmente deveria ser queimado, visto que devia ser uma central de germes, mas Dylan não conseguia se forçar a tirar a boneca da menina. Talvez, depois, quando Bonnie estivesse dormindo, ele banharia a coisa em desinfetante ou algo assim.
Enquanto isso, dirigindo pelas ruas escuras de Stillwater Springs, ele teve o cuidado de se manter dentro dos limites de velocidade. A última coisa de que precisava era Floyd Book, ou um de seus delegados, parando-o e pedindo alguma prova de que ele não havia cometido rapto paterno. Ele tinha o bilhete de Sharlene, encontrado em sua caminhonete com Bonnie e a mochila, mas quem poderia dizer se isso valeria alguma coisa?
Logan poderia, é claro. Logan poderia providenciar a documentação e colocar tudo em ordem.
Ele seguiu para o rancho, em parte na vã esperança de que Logan pudesse estar lá, e, em parte, porque este era o seu lar.
— Foi aqui que cresci — disse para Bonnie, ao passarem sob a placa recentemente consertada dizendo Stillwater Springs Ranch, pendurada sobre o portão principal.
— Não — disse Bonnie, alegremente, mordendo o cabelo de roqueiro punk da boneca.
Quatro palavras, agora. Sem dúvida, a menina estava desenvolvendo um vocabulário impressionante.
O trabalho no celeiro já estava quase terminado. Estava sustentado por vigas novas e o telhado havia sido substituído.
Dylan estacionou a caminhonete e baixou o vidro da janela, quando um dos trabalhadores veio na direção dele, sorrindo.
Ele reconheceu Dan Philips, um sujeito que se formara alguns anos à frente dele na Stillwater Springs High.
— Logan está por aí? — perguntou Dylan, embora soubesse a resposta.
Dan sacudiu a cabeça.
— Viajou para Las Vegas para se casar.
— O celeiro está ficando bonito — comentou Dylan. Detendo-se, Dan lançou um olhar na direção de Bonnie.
— Não sabia que era um homem de família, Dylan — disse, com um sorriso.
— Sou cheio de surpresas — retrucou Dylan. — Sabe se Logan providenciou o conserto da minha casa após a última invasão?
— Fui até lá com uma equipe e eu mesmo tratei disso. Logan pediu para trazer para cá as coisas de Briana e dos meninos, e também me encarreguei disso.
Já era alguma coisa, Dylan pensou, embora estivesse incalculavelmente desapontado por Logan não estar em casa. Ele e Bonnie podiam comprar algumas coisas para comer e se mudar agora mesmo. Cassie os recebera bem, mas sua casa era pequena, e ele não queria abusar de sua hospitalidade mais do que o necessário.
— Parece que todo mundo da velha guarda resolveu aparecer prosseguiu Dan, quando Dylan já estava prestes a passar a marcha e seguir para a sua casa, para descobrir o que, além de comida, ele e Bonnie precisariam providenciar. — Acabo de ver Tyler. Ele está enfurnado naquele chalé velho, nas margens do lago, e me pediu para não dizer a ninguém que estava aqui. Mas não acho que ele se importaria de você saber.
Dan estava enganado, mas Dylan não viu motivo para dizer isso.
— Vou dar uma passada lá para dizer oi — ele respondeu, tranqüilamente.
Se eu tiver sorte, meu irmão caçula não vai me botar para correr com uma carabina.
— Em seguida, vamos começar a trabalhar na casa — disse Dan, assentindo na direção da casa antiga. — Vamos fazer umas modificações bem sofisticadas. Para começo de conversa, uma nova suíte do casal e uma cozinha de última geração.
Dylan sorriu. Logan ainda esperava continuar, estabelecer-se ali e criar um bando de filhos com Briana.
Ele acreditaria quando o último deles crescesse e se casasse.
Por outro lado, considerando como ele mesmo se sentia a respeito da própria filha, era possível que Logan, de fato, estivesse determinado a "fazer o nome dos Creed voltar a significar alguma coisa", como costumava dizer.
— Até mais ver — Dylan disse para Dan, pois era o que se costumava dizer na roça quando se queria fazer uma saída rápida, porém educada.
Dan assentiu, saudou-o displicentemente e voltou ao trabalho.
Dylan seguiu para a sua própria casa. — Popô — disse Bonnie solenemente, enquanto sacolejavam através do pasto, contornando o pomar e o cemitério.
