
Dez Anos de Cegueira e Traição
Capítulo 2
A primeira vez que notei algo estranho foi por causa da tela do celular do Ricardo.
Estávamos juntos há dez anos, morando no mesmo apartamento há cinco, e eu conhecia cada mania dele, cada gesto, cada tom de voz, ou pelo menos, eu achava que conhecia.
Naquela noite de sexta, estávamos no sofá, eu assistindo a uma série qualquer e ele, ao meu lado, digitando freneticamente no celular. A tela, que antes era nítida, agora estava escura, coberta por uma película de privacidade. Eu só conseguia ver um vulto dos dedos dele se movendo.
"Ué, trocou a película?"
Perguntei sem tirar os olhos da TV, tentando parecer casual.
Ele parou de digitar por um segundo e virou o celular com a tela para baixo sobre a coxa, um movimento rápido, quase um reflexo.
"Sim, a empresa exigiu."
"Exigiu?"
"É, política nova de segurança, para evitar que informações vazem."
A resposta era plausível, Ricardo era engenheiro de TI numa grande empresa, mas algo no jeito que ele falou me deixou inquieta, um tom defensivo que eu não ouvia há muito tempo.
Continuei assistindo à série, mas minha mente já não estava ali. Eu observava pelo canto do olho. O celular dele vibrou, ele o pegou, inclinou o corpo para longe de mim, leu algo e um sorriso discreto apareceu em seu rosto. Ele começou a digitar de novo, com cuidado para que eu não visse.
O coração começou a bater um pouco mais rápido. Dez anos de confiança não desaparecem de uma hora para outra, mas a semente da dúvida, uma vez plantada, cresce rápido.
No dia seguinte, sábado, ele disse que precisava ir ao escritório resolver uma emergência. Achei estranho, emergência no sábado? Mas não questionei. Fiquei em casa, tentando me concentrar no meu trabalho de designer, mas a imagem da tela escura e do sorriso dele não saía da minha cabeça.
Mais tarde, ele deixou o celular carregando na sala enquanto tomava banho, algo que ele raramente fazia. Geralmente, o celular ia com ele para todos os cômodos da casa. A tentação foi mais forte que eu. Peguei o aparelho. A tela de bloqueio acendeu, mostrando a nossa foto, de uma viagem que fizemos há dois anos, sorrindo felizes.
Uma notificação apareceu na parte superior da tela, uma mensagem no WhatsApp.
"Mariana: Obrigada por ontem, Ricardo! Foi incrível ;)"
Mariana.
O nome era novo. O emoji de piscadela no final da frase fez meu estômago revirar. Quem era Mariana? E o que tinha sido incrível ontem? Ontem ele estava no sofá ao meu lado.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. A confiança que eu tinha começou a rachar, a se quebrar em mil pedaços. Coloquei o celular de volta no lugar exato onde estava, com as mãos trêmulas.
Quando ele saiu do banho, agi como se nada tivesse acontecido.
"Amor, quer pedir uma pizza hoje?"
"Claro, pode escolher o sabor."
Ele respondeu, secando o cabelo com a toalha, sem me olhar nos olhos.
Eu precisava saber mais. Decidi testá-lo.
"Sabe, a Camila me contou que a empresa dela contratou um monte de estagiários novos, uma molecada cheia de energia."
Falei, enquanto folheava o cardápio da pizzaria no meu tablet.
Observei a reação dele. Ele ficou tenso por um instante, só um instante, mas eu vi.
"É, na minha empresa também tem uma estagiária nova, Mariana. Garota esperta."
Ele disse, tentando manter a voz neutra.
Bingo.
A confirmação do nome fez meu peito apertar. Ele não estava apenas escondendo algo, estava mentindo na minha cara, construindo uma narrativa para me enganar.
A oportunidade de ver os dois juntos apareceu mais rápido do que eu esperava. Na semana seguinte, a empresa dele promoveu um happy hour para celebrar os resultados do trimestre, e os funcionários podiam levar acompanhantes. Ricardo me convidou, quase como uma obrigação.
"Você vai, né, Sofia? Vai ser bom pra você se distrair um pouco."
O tom dele era quase condescendente.
Fui. Vesti meu melhor vestido, arrumei meu cabelo, que eu mantinha longo porque ele gostava, e coloquei um sorriso no rosto. Eu precisava ver com meus próprios olhos.
O bar estava lotado e barulhento. Encontramos a mesa da equipe dele e ele me apresentou a todos. E então, lá estava ela.
Mariana era jovem, uns vinte e dois anos, talvez. Bonita, com um ar de quem sabe que é bonita. Usava um vestido curto e justo, e olhava para Ricardo com uma admiração que ia além do profissional.
"Sofia, essa é a Mariana, nossa nova estagiária. Mariana, essa é a Sofia, minha namorada."
A palavra "namorada" soou estranha na boca dele, forçada.
"Prazer, Sofia! O Ricardo fala muito de você."
Mariana sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
"Sério? Ele quase não fala do trabalho em casa."
Respondi, o mais doce que consegui.
Durante todo o happy hour, observei os dois. As trocas de olhares, os sorrisos cúmplices, a maneira como ele se inclinava para ouvir o que ela dizia no meio do barulho. Para qualquer um de fora, poderiam ser apenas um chefe sendo gentil com a estagiária. Mas para mim, que o conhecia há uma década, era um balé de flerte e segredos. Ele a elogiava na frente de todos, dizia como ela era talentosa, como tinha um futuro brilhante. E ela bebia cada palavra, com os olhos fixos nele.
A raiva começou a subir pela minha garganta, quente e amarga.
No caminho de volta para casa, o silêncio no carro era pesado. Eu não aguentava mais.
"Você e a Mariana parecem bem próximos."
"Lá vem você de novo, Sofia. É minha colega de trabalho, minha estagiária. Quer que eu a trate mal?"
A voz dele era ríspida, cheia de irritação.
"Não é sobre tratar mal, Ricardo. É sobre o jeito que você olha pra ela, o jeito que ela olha pra você. Você acha que eu sou cega?"
"Você está vendo coisas onde não existe! Está paranoica! Depois de dez anos juntos, você ainda não confia em mim? Que tipo de relacionamento é esse?"
Ele virou o jogo. A culpa agora era minha. Minha desconfiança, minha paranoia.
Chegamos em casa e eu não disse mais nada. Ele foi direto para o quarto, batendo a porta. Fiquei na sala escura, sentada no sofá onde, dias atrás, eu tinha começado a sentir que tudo estava desmoronando.
Lembrei do início do nosso namoro, quando ele fazia questão de me contar cada detalhe do seu dia, quando o celular dele não tinha senha e ficava jogado em qualquer lugar. Lembrei das promessas, dos planos, de como a gente se olhava. Aquele Ricardo parecia uma pessoa de outra vida. O homem que dormia no quarto ao lado era um estranho.
A dor da decepção era profunda, mas algo mais forte começava a surgir dentro de mim: uma clareza fria e assustadora. Eu não ia ser a tola que se recusa a ver a verdade. Se ele queria jogar, eu ia aprender as regras.
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