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Capa do romance Dilan irmãos Creed livro 2

Dilan irmãos Creed livro 2

Dylan Creed é um caubói rebelde e sedutor que vê sua vida mudar drasticamente ao assumir a guarda da filha de dois anos. Sem saber como cuidar de Bonnie, ele retorna ao rancho em Montana decidido a encontrar uma mãe para a pequena. Lá, reencontra Kristy Madison, a bibliotecária que já teve o coração partido por ele. Enquanto Dylan busca estabilidade familiar, a antiga paixão ressurge, e Kristy está pronta para domar o homem que sempre amou.
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Capítulo 3

Bom Deus.

Deveria ser proibido por lei cheirar tão bem quanto Kristy cheirava, uma sedutora combinação de grama viçosa após uma pesada chuva de primavera, folhas queimando no outono, algum tipo de talco e solvente de tinta. Por um precioso instante, Dylan simplesmente a segurou nos braços, inspirando seu perfume, fechando os olhos bem apertados para resistir à onda de emoções que sentia.

Como a maioria dos momentos preciosos, aquele foi breve.

Kristy rapidamente estremeceu em seus braços, empurrando-se para trás, erguendo o queixo e fungando. A vulnerabilidade nos seus olhos azuis cor de centáurea transformou-se em desafio.

— Sinto muito — ela disse formalmente, como se ele fosse um desconhecido em quem ela esbarrara num aeroporto lotado, não o primeiro homem com quem fizera amor. — É só que, recentemente, tenho estado sob muita pressão e...

Dylan inspirou profundamente, deixou escapar um suspiro enquanto fechava atrás de si a porta da frente da casa de Kristy, e enfiou os polegares nas alças do cinto de sua calça.

— Kristy — disse. — Sou eu, Dylan. Algo aconteceu com você, ou não teria quase me derrubado na porta de sua casa.

Kristy deixou escapar um suspiro como resposta, e seus ombros normalmente retos desabaram de tal modo que Dylan sentiu um aperto no coração.

— Entre — disse ela, com o mesmo nível de entusiasmo que poderia ter demonstrado com um terrorista visitante usando um colete de dinamite.

Dylan não viu motivo para comentar que já havia entrado, simplesmente seguiu Kristy casa adentro, esperando ir dar na cozinha. Quando o povo de Springs tinha algo a discutir, ou simplesmente queria jogar um pouco de conversa fora, costumava reunir-se ao redor de uma mesa, com um bom bule de café e a geladeira à mão.

Ele visitara a enorme casa em estilo vitoriano, uma ou duas vezes, com o pai, quando Jake passava para receber algum contracheque atrasado do velho Turlow. Na época, o lugar lhe parecera escuro e opressivo. Mas Kristy o alegrara consideravelmente, com cortinas de renda e muitas paredes de amarelo-claro. O piso era de carvalho reluzente, provavelmente raspado até a própria madeira e, depois, reenvemizado. Isso também devia ser trabalho de Kristy. Ela gostava de muita luz e muito espaço, e costumava sonhar que, um dia, moraria na casa dos Turlow.

Isso só servia para mostrar que alguns sonhos podiam se tornar realidade.

Uma enorme escada de armar estava logo na entrada da cozinha. Kristy a rodeou e Dylan abaixou-se para passar por entre as pernas da escada.

— Café? — ela ofereceu. Dylan pôde notar o esforço no rosto dela, porém, não demorou muito, e Kristy não resistiu à tentação de acrescentar: — Não devia passar debaixo de escadas.

—- Isso e uma superstição boba — Dylan retrucou, com um sorriso. — E, sim, por favor, eu gostaria de um pouco de café.

— Não estava me referindo à superstição — insistiu Kristy, com ar de superioridade, ficando na ponta dos pés para pegar duas canecas de jogos diferentes de dentro do armário. — Coisas podem cair na sua cabeça, como um balde de tinta.

— Vejo que ainda está esperando que o céu lhe caia na cabeça.

Dylan sorriu, mas seu íntimo se retorcia de tensão, como um parafuso apertado além da conta. Ele se arrependeu daquelas palavras irreverentes assim que as viu se registrarem no rosto de Kristy. Por trás da tênue fachada de coragem, ela estava ruindo.

Talvez o céu estivesse mesmo caindo.

— Vai me contar o que há de errado — ele insistiu —, ou vou ter que saber pela internet?

O rosto dela ficou ruborizado. Serviu o café, levou as duas canecas até a mesa, e puxou uma cadeira com um movimento hábil de um dos pés.

— Pelo amor de Deus — disse irritadamente —, sente-se.

— Só depois de você — retrucou Dylan. — Sou um cavalheiro. Ante a resposta, Kristy fungou e largou-se na cadeira. Para piorar ainda mais a situação, revirou os olhos uma vez.

Dylan sentou-se na cadeira ao lado da dela, distraidamente acariciando o enorme gato que saltou para o seu colo.

— O xerife Book esteve aqui ainda há pouco — Kristy começou a dizer, com o cotovelo apoiado na mesa e o queixo descansando tristemente na mão.

— Continue — pediu Dylan.

Seus olhos se encheram de novas lágrimas.

— Ele acha que meu pai pode ter... pode ter matado alguém.

Surpreso, Dylan baixou a caneca que havia acabado de pegar e fitou Kristy por um instante, aguardando o final da piada. Tim Madison, um assassino? Impossível. O pai de Kristy fora um homem gentil, de fala mansa, trabalhador e generoso com o pouco que tinha.

Por outro lado, Jake Creed havia sido dono de um mau gênio lendário, e caso o xerife Book tivesse achado que ele havia apagado algum pobre sujeito, Dylan poderia ter acreditado. Embora não aceitasse bem críticas a Jake, ainda mais quando vinham de seus irmãos, no fundo jamais tivera ilusões quanto ao tipo de homem que o pai fora.

— Isso é loucura — disse, por fim.

Kristy voltou a fungar, experimentou um gole do café, fez uma careta e voltou a pousar a caneca sobre a mesa.

— Eu sei. Mas o condado vai mandar abrir a cova de Sugarfoot. Ele tentou amenizar o fato, mas Floyd claramente acredita que meu pai matou um homem, provavelmente por acidente, e o enterrou com... com...

Dylan queria expulsar o gato de seu lugar e puxar Kristy para o colo, oferecendo-lhe todo o consolo de que era capaz, mas não se moveu. Ela amava Sugarfoot, o seu antigo cavalo, com uma intensidade quase sagrada.

Do modo como não o amara.

Quando por fim ele falou, as palavras lhe arranharam a garganta como se houvesse engolido arame farpado enferrujado.

— Suponha que, de fato, encontrem um corpo na cova, além do de Sugarfoot? Seus pais já se foram, Kristy, assim como Sugarfoot. Isto não poderá fazer mal a nenhum deles.

Burro, burro, Dylan pensou no instante seguinte, passando os dedos pelo cabelo ao se ver tomado de frustração.

Talvez não pudesse fazer mal aos Madison, nem ao cavalo... mas poderia afetar Kristy.

Ela vivera toda a sua vida em Stillwater Springs ou em seus arredores. Era o lar dela, o único lugar onde já quisera estar, o que acabara sendo grande parte dos problemas entre eles, anos atrás. Ela era a perfeita dona do lar, ele, um arruaceiro e um caubói de rodeio com uma tendência a pegar a estrada.

Bem-vindo ao Hotel dos Corações Partidos. Kristy mordeu o lábio inferior, estendeu a mão manchada de tinta e a fechou sobre a de Dylan, esforçando-se para sorrir.

— Sei que não teve intenção de dizer o que disse — ela falou, com uma gentileza que chegou a feri-lo.

Crescendo com Jake e os irmãos, e depois montando no circuito profissional, estava acostumado à rudeza. Era capaz de ser gentil, especialmente com Bonnie, ou com um animal ferido ou perdido, mas ver-se alvo das gentilezas de outros era diferente, e extremamente perturbador.

Dylan pigarreou. Preparando-se para fazer outra tentativa, visto que era um Creed, e, por conseqüência, a persistência era uma de suas características mais marcantes. Mesmo quando isso significava afundar cada vez mais, ele era incapaz de parar de cavar.

— Por que nunca arrumou outro cavalo, depois de Sugarfoot? — ouviu-se perguntar.

Diabos, também não tivera a intenção de dizer isso. Simplesmente escapuliu de sua língua, antes que ele tivesse a chance de laçá-lo e amarrá-lo.

Um olhar distante e pensativo se fixou nos olhos mais azuis do que o azul de Kristy.