Mais cedo ou mais tarde, teria de visitar o túmulo de Jake, mas isto estava longe de estar no topo de sua lista.
— Agüente as pontas — respondeu Dylan, em tom afável. — Estamos quase em casa.
— É PURA tolice ficar toda nervosa só porque Dylan Creed apareceu na hora da história com a menininha mais linda do universo — Kristy disse para Winston, muito após o sol se pôr, enquanto, de pé no topo da escada de armar, ela dava outra demão de tinta amarelo-sol no batente da arcada que separava a cozinha da sala de jantar.
Winston, tendo acabado de devorar o seu costumeiro banquete, alisava meticulosamente uma das patas dianteiras e nada comentou.
— Quero dizer, não é como se ele tivesse problemas para atrair mulheres — Kristy prosseguiu, limpando uma gota de tinta do nariz com a manga da enorme camisa de homem que comprara no bazar de caridade justamente para serviços que faziam muita sujeira.
— Miau — Winston disse, com indiferença.
— Foi só uma surpresa, mais nada.
Entediado, Winston virou-se, afofou o rabo felpudo e seguiu preguiçosamente para a sala de estar. Ele gostava de se deitar na escrivaninha antiga diante das janelas da sacada e ficar assistindo ao mundo passar. E ele passava muito lentamente em Stillwater Springs. As vezes, demorava horas para um carro passar.
— É sempre assim — Kristy disse, para a cozinha vazia. — Ninguém me escuta.
No instante seguinte, alguém bateu na porta dos fundos, e Kristy ficou tão surpresa que quase caiu de cima da escada. Afinal de contas, o que havia de errado com ela?
— Entre! — gritou, pois era o que se fazia em Stillwater Springs. Quando o xerife abriu a porta e entrou, ela ficou surpresa, mas não o suficiente para ir de cabeça no chão.
— Não deveria simplesmente gritar "entre" desse jeito — Floyd disse, retirando o chapéu de xerife e colocando-o sobre a bancada. — Eu podia ser um forasteiro, louco para esquartejar alguém. — Um ligeiro sorriso esboçou-se no canto de sua boca, suavizando a expressão séria do rosto. — Não estamos mais nos velhos tempos, Kristy.
Kristy pousou o pincel na bandeja de alumínio amarelo-sol e desceu da escada, sorrindo. Café? — perguntou. Floyd sacudiu a cabeça, suspirando.
— Estou tentando cortar — disse. — Está me deixando acordado durante a noite.
Kristy ficou parada ali, aguardando que ele fosse ao ponto de sua visita.
— Importa-se de sentar-se? — perguntou o xerife, com a voz cansada.
Oh-oh, Kristy pensou. Lá vem bomba.
Assim que ela se sentou à mesa, Floyd se acomodou na cadeira diante dela.
— Acho que você sabe que o banco enfim resolveu a confusão da legitimação do testamento referente ao rancho — ele disse, baixinho. — E Freida tem um astro do cinema pronto para comprá-lo.
Sentindo um nó na garganta, Kristy assentiu.
— Ela me disse que o rancho ia ser vendido, agora que o processo legal foi completado.
Ela estava curiosa quanto ao motivo de Floyd ter passado ali para lhe contar isso.
— É um rancho antigo — prosseguiu Floyd, com uma expressão séria no rosto. — Ao longo dos anos, um bocado de coisas aconteceu ali.
Kristy sentiu um frio na barriga.
— Floyd, o que está querendo dizer?
— Acho que pode haver um corpo enterrado na propriedade — disse o xerife.
O queixo de Kristy caiu e, após parar por um instante, seu coração disparou. A lembrança monstruosa despertou nas profundezas de seu cérebro.
— Um corpo? Floyd suspirou.
— Posso estar enganado — falou, mas a expressão de seu rosto dizia que ele não achava estar.
— Bom Deus — exclamou Kristy, atordoada demais para dizer qualquer outra coisa, e, ao mesmo tempo, estranhamente pouco surpresa.
O xerife parecia aflito.
