
Dezoito Chamadas e Um Adeus
Capítulo 2
A conta do hospital chegou numa manhã de terça-feira. Vinha num envelope pardo e discreto, mas o seu peso parecia afundar a mesa da cozinha.
Era a fatura final do parto e da unidade de cuidados intensivos neonatais.
Para o meu filho, Leo.
Que viveu apenas sete horas.
O meu corpo arrefeceu. As minhas mãos tremiam enquanto eu olhava para os números. Cada zero parecia um buraco vazio, um lembrete do que eu tinha perdido.
O fogo. A fumaça. A minha luta desesperada por ar no sexto andar do nosso prédio de apartamentos.
A memória voltou com força total.
Eu estava presa, o corredor cheio de uma fumaça negra e espessa. Liguei para o meu marido, Miguel, uma, duas, dezoito vezes.
Quando ele finalmente atendeu, a sua voz estava irritada, distante.
"Clara, o que foi? Estou ocupado."
"Miguel, fogo! O prédio está a arder, estou presa!"
A minha voz era um grito rouco, rasgado pela fumaça.
Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi a voz chorosa da sua meia-irmã, Sofia.
"Miguel, o meu tornozelo dói tanto. Podes ir buscar-me mais gelo?"
A voz dela era fraca, patética.
Miguel voltou ao telefone, a sua impaciência clara.
"Olha, os bombeiros já devem estar a chegar. A Sofia torceu o tornozelo a descer as escadas, está em pânico. Tenho de cuidar dela. Acalma-te e espera por ajuda."
Ele desligou.
Esperar por ajuda.
Eu estava grávida de oito meses do filho dele.
Olhei para a conta na minha mão. O nome de Miguel estava listado como o cônjuge responsável. Responsável.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
Peguei no meu telemóvel e disquei o número dele. Era hora de acertar as contas.
Você pode gostar