— Custa dinheiro manter um cavalo — ela disse, após um bom tempo. — Muito dinheiro. Bibliotecárias não costumam ganhar nenhuma fortuna, Dylan.

— Você comprou esta casa — argumentou Dylan.

— Recebi uma pequena herança quando minha tia-avó faleceu, um ano e meio atrás — disse Kristy, num tom de voz que dizia que ela não sabia por que estava lhe contando isto, visto que era pessoal. — Dei a entrada na casa e me mudei.

O gato havia ficado entediado. Tendo espalhado pelos brancos na camiseta de Dylan, devia ter achado que seu trabalho ali havia terminado. Agora, estava dando patadas em um ratinho de brinquedo no chão da cozinha.

— Você e o gato de sua tia-avó — murmurou Dylan, lembrando-se de como Kristy sempre quisera uma família grande e muitos bichinhos de estimação. Sendo filha única, ela sempre dissera que era solitária demais.

— Ah, Winston não pertencia à tia Millie — retrucou Kristy. — Ele era de Freida Turlow e, quando ela se mudou, após eu comprar a casa, ele começou a aparecer na porta nas horas mais diversas do dia e da noite. Desde então, Freida está aborrecida comigo, como se achasse que eu o seduzi para afastá-lo dela, ou coisa parecida.

Dylan lembrava-se claramente de Freida Turlow. Ela tentara seduzi-lo na noite de seu 16° aniversário e, se já não estivesse apaixonado por Kristy, poderia até ter aceitado a oferta.

— Freida está sempre aborrecida com alguém — comentou, mal se contendo de dizer em voz alta que, deparando-se com a opção de morar com a majestosa srta. Turlow ou com Kristy, ele teria feito a mesma escolha que o gato.

Os olhos de Kristy ficaram tristes. Por um instante, esquecera-se da possibilidade de um iminente escândalo, mas agora Dylan pôde perceber que a folga terminara.

— Se as suspeitas de Floyd se provarem verdadeiras, Freida vai ser a pior de todas — disse, com um ligeiro desespero.

— O que você fará se ele estiver certo? — Dylan arriscou-se a perguntar.

Ficou surpreso ao sentir tanta ansiedade para saber a resposta. Seria a maior das ironias se, justamente quando havia decidido aquietar-se, estabelecer-se no rancho e montar um lar para a filha, Kristy decidisse deixar a cidade para sempre.

— Não sei — ela respondeu. — Acho que.,. Acho que poderia estragar tudo... A casa, meu trabalho na biblioteca... — Ela se interrompeu e fez outra tentativa de se explicar: — Sabe como são as cidades pequenas, Dylan. Já foi ruim quando meus pais morreram com uma diferença de menos de um ano, e o rancho foi tomado devido a dívidas e impostos atrasados. Todo mundo sentiu pena de mim. As pessoas jamais deixariam uma história dessas morrer, e não sei se conseguiria enfrentar novamente toda aquela pena e fofoca.

Toda aquela pena e fofoca.

Kristy deu a impressão de querer voltar atrás naquelas palavras, engasgar-se com cada uma delas antes de proferi-las novamente. Dylan supunha que devia ter havido muita fofoca quando ele voltou para Stillwater Springs para lhe pedir que esperasse por ele, alguns meses após o rompimento, depois do enterro de Jake, e ela esfregou no seu nariz o enorme anel de noivado de Mike Danvers, e basicamente lhe disse para dar o fora. Contudo, sempre supusera que qualquer porção de pena houvesse sido reservada para ele.

Fora um dos motivos para ficar fora durante tanto tempo. Quando ainda era um menino esfarrapado, com o notório Jake Creed por pai, fora alvo de toda a pena que poderia suportar. Cestas de caridade deixadas na porta da frente no Natal, Dia de Ação de Graça e Páscoa. Beatas de igreja bem-intencionadas lhe oferecendo as roupas usadas dos filhos. E todo o resto.

Contudo, a maior das razões havia sido a própria Kristy.

Ele já montara os touros mais malvados do circuito de rodeios. Já havia machucado as mãos e quebrado o nariz em inúmeras brigas de bar, e estava pensando nas que vencera, porém sabia que ver Kristy cuidando de seus afazeres de esposa pela cidade, pegando correspondência no Correio, empurrando um carrinho pelo supermercado, mais cedo ou mais tarde engravidando do filho de outro homem, seria o suficiente para destruí-lo.

De modo que, com exceção de breves visitas, quando trouxera seu touro, Ciraarron, de volta para o rancho, sem saber o que fazer com ele, e contratara Briana Grant, agora Creed, para cuidar de sua casa vazia, ele ficara o mais longe possível.

Bonnie, e o fato de Logan ter lhe contado, durante sua última visita, que Kristy ainda estava solteira, haviam mudado tudo.

Aceitar tudo isso ainda demoraria um bocado.

E agora podia haver um corpo se decompondo na antiga propriedade dos Madison.

Seu café havia esfriado, mas como a conversa tinha morrido, e ele não sabia o que fazer para avivá-la novamente, ele tomou um gole da bebida.

Aí estava outra coisa que não havia mudado. O café de Kristy ainda era horrível. Ele sorriu ante o pensamento.

— Fale-me de sua filhinha — disse Kristy e, pelo modo como fez o pedido, ele soube que ela vinha reunindo coragem para fazê-lo durante o silêncio.

— Você provavelmente deve saber tanto a respeito dela quanto eu — Dylan admitiu, — Ela tem 2 anos de idade. Seu nome é Bonnie. Ela gosta que leiam para ela em voz alta.

Kristy pareceu relaxar um pouco, embora ainda pudesse perceber uma tensão no ar.

— Posso supor que a mãe dela não esteja mais na jogada?

— Só Deus sabe onde está Sharlene — disse Dylan, suspirando. Ele fitou Kristy nos olhos e não desviou o olhar. — Sharlene foi um erro, não há como negar. Mas Bonnie, bem, ela é a prova de que algo de bom provém de qualquer situação.

Qualquer situação que não um túmulo de cavalo em um matagal tranqüilo, acrescentou a voz na cabeça dele. Agora que tivera a chance de pensar um pouco, sabia instintivamente que o xerife e seus homens encontrariam algo além dos ossos de Sugarfoot quando cavassem o buraco.

O sorriso de Kristy foi triste.

— Eu o invejo — disse.

Mais uma vez, Dylan foi pego de surpresa. Esquecera-se da capacidade de Kristy de surpreendê-lo, uma das coisas que mais amava nela.

— Por quê? — perguntou, sinceramente confuso.

— Porque tem uma filha — ela disse lentamente, e com uma divertida paciência.

— Só torço para que possa ficar com ela — ele respondeu.

A preocupação de que Sharlene pudesse mudar de idéia e tomar Bonnie de volta jamais abandonava os recônditos escuros de sua mente, e ameaçava se apossar de Dylan quando este menos esperava.

Kristy ergueu uma das sobrancelhas, aguardando.

— Assim que Logan voltar de Vegas, vou dar entrada no pedido de custódia plena — ele explicou. — Até então, estou mais ou menos ao sabor da maré.

Ele estudou Kristy, lembrando-se... não, lembrando-se não era a palavra certa, já que, em primeiro lugar, não havia esquecido... como era bom tê-la novamente nos braços.

— Você não a... roubou, roubou?

— È a segunda pessoa que me pergunta isso — retrucou Dylan. — Não, não seqüestrei minha filha. Sharlene a deixou na minha caminhonete enquanto eu estava dentro de alguma espelunca em Las Vegas, jogando pôquer, junto com um bilhete dizendo que não podia mais cuidar dela.

Kristy ficou boquiaberta.

— Ela deixou uma criança sozinha numa caminhonete?

— Ela estava em algum lugar por perto, de olho.

Como se isso fizesse alguma diferença. Dylan provavelmente jamais saberia o que Sharlene teria feito se ele não houvesse encontrado Bonnie. Mesmo que um dia viessem a ter uma conversa racional, era pouco provável que Sharlene fosse ser sincera e franca.

— Ah, sim — Kristy disse, ceticamente. — Isso muda tudo.

— Sharlene não é a pessoa mais esperta que já conheci — admitiu Dylan. — Mas, do jeito maluco dela, acho que estava fazendo o que achava ser melhor.

Kristy recolheu um pouco as garras e voltou a suspirar.

— Se estava se sentindo sufocada com as responsabilidades de criar Bonnie, por que não ligou para você e pediu ajuda?

Dylan não gostou da resposta que lhe veio à cabeça, e gostou ainda menos de dizê-la em voz alta.