— Havia um homem... Ele trabalhou para o seu pai durante um verão, quando você era bem pequenininha. Um andarilho, jamais soube direito o seu nome. Homens como ele iam e vinham o tempo todo, detendo-se apenas para ganhar alguns dólares em um rancho qualquer. Mas, certa vez, tarde da noite, Tim me acordou com um telefonema, dizendo que havia problemas sérios, e que eu precisava ir logo para lá. Tim não parecia ele mesmo. Por um instante, pensei estar falando com outra pessoa. No final das contas, ele flagrara este sujeito, o andarilho, tentando fugir da casa com parte das jóias de sua mãe e todo o dinheiro que tinham à mão, que não era pouco, pois ele havia acabado de vender algum gado em um leilão naquele dia. Houve uma luta, foi tudo que Tim me disse. Houve uma luta. Eu me vesti e segui para o rancho o mais rápido possível. E, quando cheguei lá, seu pai mudou a história. Disse que o andarilho havia ido embora, e já havia ido tarde. O pavor tomou conta de Kristy, mas ela disse.
— Então, deve ter sido a verdade.
Jamais soubera do pai mentir a respeito de nada, por mais conveniente que pudesse ser.
Mas o xerife Book voltou a sacudir a cabeça. Seus olhos pareceram afundar no rosto e Kristy pôde lhe notar as olheiras.
— Aceitei a palavra dele porque Tim era meu melhor amigo, mas havia muito mais por trás daquela história, e eu sabia disso. A aparência de Tim parecia ainda pior do que sua voz ao telefone. Era uma noite fria, mas ele estava suando, e havia sujeira sob suas unhas e nas suas roupas. Sabe como ele sempre se lavava antes do jantar, Kristy, e isso já foi bem depois da meia-noite.
Kristy não conseguia falar, não conseguia se forçar a fazer a pergunta óbvia: Será que o xerife Book achava que seu pai havia matado um homem?
— Poucos dias depois — prosseguiu o xerife, claramente forçando as palavras —, numa manhã de domingo, dei uma passada no rancho para dar uma olhada, quando sabia que seus pais estariam na igreja. E achei o que supus ser uma cova recém-feita naquele matagal perto de onde a propriedade se encontrava com a dos Creed.
Kristy sentiu uma onda de alívio. Ele havia visto a cova de Sugarfoot naquela manhã, não a de um ser humano. Mas o seu alívio durou pouco. Na ocasião, Sugarfoot ainda estava vivo e muito bem.
Floyd estendeu a mão sobre a mesa, apertando a dela, que estava fria como gelo.
— Perguntei a Tim o que havia lá. Ele me disse que um velho cachorro havia aparecido no seu celeiro, e morrido ali, e que ele havia enterrado a pobre criatura no meio daquelas árvores. — Ele voltou a deixar escapar um suspiro. — Eu era o xerife. Deveria ter chegado ao fundo daquilo, tanto no sentido literal quanto no figurativo, mas não foi o que fiz. Queria acreditar no seu pai, de modo que acreditei, mas sempre tive minhas dúvidas e, agora que estou prestes a me aposentar, preciso saber o que aconteceu. Não é apenas o café que me deixa acordado durante a noite, são certas pendências.
Kristy pensou que ia passar mal.
— Você vai... exumar... Floyd assentiu.
— Sei que Sugarfoot está enterrado ali, Kristy — ele disse, bruscamente, mal conseguindo fitá-la nos olhos —, e farei de tudo para não mexer muito nos restos dele. Mas, de uma vez por todas, tenho de ver se há um cão naquela cova com ele, ou um homem.
— Sinceramente, acha que meu pai, seu melhor amigo, assassinaria alguém e, depois, recorreria a tantos extremos para ocultar o corpo?
Kristy começou a se sentir tonta. Seu coração estava em disparada, e o cheiro da tinta, até então passado despercebido, agora trazia bile quente à sua garganta.
Não se lembre, sussurrou uma voz nos recônditos sombrios de sua mente, onde espreitavam enxaquecas e pesadelos. Não se lembre.
Baixinho, o xerife Book disse:
— Acho que, de fato, houve uma briga, e que as coisas escaparam ao controle. Se Tim realmente matou o andarilho, foi um acidente, e ninguém jamais me convencerá do contrário. Ele deve ter ficado furioso, Tim, quero dizer, com você e sua mãe na casa isso teria tornado aquela uma luta que ele não poderia ter se dado ao luxo de perder. No lugar de Tim, eu teria ficado apavorado com o que o sujeito poderia fazer se eu não conseguisse detê-lo.
