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Capa do romance Digitais que Queimam

Digitais que Queimam

Luiza enfrenta uma rotina exaustiva como faxineira e garçonete para custear o tratamento da mãe e sustentar sua casa. Sua vida colide com a de Thiago, um herdeiro e dono de universidade, após um beijo impulsivo em um bar sob o pretexto de um desafio. O destino os une novamente quando ela limpa o escritório dele, revelando a conexão inesperada. Entre realidades sociais opostas e sentimentos intensos, eles precisam decidir se o amor superará os obstáculos.
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Capítulo 2

"Ninguém vai acertá-lo tão forte quanto a vida. Não importa como você bate, e sim o quanto aguenta apanhar e continuar lutando; o quanto pode suportar e seguir em frente."

- Rocky Balboa

O horário das 16:30 era o pior para Luiza. Não que ela fosse frescurento, ou que tivesse nojo de alguma coisa, apenas porque, ela não pensava que a vida um dia chegaria naquele nível.

Ela suspirou, vestido seu uniforme que consistia em um macacão azul de mangas compridas e botas galocha pretas, trazendo consigo o carrinho de limpeza com seu famoso esfregão, baldes, luvas amarelas e esponjas. Parada ali em frente ao banheiro do bloco C, o primeiro do prédio que ela era encarregada de lavar, ela sentiu uma imensa tristeza ao ver um aluno sair de dentro antes dela colocar o famoso "não ultrapasse, piso molhado" na porta.

O garoto devia ter sua idade, e estava ali estudando, coisa que era pra ela estar fazendo. Ela nem reparou quando as lagrimas começaram a cair enquanto dava descarga em cada privada, uma de cada vez, jogando sabão em pó e desinfetante, então colocou as luvas e começou a esfregar a pia.

A vida era injusta as vezes, pensou, levando o antebraço ate a testa para secar o suor. Os alunos a olhavam com reprovação, as vezes cochichavam quando ela passava, e ate teve uma vez que, depois que trocou de roupa e estava indo embora, sem o uniforme de faxineira, um menino a olhou diferente, e ela pensou que talvez... apenas talvez... se a realidade fosse outra, ela teria alguma chance de ser feliz.

Porque era isso, ela não via possibilidade nenhuma de ser feliz. Ela vivia a vida empurrando com a barriga, arcando com as consequências das escolhas de outras pessoas, vivendo e trabalhando pra sustentar outros. E como era difícil conviver com ela mesma! Sua cabeça a acusava só de pensar que talvez ela estava pensando que uma vida diferente seria melhor, afinal, essa foi a vida que foi dada a ela.

Já tinha cerca de dois meses que ela tinha arrumado esse novo emprego. Apesar dos quilos que perdeu por não estar comendo certo, pelas olheiras profundas de dormir as 3 da manha e acordar as 6, o cansaço e a fraqueza mental, financeiramente estava tudo bem. O aluguel tinha sido colocado em ordem, os remédios da mãe tinham sido comprados e a geladeira estava com comida novamente.

Ela já estava no ultimo banheiro do quarto andar quando seu celular apitou mostrando que faltavam dez minutos para as 18 horas. Ela entrava no bar as 18:30.

Terminou de jogar água e rapar o chão, deu descarga novamente agora nas privadas limpas e cheirosas, e saiu até o vestiário dos empregados, guardando o carrinho , desabotoando os primeiros botões do macacão e abrindo seu armário. Pegou a toalha que guardava ali e a roupa que tinha chegado e foi ate o banheiro dali.

A água caía em suas costas, relaxando seus músculos e Luiza daria tudo por uma comida quente e uma cama naquele momento. Mas lavou o rosto tentando dispersar o cansaço, pois era sexta feira, e o bar costumava pegar fogo nesse dia.

Se vestiu e saiu, pegando sua mochila. Nesse dia, de tão cansada, acabou gastando o dinheiro da janta para pegar o ônibus, afinal eram três bairros de distância, ela não ia chegar a tempo se fosse a pé como costumava ir. No ônibus ela sentiu vontade de chorar novamente. Não entendia de onde saia todas aquelas lagrimas, ou tanta dor em seu coração. Tinha 21 anos e se sentia cansada, cansada da vida cansada de tudo. Isso era normal? Sentir tudo isso nessa idade era normal? Querer desistir de tudo nessa idade era normal? As pessoas olhavam de fora, pra Luiza com todas as suas cargas e responsabilidades, com a síndrome do panico que a pegou, a fobia social, o transtorno de ansiedade, viam por fora e falavam "você nem começou a viver pra saber que sente tudo isso". Era difícil viver sem saber que podia contar com alguém.

Ela não podia desabafar isso com sua mãe, no estado em que ela estava, só se sentiria mais culpada por não poder fazer nada no momento para ajudar. A irmã...bem... vivia bem sem saber de tudo, ela não queria traumatizar a irmã ou faze-la ter a vida que ele tinha... Ele desabava com Beatriz, mas a amiga dizia as coisas mais malucas como "você precisa sair de casa", "precisa achar uma boca pra beijar e distrair" "só se vive uma vez, você ta desperdiçando sua vida".

Luíza riu de encontro ao vidro do ônibus. A amiga não estava de toda errada, mas, onde ela arranjaria tempo pra "viver a vida" como ela tanto falava? Quando não estava trabalhando estava dormindo. E era só o que queria e conseguia fazer no momento.

Ela desceu do ônibus no ponto que ficava na esquina do bar requintado onde trabalhava. Pelo menos ter uma aparência mediana lhe concedeu um emprego na área nobre da cidade.

Andou um pouco rápido demais para os fundos do lugar onde os funcionários entravam e sentiu a visão embaçar e escurecer. Se escorou na parede. "Era só o que faltava eu passar mal agora" pensou consigo mesma sentindo a barriga roncar e as mãos tremerem. Ela tinha almoçado uma maçã e um pedaço de batata assada do outro dia. Respirou fundo.

- Mas que merda Luiza, sempre isso. - Pedro, um garçom do lugar a viu e pegou em seu braço.

- Eu to bem.

- Não ta não - ele sussurrou com raiva - entra no banheiro logo que eu já vou la. Consegue chegar? - Luiza assentiu, tateando a parede e indo ate o banheiro dos funcionários. Se sentou da privada esperando a tontura passar, e então ouviu a porta ser aberta e trancada logo depois - Aqui - Pedro disse colocando um sanduíche em sua mão - Tem suco aqui também, meu Deus Luíza, você ta branca, você almoçou hoje?

- Almocei - disse de boca cheia, ainda sem abrir os olhos, saboreando o gosto do pão com presunto e queijo, suspirando ao cair em seu estomago e escorando na parede atras de si.

- Arroz, macarrão, algo assim? - Luiza ficou em silencio ainda mastigando - Sabia... aqui, vai engasgar - disse colocando o suco em sua mão - Você vai acabar caindo doente Lu, precisa se cuidar.

- Eu sei ta, eu sei, to fazendo o que posso. - disse abrindo os olhos e encontrando o amigo abaixado a sua frente.

- Não da pra conversar com você - Ele suspirou se levantando - trouxe seu uniforme, ta em cima da pia, junto com uma banana. Come depois que terminar, ajuda nos músculos. Eu trouxe bolo pra nós dois pra hora do intervalo. - ele foi ate a porta.

- Pedro? - ele a olhou - Obrigada.

As vezes Luiza podia contar com a sorte de ter amigos assim.

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