— Ela provavelmente achou que eu diria não, e não quis me dar essa chance.

Um breve silêncio se seguiu, durante o qual Kristy fitou Dylan intensa e demoradamente.

— Você teria dito não? — por fim, ela perguntou.

— É claro que não — ele disse, um pouco ofendido. — Bonnie é minha filha.

— Com licença — Kristy contra-argumentou. — Mas conheço sujeitos que teriam se casado com a mãe de suas filhas.

Fácil assim, ela o deixara irritado. Era outra coisa que havia esquecido sobre Kristy, seu dom de tirá-lo do sério.

— Eu não amava Sharlene — ele disse, com seriedade —, e ela, com certeza, não me amava.

— Algum dos dois amava Bonnie?

Dylan teve de descerrar os dentes antes de responder.

— Jamais deixei de mandar o cheque da pensão — disse.

— Muito nobre de sua parte. — Kristy o desafiou, dobrando um dos joelhos e sentando sobre a perna, que era outra coisa que ele se lembrava a respeito dela. A testa da moça estava franzida e seus olhos ligeiramente estreitados. — Alguma vez viu Bonnie, antes de encontrá-la em sua caminhonete? Cuidou dela quando seus dentes estavam nascendo, ou ela estava gripada? Por acaso carrega a foto dela na carteira?

— Sim — rosnou Dylan, inclinando-se um pouco à frente. — Eu via Bonnie sempre que conseguia alcançar Sharlene. Não, não estava lá quando os dentes dela nasceram, nem quando estava gripada. — Ergueu-se, tirou a carteira do bolso de trás da calça e a abriu para mostrar a foto 3x4 da única pessoa que tinha certeza absoluta de que amava, no mundo todo. A mãe de Sharlene me enviou isto — ele completou, surpreso com a própria fúria. Afinal de contas, nada disso era culpa de Kristy, pelo menos, não diretamente. — Junto com a conta da plástica nos seios que Sharlene fez. Ao que parece, as duas acharam que ela teria mais chances de conseguir um marido com um belo par de faróis altos.

Kristy enrubesceu.

Dylan não se importou. Se ela queria pegar pesado, tudo bem.

— Você pagou.

Por um instante, Dylan não soube ao certo se havia escutado a pergunta direito.

— O quê?

Um sorriso provocante se esboçou nos cantos da boca sensual e altamente beijável de Kristy.

— Você pagou a conta da plástica nos seios?

— Não. Ela riu.

E, depois, surpreendentemente, ele também riu.

— Seu café ainda é horrível — disse Dylan.

— E você ainda se deixa tirar do sério com facilidade demais.

— Deixo mesmo?

— Deixa.

Ele precisava ir embora, apanhar Bonnie na casa de Cassie e levá-la para o rancho. Mas, primeiro, precisava ter certeza de que Kristy ficaria bem.

Avistou um pequeno quadro-negro na parede ao lado da porta dos fundos. A lista de compras de Kristy estava nele, com sua letra de bibliotecária, firme e cheia de curvas, e Dylan cruzou a cozinha até lá, pegou um pedaço de giz gordinho, e rabiscou o número de seu celular em baixo de brócolis.

— Ligue para mim — disse para Kristy, virando-se para vê-la retirar as canecas de sobre a mesa, com movimentos rápidos e eficientes. — Caso precise de qualquer coisa.

— Não vou — ela respondeu. — Quero dizer, precisar de alguma coisa.

A teimosia, o orgulho dela. Ele estava começando a se lembrar de tudo.

— Por que não se casou com Mike? — perguntou ele.

Sentiu que merecia essa pergunta. Afinal de contas, a vida era um toma lá, dá cá.

Ela suspirou e se voltou para ele. Ele podia dizer que Kristy estava fazendo um tremendo esforço para fitá-lo nos olhos. — Caí na real — ela disse. O que diabos ela queria dizer com isso?

— Mike é um bom homem — ela prosseguiu, quando Dylan nada disse. Embora houvesse entrado pela porta da frente, estava na dos fundos agora, com uma das mãos na maçaneta. — Ele merecia ser feliz.

— Ele me parecia um bocado feliz naquela noite em que encontrei vocês dois na taverna do Skiwie.

A imagem tomou conta de seus pensamentos. Podia muito bem estar de volta naquele bar escuro, observando Mike e Kristy dançando ao som da música lenta que tocava na vitrola automática, Kristy certificando-se de que Dylan visse muito bem o diamante que brilhava em sua mão esquerda. Podia sentir a serragem e as cascas de amendoim sob as solas das botas, sentir o cheiro de cigarro e de cerveja.

— Eu o estava usando — admitiu Kristy, sem rodeios. — Quando me dei conta disso, rompi o noivado. Alguns meses mais tarde, ele casou-se com Julie. Fim da história.

Fim da história? Após aquela noite na taverna, Dylan havia deixado Stillwater Springs, seus pneus levantando cascalho, jurando jamais voltar a pôr os pés em sua cidade natal. Passara a maior parte daquele ano afogando as mágoas em uísque barato, evitando cobradores e dando as costas à única coisa na qual era realmente bom: montar touros.

Na verdade, provavelmente teria bebido até a morte se um velho amigo, um palhaço de rodeio aposentado chamado Wiley, não o houvesse segurado pela gola da camisa, certa noite, após pagar a sua fiança para tirá-lo da cadeia, e ameaçado ligar para Logan se Dylan não desse um jeito em sua vida rapidamente.

Kristy não era a única que tinha orgulho. Embora ele e Logan ainda estivessem estremecidos na época, Dylan sabia que o irmão mais velho o acharia e provavelmente o internaria na clínica de desintoxicação mais próxima. Não desejara que Logan o visse no fundo do poço. Sendo assim, deixara de lado a bebida, exceto pela cerveja ocasional, ficara sóbrio e voltara para o circuito de rodeios tão logo arrumara dinheiro para fazer a inscrição.

Mas nada disso era da conta de Kristy.

— Obrigado pelo café — disse e foi embora.

Dylan era muito bom em ir embora. Muito bom em ir embora.

Kristy ajeitou as canecas na pia por alguns instantes, depois decidiu lavá-las mais tarde, quando não estivesse propensa a quebrá-las. O que ela estava esperando?

Bem, com certeza não estava esperando que ele fosse aparecer na sua porta da frente naquela noite, isso era certo. E, se alguém houvesse lhe dito que ela... bem, se atiraria em cima dele do modo como fez, ela teria dito que a pessoa estava louca.

O mais difícil de encarar era a noção de que, se ele a houvesse beijado, ela teria deixado Dylan fazer amor com ela, ali mesmo na entrada da casa.

O pensamento a deixou toda arrepiada. E ansiosa.

Levando em conta a freqüência com que faziam amor, quando ainda estavam juntos, era de se surpreender que ela não houvesse engravidado.

As coisas teriam sido tão diferentes se houvesse sido ela a conceber o filho de Dylan Creed, e não esta tal de Sharlene, com seu silicone nos seios.

Seu olhar voltou-se para o quadro-negro e o número do celular de Dylan, escrito com força e às pressas e tombando para a direita. Como se ela fosse ligar para ele, mesmo que dez ladrões invadissem a casa e, ainda por cima, esta estivesse em chamas.

Ela marchou até o quadro-negro, e, decididamente, apagou o giz azul com a palma da mão, deixando para trás uma mancha comprida.

Contudo, apagar os números não adiantara muito.

Este já estava fixo em sua memória, como as letras do antigo letreiro sobre o portão do rancho Stillwater Springs.

Ela encostou a testa no quadro-negro.

E as lágrimas voltaram. Mais uma vez.

Ela já perdera tanto: os pais, Sugarfoot, o rancho Madison, o lar e a família que ela e Dylan poderiam ter compartilhado, caso não houvessem sido tão esquentados.

Winston se enroscou ao redor de seus tornozelos, miando com incerteza, e uma lágrima pingou na cabeça dele. O gato olhou para cima, com curiosidade, tentando descobrir se estava chovendo.

A expressão dele fez Kristy rir.

E rir a fez endireitar os ombros, secar as faces com as costas de uma das mãos e se recompor.

Talvez fosse um tremendo escândalo quando o xerife Book abrisse a cova de Sugarfoot.

Talvez Dylan Creed houvesse voltado de vez para a cidade, com a filha, o sorriso malicioso e o corpo fatal para as mulheres.

Ela não era nenhuma frangota assustada, e estava acostumada com problemas.

Fosse lá do que pudesse aparecer em seu caminho, ela arrumaria um jeito de lidar. De algum modo.