Kristy ficou de pé, com toda a intenção de sair correndo para o banheiro, depois, largou-se de volta na cadeira.
— Mas papai ligou para você — murmurou. — Será que teria feito isso se tivesse matado alguém?
— Ele estava em pânico, Kristy. Provavelmente ligou primeiro e pensou depois.
— Papai já se foi, assim como a mamãe. Você está prestes a se aposentar. Será que não podemos deixar a coisa toda para lá?
— Se pudermos viver sabendo o que sabemos. Não acho que eu seja mais capaz de fazer isso... Já estou pagando o preço com uma úlcera. Será que você consegue ir adiante como se nada tivesse sido dito, Kristy?
Ela mordeu o lábio inferior.
— Não — disse, tristemente.
Se havia restos humanos enterrados com Sugarfoot, ou, mais precisamente, sob ele, o escândalo se espalharia por todo o estado de Montana. A lembrança de Tim Madison, aquela de um homem decente, trabalhador e honrado, seria alvo de tudo quanto é tipo de especulação.
Como será que ela lidaria com isso?
— Por que agora? — perguntou, fechando os olhos brevemente, na esperança de que o aposento parasse de girar. — Depois de todo esse tempo, Floyd, por que agora.
— Já disse — ele respondeu, gentilmente. — Minha aposentadoria. E, com a propriedade à venda, e algum idiota de Hollywood pronto para trazer escavadeiras para abrir espaço para quadras de tênis e coisas do gênero...
Kristy gelou. É claro que sabia que alguém, um dia, compraria o rancho Madison. Era uma propriedade de primeira. Mas jamais considerara a possibilidade de que alguém poderia destruir o túmulo do pobre Sugarfoot.
Lágrimas lhe encheram os olhos, e velhas feridas foram abertas novamente.
— Sinto muito — disse o xerife Book.
— Quando ele morreu — Kristy murmurou —, quero dizer, Sugarfoot, eu também quis morrer. Juntar-me a ele naquela cova e deixar que me cobrissem de terra.
— Você havia acabado de perder sua mãe — lembrou Floyd. — E seu pai já estava doente. Era muito para uma jovem suportar. Mas você conseguiu suportar, Kristy. Você seguiu em frente, seguiu vivendo, como deveria ter feito.
Um silêncio demorado e difícil tomou conta do aposento. Kristy o rompeu, dizendo:
— Você está sabendo do rebuliço que isso vai provocar se você encontrar... se você encontrar alguma coisa.
Com seriedade, Floyd assentiu.
— Talvez eu esteja errado. Não há necessidade de agitar toda a comunidade se houver realmente apenas um cachorro compartilhando a cova de Sugarfoot, Posso manter a coisa toda na surdina, Kristy, pelo menos por enquanto. Porém, estamos falando de Stillwater Springs, e o povo daqui não sabe manter a língua quieta. A notícia pode se espalhar, e é por isso que vira falar com você primeiro. Para que esteja de sobreaviso em caso de... Bem, você sabe.
Kristy assentiu.
O xerife ficou de pé para ir embora.
— Você vai ficar bem? — perguntou. — Se quiser, posso ligar para alguém.
— Ligar para alguém — Kristy repetiu, tolamente.
Quem? Quem neste mundo inteiro, de ponta-cabeça e confuso, deixaria tudo de lado para vir correndo segurar a mão da bibliotecária? Dylan, pensou.
— Talvez você não deva ficar sozinha.
— Estou bem — disse Kristy. Resposta automática.
Uma grande mentira.
— Tranque a porta depois que eu sair — Floyd mandou. Kristy assentiu.
Mas ele já havia ido embora há muito tempo, antes que Kristy sequer se levantasse da cadeira.
No final das contas, apesar de parcamente mobiliada, a casa estava habitável. Dylan achou que ele e Bonnie poderiam morar ali com conforto, se não com estilo, mas ele precisaria improvisar algum tipo de cama para ela, arrumar-lhe uma cômoda.
Mais compras, pensou amargamente.
E com uma menina de 2 anos de idade.
— Oba — murmurou.
— Popô — Bonnie disse.
— Aprenda outra palavra — retrucou Dylan.
O troninho rosa ainda estava na casa de Cassie, de modo que mais uma vez, ele teve de segurar Bonnie de bumbum de fora sobre a privada, e esperar.
