
Dezoito Chamadas e Um Adeus
Capítulo 3
Miguel chegou a casa tarde, a cheirar a fumo de cigarro e a perfume barato. Ele atirou as chaves para a mesa, sem sequer olhar para mim.
"Dia lixado. O meu pai não me larga. E a Sofia ainda está em choque por causa da queda."
Ele abriu o frigorífico, procurando uma cerveja.
Eu não me mexi da cadeira da cozinha. A conta ainda estava à minha frente.
"Recebemos isto hoje," disse eu, com a voz vazia de emoção.
Ele olhou para o papel, franziu o sobrolho e encolheu os ombros.
"O seguro deve cobrir a maior parte. Depois vemos isso."
Ele estava prestes a sair da cozinha quando eu falei novamente.
"Eu quero o divórcio, Miguel."
Ele parou, virou-se lentamente. A sua expressão passou de cansaço a incredulidade e, depois, a raiva.
"O quê? Estás a brincar? Por causa de uma conta?"
"Por causa do nosso filho morto."
As palavras saíram frias e afiadas.
A cara dele ficou vermelha. "Não te atrevas a usar isso contra mim. Eu também sofri!"
"Sofreste? Onde estavas tu quando eu estava a sufocar? Onde estavas tu quando o nosso filho estava a lutar pela vida numa incubadora?"
"Eu estava a ajudar a minha irmã! Ela precisava de mim! Ela caiu, estava com dores!"
"Ela torceu o tornozelo, Miguel. Eu estava a perder o nosso bebé."
A fúria dele explodiu.
"Pára de ser tão dramática, Clara! Tu sabes como a Sofia é sensível. Ela tem ansiedade! A situação toda foi traumática para ela! Não podes ter um pingo de compaixão?"
Compaixão. Ele pedia-me compaixão pela mulher por quem me abandonou.
"A minha compaixão morreu naquele hospital," disse eu, levantando-me. "Juntamente com o meu filho e o meu casamento. Quero o divórcio."
"Estás a ser ridícula! Estás de luto, não estás a pensar com clareza! Não vou dar-te o divórcio só porque estás a ter um ataque!"
Ele saiu da cozinha, batendo a porta do quarto.
Eu fiquei ali, no silêncio, a olhar para a conta. Não era um ataque. Era a coisa mais clara em que eu tinha pensado em meses.
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