A primeira noite na casa do rancho foi insone para Dylan, e não só porque passou metade dela tentando consolar Bonnie, que começara a chamar a mãe durante o lanche que fizeram para o jantar e só parará quando adormecera em seu peito, após um último suspiro soluçante.

Sentado no sofá surrado, que, como a cama e a mesa da cozinha, havia estado lá desde que o último Creed, seu tio-avô Mick, havia morado e morrido ali, com o queixo apoiado sobre a cabecinha coberta de suor de Bonnie, Dylan sentiu-se verdadeiramente desesperado.

Não esperava que criar uma criança fosse fácil, não era isso. Agora que a novidade de ficar com ele estava passando, Bonnie estava sentindo a falta de Sharlene, e provavelmente isso só tenderia a piorar.

Você é um sujeito durão de verdade, Creed, disse para si mesmo, silenciosamente. Quando Bonnie começara a chorar e gritar, ele mesmo teve vontade de chorar com ela. Em pânico, quase ligou para Cassie, pronto para implorar ajuda.

Cassie? A quem estava querendo enganar?

Queria mesmo era ligar para Kristy.

Mas quando diabos é que Logan e Briana iam voltar mesmo de sua maldita lua de mel? Briana era mãe, e uma boa mãe, pelo que pudera ver, e ela, com certeza, saberia o que se devia fazer quando uma criança começava a chorar e não parava.

A batida na porta o sobressaltou.

Tomando cuidado para não acordar Bonnie, ele ficou de pé e a carregou consigo através da cozinha, cruzando a marca escura no piso, gasto por décadas de pés passantes. Tyler o fitou através do vidro. Dylan franziu um pouco a testa, depois assentiu. Tyler entrou.

— Aquele touro velho no pasto é seu? — perguntou, como se jamais houvessem trocado palavras duras, muito menos socos.

— É — Dylan sussurrou. — O que sabe a respeito de crianças? Tyler sorriu.

— Só que essa aí é uma das mais bonitinhas que já vi.

Bonnie estremeceu de encontro ao peito de Dylan, choramingando um pouquinho. Mesmo através da camisa, o rosto dela parecia quente de encontro ao ombro dele. Ele a carregou até o quarto e a depositou cuidadosamente na cama, certificando-se de que a boneca de borracha manchada de tinta com o cabelo em pé estivesse ao alcance dela, e voltou silenciosamente para a cozinha.

Quando lá chegou, Tyler já estava revirando os armários.

— Não tem uísque? — perguntou.

— Hoje em dia, só bebo cerveja — respondeu Dylan baixinho, tentando imaginar o motivo da inesperada visita. Apostaria cinco contra dez que não era uma visita social. — Na geladeira.

Tyler abriu a porta da geladeira e recuou como se houvesse encontrado uma cascavel pronta para atacar lá dentro.

— Da marca mais barata?

— Cerveja é cerveja. E fale baixo, está bem? A menina berrou sem parar por três horas, e provavelmente vai começar novamente se você a acordar.

Tyler pegou uma lata de cerveja do pacote de seis e a abriu. Era impossível interpretar a expressão de seu rosto.

— Ela está doente ou coisa parecida?

— Não sei. Sua testa me pareceu quente, quando eu a estava segurando, ainda há pouco.

O incompreendido caubói cantor desapareceu. Tyler parecia alarmado. Ele deixou de lado a cerveja. Afinal de contas, era mesmo de marca barata, e seguiu para o quarto, onde curvou-se sobre Bonnie, levando as costas dos dedos à face da menina.

Ele franziu a testa, olhando para Dylan, que estava parado na entrada do quarto.

De volta à cozinha, Tyler disse:

— Acho que ela está com febre. Você tem aspirina infantil?

— Não — disse Dylan, mais apavorado do que queria dar a perceber ao irmão. — Ela estava triste, antes. Como eu disse, ela chorou um bocado. Provavelmente é apenas isso.

— Por que ela estava chorando? — Tyler exigiu saber, como se achasse que Dylan tivesse beliscado a menina, ou coisa parecida.

— Ela queria a mãe — respondeu Dylan.

Tyler não era a maior das ajudas, mas era melhor do que nada.

— Ah — o irmão caçula disse, voltando a pegar a lata de cerveja, e dando um gole.

— É, ah — Dylan disse, irritado.

— Ainda acho que deveríamos levá-la ao médico.

— Puxa, toda essa preocupação. É quase como ter um irmão.

Tyler franziu a testa, zangado.

— Vou até a cidade comprar aspirina infantil — ele disse. — Quando estiver lá, perguntarei ao farmacêutico se ele acha que Bonnie precisa de atenção médica.

Contra a própria vontade, apesar de tudo que havia acontecido entre ele e Tyler ao longo dos anos, Dylan sentiu um súbito alívio, e algo muito parecido com afeição. Estava engolindo em seco, quando Tyler, seguindo para a porta, prosseguiu:

— Eu já volto.

Poucos instantes depois, Dylan escutou o veículo do irmão dando a partida lá fora.

Ele voltou a dar uma olhada em Bonnie. Apesar de poder ter jurado que ela, de fato, estava com febre, achou melhor ficar andando de um lado para o outro na sala, de modo a não lhe incomodar o sono.

Quando Tyler voltou, 45 minutos mais tarde, trouxe a aspirina infantil, xarope contra tosse, um bichinho de pelúcia de origem indeterminada e um termômetro digital.

— Se isto aqui marcar mais de trinta e oito e meio, de acordo com o farmacêutico, Bonnie deve ser levada para o pronto-socorro.

Dylan franziu a testa, examinando o estranho bastão de plástico na sua alegre embalagem verde.

— Onde esta coisa... vai?

Tyler riu. Ele representava uma imagem e tanto, de pé ali na cozinha de Dylan, com sua preocupação de tio. O caubói durão, despejando sobre a mesa o cachorrinho de brinquedo, se é que é isso que o bicho era, o frasco de aspirina e um vidro de xarope para tosse infantil.

— Na orelha dela, cérebro de minhoca — disse.

— Ah — Dylan disse, estreitando os olhos para ler as instruções na embalagem.

Tyler tomou a coisa toda de suas mãos.

— Me dê isso aqui — disse em seguida. — Bill, o farmacêutico, me explicou como usar.

— Ótimo — disse Dylan.

— Esbarrei em uma amiga sua enquanto estava na drogaria — comentou Tyler. — Talvez você tenha companhia a qualquer minuto.

— O quê? — exclamou Dylan, ficando irritado de novo.

Tyler sorriu, voltando a vasculhar o interior da sacola da farmácia, retirando um pacote de lenços umedecidos esterilizados. Maldição, ao que parecia, o velho tio Ty havia pensado em tudo.

— A coisa precisa ser esterilizada — ele disse.

— Quem...?

Tyler esfregou bem o termômetro, livrando-se de todos os incômodos germes de Dylan, e foi até Bonnie.

— Trinta e sete — anunciou em tom de voz baixinho porém triunfante, após, com gentileza, enfiar a ponta do termômetro no ouvido direito de Bonnie. — Ela provavelmente está bem.

De súbito, Dylan sentiu-se inexplicavelmente territorial.

Bonnie era sua filha. Deveria ter sido ele a lhe tirar a temperatura.

Como se em resposta direta ao seu pensamento, ela acordou naquele exato instante, olhou ao redor, e, depois, deixou escapar um gritinho agudo, seguido de um melancólico:

— Mammãàããeeee!

— Vejo o que quis dizer — Tyler disse.

Dylan vagamente escutou a batida na porta. Ele tentou pegar Bonnie nos braços, mas ela se debatia como se houvesse sido criada por lobos.

Naquele instante, Kristy entrou no quarto, como uma deusa vingadora, e tomou Bonnie nos braços.

— Pronto, pronto — murmurou, acariciando as costas de Bonnie. Aos poucos, muito aos poucos, o silêncio foi tomando conta do quarto. — Eu estou aqui, minha querida. Eu estou aqui. Tudo vai ficar bem.

Por sobre a cabeça de Bonnie, Kristy lançou um olhar para Dylan do tipo: "O que diabos estava fazendo com ela?"

— Ela estava sem areia para a caixinha do gato — explicou Tyler.

— Ha? — Dylan perguntou, ofendido com o olhar de Kristy, mas, ao mesmo tempo, muito aliviado por ela estar ali.

— Foi por isso que esbarrei com Kristy na drogaria. Ela passou lá para comprar um pouco de areia para a caixinha do gato.