No final das contas, Cassie se ofereceu para ficar de babá em sua própria casa, enquanto Dylan providenciava a comida e outras necessidades.
Ele comprou uma caminha para Bonnie, um nível acima de um berço, com proteção lateral que podia ser levantada e abaixada. Era branca, com detalhes em dourado; francês provinciano, a vendedora da única loja de móveis em Stillwater Springs a chamara. A peça, ela disse, foi projetada para crescer com a criança.
Dylan pagou em espécie, e a mulher prometeu entregar logo de manhã cedo. Ele ainda precisava de outras coisas, mas como tinha planos de botar mesmo a casa abaixo, não conseguia se ver torturando a si mesmo com a compra de um sofá decente ou de uma mesa de jantar nova. Poderia arrumar tudo isso mais tarde, ou talvez o trailer, que ele pretendia alugar e colocar na propriedade como moradia temporária, viesse com algo.
Mas a menina precisaria de leite pela manhã, para colocar no seu copo com biquinho, além de cereais.
De modo que ele decidiu encarar a mercearia da cidade.
Assim que levou tudo de volta para o rancho e guardou, seguiu para a casa de Cassie, para apanhar Bonnie. Ela poderia, naquela noite, dormir na cama que já estava na casa quando Briana se mudou para lá, e Dylan ficaria no velho sofá desconfortável.
Pelo menos, ele e Bonnie estariam em sua própria casa. Já era um começo.
Ao passar diante do cassino, teve vontade de parar a caminhonete, mas, por ora, ele estava fora das rodadas de pôquer. Afinal de contas, era pai.
Tinha responsabilidades agora.
E, por mais estranho que pudesse parecer, gostava da sensação. Estava tudo bem, com exceção da coisa do popô e do macarrão voador.
Definitivamente, se quisesse que isto desse certo, precisaria de uma esposa.
Na mesma hora pensou em Kristy.
— Ah, claro — começou a falar consigo mesmo em voz alta. — Simplesmente entre na biblioteca um dia desses e sugira deixar tudo que aconteceu para trás, porque, afinal de contas, você tem uma filha de 2 anos e está precisando de uma mãozinha para criá-la.
Dito assim, realmente parecia uma péssima idéia.
E Kristy provavelmente o acertaria na cabeça com o livro pesado mais próximo.
Ainda assim, Bonnie precisava de uma mãe, e ele não conseguia pensar numa candidata melhor do que Kristy Madison, com sua suave voz de contadora de histórias e sua praticidade serena. Se ele tinha de engravidar alguém, por que não podia ter sido ela, em vez de Sharlene?
Aí está uma pergunta inútil.
Depois do que acontecera no dia do enterro de Jake, Kristy o riscara de seu caderno, e ficara noiva de Mike Danvers. O bom e velho Mike, presidente do corpo estudantil, escoteiro e futuro dono da concessionária Chevrolet do pai.
Ele jamais seria preso por se meter em uma briga com os próprios irmãos no enterro de um dos membros da família, não o Mike. Não senhor, ele era o próprio cidadão sólido, não um Creed arruaceiro. Bastaria uma só palavra de Kristy para ele correr para a joalheria para dar a entrada naquele enorme anel de diamantes que lhe dera.
Como Dylan estava pensando nessas coisas, e cm outras muito piores, quando estacionou diante da casa de Cassie, ele precisou de um ou dois segundos extras para se dar conta de que o enorme utilitário Cadillac branco, que estava estacionado ao lado da tenda, provavelmente pertencia a Tyler.
A insígnia de rodeio na janela de trás foi a pista decisiva. Somente campeões tinham aqueles decalques de fivela de prata e, entre outras coisas, Tyler era um perito domador de cavalos selvagens.
Ele também fez comerciais para a TV, e pousou seminu para calendários de caubóis. Copiando a idéia de Dylan, também fizera alguns trabalhos de duble, embora, graças a Deus, jamais houvessem se encontrado no mesmo set de filmagem.
Dylan não estava nada pronto para lidar com o irmão caçula naquele momento. Contudo, ir embora também não era uma opção. Para começo de conversa, jamais fora de fugir de confrontações, a não ser que fossem com mulheres. Viera buscar Bonnie, e não iria embora sem ela.
Sendo assim, desceu da caminhonete e caminhou até a porta da frente de Cassie.
Era melhor acabar logo com isto. Informaria a Tyler, se é que Cassie já não o havia feito, que Logan estava querendo falar com ele, pegaria Bonnie e suas coisas e iria embora.
Quando Dylan entrou, Tyler estava de quatro no chão, com Bonnie nas costas, agarrando a gola da camisa dele com uma das mãos, e erguendo a outra no ar, ao estilo dos domadores de cavalo.
E ela riu quando ele se ergueu, tomando todo o cuidado para não derrubá-la.
Sem dúvida nenhuma, ela era uma Creed. Graças a Deus era menina, ou provavelmente acabaria no circuito, arriscando a vida por um pouco de adrenalina e um incerto prêmio em dinheiro.
Dos três irmãos Creed, Tyler era o mais novo, o mais alto, e o que tinha o pavio mais curto. Seu cabelo era escuro como o de Cassie, e ele o usava cortado à altura da gola da camisa.
Ele virou a cabeça, viu Dylan e parou de se mexer. Tirando Bonnie cuidadosamente de suas costas, ficou de pé.
Seus olhos azul-escuros estavam gelados ao se esticar, atingindo toda a sua altura.
Quando criança, levara o maior jeito para a música, tanto que ela fluía das cordas de seu violão barato e de quase tudo que fazia. Contudo, com as bebedeiras de Jake e o suicídio da mãe quando ele ainda era jovem, algo havia morrido em seu íntimo e jamais revivera.
— Logan está querendo falar com você — disse Dylan, pois com Tyler até mesmo "olá" era terreno perigoso.
— Foi o que eu soube — Tyler respondeu. — É claro que estou me lixando.
Prometendo um biscoito para a menina, Cassie puxou Bonnie para a cozinha, depois dela lançar olhares preocupados de um irmão para o outro.
— Se está tentando me tirar do sério, Ty, vai ter que se esforçar mais. O que o traz de volta a Stillwater Springs?
— Estava prestes a lhe fazer a mesma pergunta — respondeu Tyler, virando-se para olhar quando a risadinha de Bonnie veio da cozinha. — Gracinha de menina — ele acrescentou e, por uma fração de segundos, seu olhar se suavizou, — Bonnie, não é?
— Isso mesmo — Dylan disse, aguardando a explosão.
Ele e Tyler já haviam tido vários arranca-rabos ao longo dos anos. A briga após o enterro de Jake havia sido apenas um deles. Algumas temporadas atrás, haviam se encontrado no mesmo rodeio, e a namorada de Ty, provavelmente querendo deixá-lo com ciúmes, havia se atirado para cima de Dylan.
Ele não mordera a isca, mas a namorada, Dylan não conseguia se recordar do nome dela, havia largado Tyler, passado a noite toda fora e alegado que estivera com Dylan, no seu quarto de hotel. Não era verdade, só que havia outra mulher compartilhando a sua cama e ele não curtia ménages à trois, mas Tyler, com seu eterno mau humor, não acreditou nele.
Teria havido uma briga, ali mesmo nos bastidores da arena no rodeio, se dez outros caubóis não houvessem se intrometido para apartá-los,
— Vou indo, agora — disse Tyler. — Só vim dar um alô para Cassie.
Dylan assentiu. Não fora só isso, é claro. Até onde sabia, Tyler não pusera os pés em Stillwater Springs desde que o xerife Book os soltara naquela manhã, após o enterro de Jake. Mas sabia que não arrancaria uma resposta do irmão.
— Até a vista — disse.
— Não se eu o vir primeiro — retrucou Tyler.
Quando crianças, havia sido uma brincadeira comum entre eles. Agora, Tyler estava falando sério.
Uma sensação desanimadora se apossou de Dylan. De qualquer modo, ele e Logan estavam se falando, embora ainda tivessem muito a resolver. Mas podia dizer que o mesmo não iria acontecer com Tyler.
Tyler era um lobo solitário e, obviamente, pretendia continuar assim.
— O que ele estava fazendo aqui? — Dylan perguntou a Cassie, na cozinha, após Tyler ter ido embora.
Lá fora, com um rugido, ele deu partida no utilitário. Ela estava sentada à mesa, com Bonnie no colo, habilmente colocando papinha na boca da menina.
— Por que não perguntou a ele? — foi a resposta de Cassie.
Há anos que a mulher vinha tentando promover a reconciliação dos três, fazer com que agissem como irmãos, e, apesar da falta quase total de sucesso, ainda parecia acreditar que isso pudesse acontecer.