— Podia ter me avisado — rosnou Dylan, depois que Kristy já havia carregado Bonnie para fora do quarto.

— Ah, diabos — Tyler respondeu, presunçosamente. — Aí, não teria tido graça nenhuma.

CAPÍTULO CINCO

Algo aconteceu com Kristy enquanto ela segurava a filha de Dylan, ali na velha casa de rancho, naquela noite de verão quente. Algo sagrado, inexplicável e eterno, o tipo de mudança que acontece uma ou duas vezes na vida, se tanto. A um nível quântico, foi como o encontro e a fusão de dois universos em rota de colisão.

Bonnie também pareceu sentir. Ela olhou para Kristy com os olhos arregalados e surpresos, depois, jogou os bracinhos ao redor do pescoço da moça e se agarrou como se sua vida dependesse disso.

— Mamãe — disse.

Kristy não teve coragem de corrigir a criança. Por sobre a cabeça de Bonnie, seu olhar se encontrou com o de Dylan. Ela viu seu queixo se cerrar e uma tempestade azul brotar em seus olhos.

— Você está com giz na testa — ele disse.

Ainda lidando com o próprio caos interno, Kristy simplesmente o fitou, sem compreender.

— Acho que vou voltar para o chalé — disse Tyler.

Kristy mal escutou, teve apenas a mais vaga das sensações do rapaz deixando a cozinha da casa e saindo para o mundo escuro além da porta, enquanto ela, Dylan e Bonnie permaneciam onde estavam, como os sobreviventes atordoados de um impacto de meteoro. Tão móvel quanto uma estátua de pedra, Kristy nem sequer conseguia engolir, quanto mais falar.

Dylan rompeu o encanto, adiantando-se e estendendo os braços para Bonnie.

Uma resistência visceral de mãe loba tomou conta de Kristy, quase dolorosa de tão intensa, mas Bonnie era a filha de Dylan, não dela. De qualquer modo, ainda era racional o suficiente para saber isso.

De modo que entregou a menininha. Parecia que uma parte vital dela estava sendo arrancada.

Dylan murmurou para a filha, agora adormecendo de encontro ao seu ombro, e a carregou de volta para o quarto. Como se puxada por um cordão umbilical invisível, Kristy os seguiu.

Por um milagre, Bonnie adormeceu quase imediatamente, talvez exausta de tanto gritar.

Kristy, lentamente retornando a um estado que se assemelhava a normalidade, encontrou o banheiro e fitou o próprio reflexo no espelho sobre a pia. Uma grande mancha de giz azul marcava a testa, de quando ela encostara no quadro-negro na sua própria cozinha, mais cedo naquela mesma noite, como a marca de algum primitivo ritual de iniciação.

Ela abriu a torneira de água, enxaguou as mãos e lavou o giz do rosto.

Quando retornou à cozinha, Dylan estava lá, servindo café. Ele parecia exausto e sério.

— Eu estava apenas tentando ajudar — disse Kristy sem se desculpar, lembrando-se da expressão do rosto dele quando estendera as mãos para pegar Bonnie, há poucos minutos.

Ele sorriu debilmente, erguendo a caneca de café em um brinde pouco entusiasmado.

— Eu sei — disse, com a voz rouca. — E agradeço.

Kristy estava louca para perguntar se ele sentira o mesmo que ela, quando estava segurando Bonnie nos braços, mas não ousou fazê-lo. Por que ele haveria de ter sentido alguma coisa, parado a vários metros de distância?

— Você pareceu muito zangado — ela arriscou, após vários instantes reunindo coragem. — Quando Bonnie me chamou de mamãe.

— Não estava zangado — disse Dylan, estendendo uma xícara para Kristy. Estava frustrado, apavorado. — Ao que parece, não sou muito bom nesta coisa de pai.

Kristy viu a vulnerabilidade no olhar e na sua fisionomia, e ficou comovida. Jamais soubera de Dylan Creed ter medo de alguma coisa, ou de duvidar de si mesmo, quanto a nada. Mas uma menininha foi capaz de mudar isso.

— Dê uma chance a si mesmo — ela disse, aceitando o café oferecido. — Ainda é novo nisso.

— Quando ela grita por Sharlene desse jeito — Dylan começou, dando-lhe as costas para fitar a noite escura através da janela acima da pia. — Acaba comigo.

Kristy teve vontade de cruzar o recinto e pousar as mãos nas costas firmes e musculosas de Dylan, mas se conteve. As coisas estavam loucas demais. Sentia-se atordoada e confusa. Estava na beirada de algo monumental e perigoso, e um movimento errado a faria cair no precipício.

Ele virou-se, fitando-a, e ela sentiu outra mudança, quase tão surpreendente quanto a primeira. O que estava acontecendo ali?

Se deixasse a casa, será que encontraria o mundo mudado, as estrelas em lugares diferentes, a lua preenchendo a maior parte do horizonte em vez de mover-se como um pequeno balão sobre o contorno das montanhas?

Parecia alarmantemente possível.

— O que faço, Kristy, na próxima vez em que Bonnie chamar a mãe? E na vez seguinte? O que é pior, o que faço quando Sharlene a quiser de volta?

Ela colocou a caneca de café sobre a mesa e caminhou até Dylan, ignorando aquele algo incendiário que se espalhava pela atmosfera, pronto para explodir ante a menor das fagulhas. Pousando as mãos no antebraço dele, Kristy inclinou a cabeça para lhe fitar o rosto aflito.

— Você consegue fazer isso, Dylan — disse, baixinho. — Está apenas cansado e um pouco sobrecarregado, só isso.

Ela lhe beijou a testa, rápida e gentilmente. Fagulhas!

Apesar do perigo, Kristy encostou a cabeça no ombro de Dylan, envolvendo a cintura esbelta do caubói com os braços, sem apertar. Suspirou, porque era bom demais estar novamente tão perto de Dylan. Ele era maciço e quente, duro e forte, e quando a abraçou, foi como se Kristy houvesse voltado para casa. A cura do que estava quebrado em seu interior, a correção de erros antigos e esquecidos, uma ligeira e doce bênção.

Ela enfim entendeu.

Ainda amava Dylan Creed. Provavelmente, jamais havia deixado de amar.

Ao se dar conta disso, sentiu a garganta se fechar e lágrimas de desespero começarem a lhe arder nos olhos. E, inteiramente fraca, sentindo toda a sua força de vontade evaporar, apoiou-se nele.

Ele a sentiu estremecer e, com o dedo sob o queixo dela, ergueu-lhe o rosto, de modo que Kristy tivesse de fitá-lo.

— Acho que estamos com um tremendo problema aqui — ele murmurou.

— Eu também — retrucou ela. — Eu também.

Ela viu uma variedade de emoções passarem pelo rosto de Dylan, como reflexos na água. Depois, o abraço dele se afrouxou, e ele a segurou um pouco afastada de si, com as mãos em seus ombros.

— Vá para casa, Kristy — disse Dylan. — Se ficar aqui mais tempo, vamos acabar na cama. E não acho que você esteja pronta para isso. Talvez eu também não esteja.

Por mais difícil que pudesse ser, Kristy sabia que ele tinha razão, quanto a tudo. Suas próprias emoções estavam à flor da pele, e qualquer decisão que tomasse naquele estado poderia ter conseqüências extremas.

Sendo assim, mordeu o lábio inferior e assentiu, lentamente.

Antes de partir, queria dar uma última olhada em Bonnie, mas talvez não conseguisse ir embora, se o fizesse. De modo que seguiu para a porta dos fundos, Dylan caminhando atrás dela, e desceu os degraus da varanda. Quase correu na direção da Blazer, que a aguardava no escuro, sua bolsa ainda no banco de trás, junto com a areia para o gato que havia ido comprar, e as chaves ainda penduradas na ignição.

Ela provavelmente havia deixado o motor ligado quando chegou, e Tyler devia ter desligado quando foi embora.

Assim que ela estendeu a mão para abrir a porta do motorista, Dylan a segurou pelo braço, virando-a para si.

E ele a beijou, súbita e profundamente, e com tanta intensidade que ela quase se derreteu. Quando ele terminou, Kristy olhou para cima e para o lado, atordoada demais para fitá-lo nos olhos. Acima de suas cabeças, estrelas pareciam se chocar em indistintas explosões prateadas.

Dylan pousou uma mão em cada uma das faces de Kristy, forçando-a a olhar para ele.

— O... O que foi isso? — ela perguntou abalada, assim que recuperou o fôlego.