— Acho que teria mais sucesso perguntando para o poste de totens da biblioteca — disse Dylan, abrindo a geladeira e pegando uma lata de refrigerante.
Antes de Bonnie, teria se servido de uma cerveja, mas como nunca se sabia quando teria de correr com uma criança para o pronto-socorro com alguma enfermidade súbita, achara melhor deixar a bebida de lado.
Cassie sorriu para si mesma.
— Você esteve na biblioteca? Dylan abriu a lata e deu um gole.
— Não sei se você está a par, mas eu sei ler. Quando criança, fui disléxico, mas aprendi a compensar.
— Não foi isso que eu quis dizer — Cassie disse, docemente.
Quantas noites ficara sentada com ele, repassando as "lições especiais" que lhe foram passadas após uma bateria de exames de leitura?
— Ah — disse Dylan. — É, vi Kristy, se é o que quer saber.
— E?
— Eu a vi.
— Puxa, não me sobrecarregue com tanta informação. Dylan suspirou.
— Eu a vi. Ela ainda está linda. Ainda leva jeito com crianças. Fim da história.
— Ou o começo — disse Cassie, sorrindo para Bonnie.
— Não vá tendo idéias — alertou Dylan, embora, em se tratando de Kristy, ele próprio já estivesse tendo idéias.
Cassie não poderia saber disso, a não ser que estivesse usando sua visão de raios X.
— Pobre Kristy — ela disse com um ar solene, até mesmo triste, franzindo a testa ao olhar por sobre a cabeça de Bonnie, além de Dylan, fitando um mundo invisível pelo qual apenas ela era capaz de navegar.
— O que quer dizer com "pobre Kristy"? — perguntou Dylan, sabendo que não deveria fazê-lo, mas preocupado demais para resistir.
Quando Cassie se preocupava com as pessoas, elas costumavam enfrentar problemas severos e imediatos.
— É que lhe faz falta um amigo, só isso. Não era só isso, claro.
Dylan pousou a lata de refrigerante na mesa com um ruído surdo. Ele a teria jogado fora, mas Cassie costumava reciclar.
— O que está acontecendo? — exigiu saber, baixinho. — Não teve outro de seus sonhos...?
— Não — respondeu Cassie. — Apenas sei dessas coisas. — Ela se animou. — Pode chamar de um velho truque indígena.
— Cassie — Dylan insistiu. — Conte-me.
— Vá vê-la — respondeu Cassie, fitando-o no rosto. — Ela está sozinha, na casa dela. Cuidarei de Bonnie. Eu lhe darei um banho e o jantar e a colocarei para dormir.
— Não posso simplesmente aparecer na porta dela, Cassie. O que vou dizer? "Oi, minha avó adotiva me mandou?"
— Você pensará em algo.
— Estava planejando levar Bonnie para o rancho.
— Isso pode esperar, Dylan. Não sei se o mesmo pode ser dito com relação a Kristy.
— Ela provavelmente vai dar com a porta na minha cara.
— Você é um menino grande. Lide com isso.
Dylan suspirou. Jamais havia levado muito a sério as supostas habilidades mediúnicas de Cassie, e ela certa vez admitira que dizia para as clientes de taro qualquer coisa que achasse que elas queriam escutar, mas havia ocasiões em que seus instintos passavam perto demais da trave para se ignorar.
Ele curvou-se, deu um beijo no topo da cabeça de Bonnie e foi embora.
Dez minutos mais tarde, estava batendo à porta de Kristy, ainda se perguntando o que diabos iria dizer para explicar sua presença ali.
Quando abriu a porta, ela estava usando calças velhas, uma camisa de homem e um bocado de tinta amarela.
E estivera chorando. Os olhos estavam inchados e as narinas avermelhadas nas bordas. Ver Kristy em lágrimas era arrasador, mas, pelo menos, até onde sabia, desta vez, não era a causa delas.
— Está tudo bem? — perguntou Dylan, abalado.
Dito como um verdadeiro mestre das palavras, pensou taciturnamente. Sempre fora capaz de resolver ou sair de qualquer situação na conversa, exceto quando tal situação envolvia Kristy Madison.
— Não — ela disse. Sua voz estava um pouco trêmula. Depois, ela se atirou para cima dele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços.
— Não!
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