— Eu pedi que fosse embora — ele respondeu, a voz rouca como cascalho seco em uma estrada do interior curtida pelo sol. — E foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Ainda acho que é a coisa certa a se fazer, mas isso não significa que seja o que eu quero. Preciso que saiba disso, Kristy.

Por mais complicada que fosse a explicação, Kristy a entendeu, porque era exatamente o que estava sentindo. Ela queria ficar, entregar-se completamente a Dylan, e na manhã seguinte poderia ir para o inferno.

— Você... Você me liga, se Bonnie precisar... A voz na cabeça de Kristy a interrompeu. Se Bonnie precisar de você?

Caia na real, Madison. Você não é a mãe dela, e nada vai mudar isso.

— Eu ligo — prometeu Dylan, bruscamente. — Agora, vá, Kristy. Eu a quero muito, e não vou conseguir me controlar durante muito tempo.

Ao mesmo tempo alegre com as palavras dele e profundamente ciente de que estava pisando em terreno muito perigoso, Kristy sentou atrás do volante da Blazer. Por mais estranho que pudesse parecer, não pôde deixar de notar o vazio do interior impecável do veículo, não havia nenhuma cadeirinha de bebê presa no banco de irás, nenhum brinquedo espalhado pelo chão, nenhum copinho com tampa no console. Nada de listas de compras ou correspondência, nada além da sua bolsa.

Era definitivamente o carro de uma bibliotecária solteirona. Ah, como gostaria da gloriosa bagunça de uma vida movimentada e feliz.

Dylan lentamente fechou a porta, recuou um passo, acenando quando ela olhou para trás mais uma vez antes de seguir com a Blazer para casa.

Não que não gostasse do seu trabalho, ou da enorme tela de pintor que era a sua casa. Antes de Dylan, antes de Bonnie, Kristy havia sido capaz de se convencer de que era o bastante.

Agora, tinha certeza de que não era.

Queria ser esposa e mãe, assim como bibliotecária. Droga, ela queria ter uma vida sexual.

Dirigindo através da noite escura, Kristy baixou o vidro da janela.

Não estava preparada para voltar para a cidade, muito embora soubesse que Winston esperava por ela. De modo que fez a volta conhecida, quando alcançou a caixa postal vermelha tombada com o nome Madison desbotado, a ponto de ser quase invisível, escrito na lateral. Ela sacolejou pela esburacada estrada de acesso, inspirando profundamente quando os faróis iluminaram a velha casa, há muito abandonada, na qual ela crescera.

O celeiro enfim havia tombado sobre si mesmo, e o pátio e os canteiros, outrora o orgulho de sua mãe, estavam cobertos de ervas daninhas.

O sentimento de perda acometeu Kristy com força total, de maneira tão recente como se esta houvesse acabado de acontecer.

Ela passou pela casa, sacolejando pelo pasto, seguindo na direção de um agrupamento de árvores onde Sugarfoot e, talvez, a vítima de um assassinato estavam enterrados.

A mais tênue das lembranças perturbara sua mente, trancada a sete chaves, porém, lutando para se libertar.

Será que ela vira alguma coisa, escutara alguma coisa, naquela noite tão distante?

O pensamento lhe embrulhou o estômago, e uma enxaqueca ameaçou começar. Ela inspirou profundamente, até sentir aliviar a sensação agourenta.

Desligando a Blazer, ficou sentada por alguns instantes com os olhos fechados, tentando se recordar. Tentando não fazê-lo.

A velha casa era pequena. Se tivesse acontecido um desentendimento entre o pai e aquele andarilho, como ela poderia ter deixado de saber? Como a mãe poderia ter deixado de saber?

Ainda assim, nada lhe veio à cabeça.

Ela desceu do carro, caminhando na direção da cova de Sugarfoot.

Era um caminho que fizera com freqüência durante os últimos anos, nas mais variadas horas do dia ou da noite. Ela não deixou de se dar conta de que raramente visitava os túmulos dos pais, exceto nos aniversários de cada um, no Dia de Finados, e, às vezes, durante a semana do Natal.

Já aceitara a morte deles, pelo menos, conscientemente. Sabia que as almas de Tim e Louise Madison não podiam ser contidas em um caixão. Mas com Sugarfoot era diferente. Era como se não apenas o seu cavalo, mas toda a sua vida estivesse enterrada ali. Todos os seus sonhos, suas esperanças, toda a sua fé em que as coisas poderiam mudar para melhor.

O xerife Book, ela logo descobriu, já havia estado ali. A cova em si não parecia ter sido perturbada, mas o monte de terra estava cercado por fita amarela, suportada por alguns gravetos fincados no chão.

Realmente aconteceria, ela percebeu, atordoada.

Escavariam a cova de Sugarfoot.

E encontrariam um corpo humano.

Kristy levou a mão à boca, receando estar prestes a vomitar. Não entendia como sabia que as suspeitas do xerife Book estavam corretas, mas sabia.

Ela inspirou fundo várias vezes até a náusea melhorar.

Seus olhos estavam secos. Lágrimas não conseguiriam amenizar a certeza que lhe perfurava a alma.

— Sinto muito, Sugarfoot — sussurrou, antes de virar-se para ir embora. — Eu sinto muito.

Ela voltou para a Blazer, seguindo para Stillwater Springs, sem olhar para a casa velha ao passar por ela. Ao chegar em casa, acariciou o descontente Winston e colocou a areia fresca no caixote dele.

Ela tomou uma demorada ducha quente e vestiu uma de suas enormes camisetas, como costumava fazer todas as noites.

Subiu na sua cama enorme e profundamente vazia, pretendendo ler um pouco, na esperança de acalmar o cérebro agitado, mas as palavras recusavam-se a ficar paradas nas páginas.

Inclinando-se, Kristy apagou o abajur.

Winston saltou para a cama, aconchegando-se ao lado dela.

Conforto felino.

Ela sorriu ante a devoção do animal, acariciando-lhe as costas sedosas com uma das mãos.

Dormir, provavelmente, estava fora de cogitação, mas tinha de tentar. Precisaria abrir a biblioteca pontualmente às nove, na manhã seguinte, independente do que quer que estivesse acontecendo em sua vida.

Porém, o sono acabou vindo e, quando veio, a pegou de surpresa, sufocante e pesado.

Estava escuro e silencioso, do modo como apenas a noite no interior era capaz de ser, exceto pelas batidas fortes do seu coração e a respiração estranha e acelerada do homem de pé ao lado de sua cama. Embora estivesse de olhos bem fechados, a única defesa real de uma criança contra os monstros que se esgueiravam para fora do armário, ela podia sentir o olhar dele sobre si.

Papai!, Gritou, silenciosamente. Papai, me ajude!

E a porta do seu quarto se abriu estrondosamente.

Houve uma briga violenta, palavrões foram proferidos com vozes alteradas.

Kristy só abriu os olhos após escutar a voz da mãe, que a apertou de encontro ao peito macio.

— Ele a machucou, Kristy? Você está bem?

Os barulhos horrendos, agora, vinham de mais longe, da cozinha escura.

A porta dos fundos se abriu com um ranger alto e bateu contra a parede da varanda.

Mais palavrões, pesados e violentos.

Apavorada, Kristy agarrou-se à mãe.

Eles estavam lutando, seu pai e o homem.

Quando é que iriam parar?

E se seu pai se machucasse?

Foi então que escutou o ruído ensurdecedor.

A carabina que o pai guardava na prateleira mais alta da despensa. Como menina do interior, Kristy foi capaz de reconhecer o som.

A mãe de Kristy soltou um grito, um berro agudo e trêmulo de medo.

O som puxou Kristy, tremendo, de volta para a superfície da consciência. Ela correu para o banheiro e vomitou no vaso sanitário, até não haver mais nada para botar para fora.

Esperou até o dia raiar para ligar para o xerife Book.

— Sei o que aconteceu — disse, sem emoção, quando ele atendeu o telefone de sua casa com um sonolento alô.

— Kristy? — Floyd perguntou. — É você?

— Sei o que aconteceu — ela repetiu.

— Você está bem?

Ela sacudiu a cabeça e se deu conta de que ele não podia vê-la.

— Não — disse.

Menos de 15 minutos mais tarde, Floyd estava batendo na sua porta dos fundos, usando roupas civis, de aparência amarrotada. Ela não tinha trocado a camiseta, mas, em nome do decoro, havia colocado um sutiã e vestido calças de moletom.

Kristy teve uma estranha sensação de não estar no próprio corpo ao descrever seu sonho para o xerife, de pé ali na cozinha, com as paredes amarelas recém-pintadas e os primeiros raios de sol entrando pelas janelas.

Esta deve ser a sensação de estar fora de si, pensou distraidamente.

— Achei que devia ter sido algo do gênero — disse Floyd, quando ela terminou.

Em algum momento, ele deve tê-la ajudado a se sentar, pois Kristy ficou surpresa de se ver sentada, em vez de em pé, e não tinha nenhuma lembrança de ter feito a transição.

— E agora? — perguntou, mal reconhecendo a própria voz. — O que acontece agora?

Floyd suspirou. Puxou uma cadeira e sentou-se diante dela, do outro lado da mesa.

— Escavaremos hoje mesmo — disse baixinho. — Depois, o legista levará o corpo, caso haja mesmo um corpo, para ser examinado em busca de evidências. Provavelmente haverá jornalistas pela cidade, fazendo perguntas e tirando fotos. Não vou mentir para você, Kristy, por algum tempo não vai ser fácil. — Ele se interrompeu, corando, desviando o olhar por um instante, antes de voltar a fitá-la. — Mas as coisas melhorarão com o tempo, até voltarem ao normal.

— E meu pai será lembrado como um assassino.

— Tim Madison será lembrado como um homem protegendo a filha e a esposa — o xerife argumentou, com firmeza. — Mesmo que houvesse confessado a coisa toda, Kristy, ele jamais teria sido condenado.

— Foi isso que lhes causou câncer, sabe — Kristy ouviu-se dizer, sua voz atropelando as palavras de Floyd como um rio em câmera lenta. — Mamãe e papai, é claro. Saber o que realmente aconteceu naquela noite. Guardar o segredo. Eles devem ter tido tanto medo...

O xerife Book estendeu a mão, apertando a dela.

— Não há como saber disso — disse, gentilmente. Após longa pausa, perguntou: — Ele a machucou, querida? O andarilho?

Ela sacudiu a cabeça. Havia tantas coisas das quais não tinha certeza, mas, quanto a isso, não tinha dúvidas. Ela devia ter gritado pelo pai naquela noite, e não apenas no silêncio apavorado de seus pensamentos. Ele chegara a tempo.

— Não — disse, mas estremeceu friamente, dando-se conta da extensão do perigo no qual estivera.

— Quer que eu chame Dylan? — Floyd perguntou.

Kristy o fitou brevemente. Apagara o número do celular de Dylan do quadro-negro. Por que o nome dele foi passar pela cabeça de Floyd?

Floyd sorriu, evidentemente lendo seus pensamentos pela expressão do rosto dela.

— Vi a caminhonete dele parada aqui em frente, ontem à noite — explicou. — Enquanto fazia minha ronda.

— Não chame Dylan — ela disse. — Estou bem.

— Tem certeza? Não está com uma cara muito boa, se é que não se importa de eu dizer.

— Tenho de abrir a biblioteca às nove — disse ela.

— Que se dane a biblioteca! A história não vai parar se ela ficar fechada por um ou dois dias.

Ele não entendia. Ela não podia simplesmente fechar as cortinas e aguardar que o céu lhe caísse sobre a cabeça, que os repórteres lhe batessem à porta e o telefone tocasse sem parar com trotes e pedidos de entrevistas. Tinha de seguir em frente, continuar se ocupando, ou enlouqueceria por completo.

— Vou ficar bem — insistiu, sem muita convicção, aparentemente para convencer o xerife Floyd Book.

Ele inclinou-se em sua cadeira, estudando-lhe os olhos preocupados.

— Isto pode ficar difícil antes de terminar, Kristy. Por que não deixa a cidade por uma semana ou duas, ou, até mesmo, por um mês? Desapareça até que o pior tenha passado.

Não estava acostumada a fugir das coisas. Tim e Louise Madison não a haviam criado dessa forma. E Stillwater Springs era o seu lar, o olho da tempestade que estava chegando, é verdade, mas também o lugar onde ela precisava estar para melhor suportá-la.

E ela a suportaria, ou morreria tentando.

A MOBÍLIA do quarto de Bonnie foi entregue logo de manhã cedinho e, tendo passado a noite insone, Dylan se viu resmungando um bocado ao arrumar as coisas.

Bonnie, por outro lado, havia dormido como um anjo da mais pura inocência e, como resultado, estava com o diabo no corpo. Enquanto ele apertava o último parafuso na armação da cama, ela deu um jeito de derrubar o colchão que estava apoiado na parede e, na mesma hora, começou a pular sobre ele.

— Bonnie — disse Dylan.

Ela o ignorou. Uma criança cheia de saúde, subitamente havia ficado surda.

— Bonnie.

Ela o encarou, seus olhos travessos e arregalados.

— História — disse.

— História?

De onde tinha vindo isso?

Bastou pensar um pouco para descobrir. Bonnie havia se encantado com Kristy, e a associara à visita à biblioteca. Daí: história.

— Não temos nenhum livro — ele disse.

— História! — insistiu Bonnie, pulando com mais força e mais alto.

É claro que ela queria Kristy, e não mais um capítulo de Nancy Drew.

— A não ser que queira escutar um artigo da Western Horseman, está sem sorte. — Ele havia encontrado uma pilha mofada da revista favorita do tio numa prateleira no porão, e era tudo que tinha à mão para ler. — E pare de pular... agora.

Bonnie permitiu-se mais um pulo, depois aterrissou no meio do colchão, rindo, como uma criança selvagem. Se ela já era assim aos 2 anos, como seria aos 16?

Era melhor nem pensar nisso.

O celular de Dylan tocou no seu bolso, e ele o atendeu sem olhar o identificador de chamadas.

— Alô?

— D-Dylan?

Sharlene. E estava chorando.

Ele passou o unicórnio rosa para Bonnie, torcendo para que isso a mantivesse ocupada, e caminhou tranqüilamente para a cozinha. Seu coração estava na boca.

— O que quer? — indagou, apoiando-se com uma das mãos na bancada.

Podia escutar Bonnie pulando novamente no colchão.

— Cometi um erro — balbuciou Sharlene. — Quero Aurora de volta.

Dylan fechou os olhos. Receara este momento, sabendo que ele estava vindo, mas, ainda assim, não estava preparado para ele.

— Eu a chamo de Bonnie — disse, calmamente. — E ela vai ficar comigo.

— Clint disse que me levaria para buscá-la, desde o Texas. Tem de devolvê-la para mim, Dylan. Não posso viver sem... Bonnie.

Clint, é claro, era o namorado. Certamente durara mais do que seus antecessores, embora, até onde Dylan soubesse, pudesse ter havido uma troca de guarda no curto período de tempo desde que Sharlene abandonara Bonnie em Vegas.

— Deveria ter pensado nisso antes de abandoná-la na minha caminhonete, Sharlene — Dylan disse.

Os pulos haviam parado. De soslaio, ele pôde ver Bonnie no vão da porta, observando-o, com o lábio inferior fazendo um beicinho. Depois, começou a chupar o polegar.

— Você não sabe como foi — Sharlene argumentou, lamentosamente. — Perdi todo o meu dinheiro nos caça-níqueis e Clint ficou furioso comigo, e eu sabia que você tomaria conta de...

— Bonnie — Dylan completou, severamente. — Olhe, nós não vamos falar sobre isso agora. Tem boi na linha, entendeu?!

— Pelo menos, me diga que ela está bem.

Dylan ficou furioso. Toda esta preocupação vinda de uma mulher que abandonara, durante a noite, a filha de 2 anos de idade para se virar sozinha em um estacionamento atrás de um dos piores bares de Las Vegas.

— Ela está bem — disse.

Bonnie tirou o dedo da boca apenas tempo o suficiente para dizer, aflitamente:

— História.

Tradução: Kristy. Eu quero Kristy.

— Se não pudermos conversar agora, conversaremos em alguns dias — Sharlene continuou, muito confiante, para alguém que provavelmente teria dificuldades para arrumar dinheiro para cruzar os estados que separavam o Texas de Montana, mesmo de ônibus. — Sei que está em Stillwater Springs, Dylan. E estamos a caminho, Clint e eu.

Descobrir onde ele estava não devia ter exigido um grande intelecto. Ele falara um bocado de sua cidade natal, dos irmãos e do rancho quando os dois estavam juntos. Talvez Sharlene fosse mais esperta do que ele supusera. De algum modo, ela advinhara que ele lutaria para ficar com Bonnie, faria qualquer coisa para protegê-la.

Ela queria alguma coisa.

Mais especificamente, dinheiro.

Ele detestava se deixar enrolar, mas detestaria ainda mais perder a filha.

— Diga logo, Sharlene — disse.

— Se tivéssemos alguns milhares para nos ajeitarmos, até Clint acertar com uma das companhias de petróleo...

— Vocês fariam o quê?

— Poderíamos alugar uma casa. Nos estabelecermos e tudo mais. Depois, em alguns meses, traríamos Bonnie para casa...

Bonnie está em casa, Dylan pensou. E de modo algum deixaria Sharlene levar sua filhinha para o Texas, para morar sob o mesmo teto que esse idiota do Clint, fosse ele lá quem fosse. O que aconteceria com a menina da próxima vez que Sharlene torrasse a sua pensão alimentícia e decidisse que não podia tomar conta de Bonnie?

— Quanto, Sharlene?

Se Bonnie havia se dado conta de com quem ele estava falando, não deu sinal. Apenas o observava, sugando com força o polegar.

Ele escutou enquanto Sharlene consultava o namorado, a voz abafada. Ela provavelmente havia coberto o bocal com a mão.

— Três mil — disse, por fim. — Eu lhe darei o número da conta para o qual poderá transferir o dinheiro. Antes do fim do dia, Dylan.

— E, em troca, eu ganho...

— Mais alguns meses com Bonnie.

A sem-vergonha depravada estava disposta a vender dois ou três meses da vida da filha. Dado o histórico de Sharlene, ele não devia ter ficado surpreso, mas ficou.

— Tudo bem — disse, após um longo instante lutando para manter o controle. Ele encontrou um papel e um envelope velho numa das gavetas da cozinha. — Pode me dar a informação.

Ela o fez, sua voz doce e melódica, agora que conseguira o que queria.

— Antes do fim do dia — repetiu, a título de despedida. E bateu o telefone na cara dele.

Ele pegou Bonnie no colo e os dois seguiram para a cidade.

A primeira coisa que fez foi transferir o dinheiro para Sharlene.

Não que os três mil dólares fossem lhe fazer falta. Não passavam de trocados quando comparados às ações que tinha da empresa de Logan, e ganharia tempo para entrar com o pedido de custódia plena. Apesar de tudo isso, ceder ao que não passava da mais pura extorsão era algo muito duro de engolir.

Assim que fez a transferência, acabou seguindo na direção da biblioteca.

Precisava estar perto de Kristy mesmo que apenas por um tempinho e, além do mais, Bonnie não parava de repetir "História".

Kristy estava atrás da mesa da recepção, quando entraram. Ela ergueu na mesma hora a cabeça, como se um alarme houvesse disparado, ou coisa parecida.

Embora estivesse claramente tentando fingir que estava tudo bem para os freqüentadores da biblioteca, Kristy parecia ter sido atropelada por um caminhão. Com inquietante clareza, Dylan foi capaz de enxergar através da encenação dela.

— Acho que precisamos de uns livros — disse, de modo pouco convincente, ao chegar à mesa da recepção. — Bonnie fica insistindo que quer história.

Havia profundas olheiras no rosto de Kristy e ela parecia abatida, como se houvesse perdido 5kg de um dia para o outro. Com pesar, Dylan lembrou-se que as autoridades estavam prestes a revirar o túmulo de seu cavalo, onde esperavam encontrar o corpo de um homem que o pai dela supostamente havia assassinado.

Ele estivera tão envolvido com os próprios problemas, o telefonema de Sharlene no topo da lista, que quase se esquecera daquilo que Kristy estava enfrentando.

— Acho que posso ajudá-lo com isso — ela disse, com uma alegria enfática.

Contudo, as palavras soaram vazias e forçadas.

Ela contornou a mesa piscando para Bonnie, que estava agarrada ao pescoço de Dylan como uma trepadeira, e os conduziu na direção da seção das crianças. Ela selecionou George o curioso. Lua da boa noite e Todo mundo faz popô.

Dylan olhou duas vezes para o último.

Kristy sorriu ligeiramente.

— Bem — disse —, é verdade, você não sabe?

— Não vou ler esse em voz alta — disse Dylan, sentindo-se enrubescer. — De qualquer modo, Bonnie já tira isso de letra. Pode confiar.

— Covarde — respondeu Kristy. — Não se trata de saber como fazer. Trata-se de ficar à vontade com as funções normais do corpo.

Por que ele simplesmente não ficara na caminhonete? Seguido para Missoula, ou algum outro lugar, onde tinham livrarias de verdade, e comprado para a menina uma pilha de histórias alegres que ele não se envergonharia de ler?

Decididamente, ela levou as três escolhas até a mesa, onde as pousou para registrar suas saídas.

— Bem, o que posso fazer por você.

Então era isso. Ela se recordava de sua dislexia, e provavelmente achava que ele era iletrado e que precisava de toda a prática que pudesse conseguir.

Dylan ficou ao mesmo tempo comovido e ofendido.

Ele inclinou-se à frente, sussurrando em sua orelha exatamente o que ela poderia fazer por ele, e se divertindo com o tom rosado que se espalhou pelas faces de Kristy. Pelo menos isso lhe deu um pouco de cor. Antes, estava pálida como leite.

— Dylan Creed — balbuciou, lançando olhares nervosos ao redor, como se preocupada que um dos frequentadores da biblioteca pudesse ter escutado. — Eu estava lhe oferecendo um livro.

Ele simplesmente sorriu. Com o braço livre, gesticulou para que ela percorresse as prateleiras e lhe encontrasse um volume. Bonnie estava encaixada na dobra do outro braço, remexendo-se, querendo ir brincar perto do poste de totens com um bando de outras criancinhas.

— Está na hora da história? — ele perguntou, colocando Bonnie no chão, para que ela pudesse se juntar às outras crianças.

— Não — Kristy disse. — As mães estão todas no cabeleireiro, ou no dentista, ou fazendo compras.

Ela caminhou decidida na direção das estantes, e Dylan a seguiu. Chegando à seção do M, ela pegou Lonesome Dove, de Larry McMurtry.

— Eu já li — Dylan disse. — Cinco vezes. Nem tive de mover os lábios. Quer me fazer algumas perguntas quanto à história?

A irritação brilhou nos olhos dela, rapidamente seguida de mágoa.

— Você pode ter assistido à minissérie — disse.

— Também assisti — admitiu Dylan, assentindo na direção do livro nas mãos dela. — Ele começa com dois porcos tentando matar uma cobra. Não me recordo se o mesmo acontecia na versão para a TV.

Kristy olhou para ambos os lados.

— Preciso falar com você. Em particular. Dylan deu-se conta de que, desde que entrara na biblioteca e avistara o rosto de Kristy, vinha esperando aquilo.

— A que horas você larga o trabalho? — perguntou, observando Bonnie de soslaio, perguntando-se se passaria o restante de sua vida com medo de alguém levá-la quando ele não estivesse olhando.

— Às cinco. Susan vai me cobrir.

— Comprarei alguns bifes e jantaremos lá em casa, então — retrucou ele. — Assim que Bonnie dormir, conversaremos.

Ela pareceu hesitante, depois assentiu.

Posso levar alguma coisa? Ele sacudiu a cabeça. Era apenas um jantar, não uma noite de pura diversão sob os lençóis, mas estava empolgado com a idéia.

— Tenho de levar alguma coisa — ela repetiu. Dylan não se deu ao trabalho de protestar novamente. Era o que o pessoal do interior costumava fazer, quando era convidado para jantar na casa de outras pessoas. Eles apareciam com uma fôrma de bolo coberta com alumínio, ou uma salada em vasilha plástica tampada. Ele estava longe há tempo demais.

— Neste caso, traga o que quiser — disse. Depois disso, trataram apenas de negócios. Ele requisitou um cartão de biblioteca, o primeiro que já tivera na vida, e retirou os livros para Bonnie, incluindo aquele sobre popô.

Bonnie não queria ir embora, mas sorriu de orelha à orelha ao ver os livros.

— História — disse.

— História — Dylan confirmou.

A próxima parada foi na seção de alimentos do Wal-Mart. A mercearia local havia fechado há muito tempo e Dylan sentia falta do lugar, apesar de já ter sido pego roubando um pacote de chicletes lá, aos 7 anos de idade, e Jake ter lhe dado uma coca até chegarem à caminhonete.

Ele pegou os filés e as batatas para assar, coisas para a salada e alguns temperos. Também comprou leite para o copinho de Bonnie, e um frango assado para o almoço.

Assim que pagou por tudo em um dos caixas, ele colocou Bonnie e as compras na caminhonete e seguiu para casa, preferindo tomar um caminho diferente, simplesmente porque tinham tempo. E foi assim que Dylan se viu com o cavalo.

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