
Dez Anos de Cegueira e Traição
Capítulo 3
No dia seguinte, liguei para o meu irmão, João. Ele era a única pessoa com quem eu conseguia ser completamente honesta sobre meus medos.
"João? Tá ocupado?"
"Pra você, nunca. Aconteceu alguma coisa? Sua voz tá estranha."
Ele sempre me conheceu bem demais. Despejei tudo, a película de privacidade, a mensagem da Mariana, o happy hour, a briga. Falei sem parar, a voz embargada, o nó na garganta apertando cada vez mais.
Do outro lado da linha, João ouviu em silêncio. Quando terminei, ele demorou um pouco para responder.
"Sofia... eu não quero te deixar mais nervosa, mas... o Ricardo sempre foi meio vaidoso, meio egoísta."
"Eu sei, mas ele me amava. Eu sei que amava."
"Ele amava a ideia de ter você, a namorada perfeita, a relação de dez anos que todo mundo admira. Mas ele ama mais a si mesmo."
As palavras do meu irmão eram duras, mas necessárias. Ele me fez lembrar de pequenas coisas, de momentos em que a vaidade do Ricardo falou mais alto, em que o egoísmo dele se mostrou em detalhes que eu, apaixonada, escolhi ignorar.
"Lembra quando a gente foi pra praia, no meu aniversário de dezoito anos?" João continuou, "E ele passou o dia todo reclamando que o sol ia estragar a pele dele, e que a areia entrava no tênis caro que ele tinha comprado?"
Eu lembrava. Na época, achei graça, chamei de frescura. Hoje, a lembrança tinha um gosto amargo.
"Ele costumava ser tão carinhoso," sussurrei, mais para mim mesma do que para ele. "Ele me trazia café na cama, escrevia bilhetes..."
"Ele fazia o papel do namorado perfeito, Sof. E ele era bom nisso. Mas as pessoas mudam, ou talvez, elas só mostrem quem realmente são."
Desliguei o telefone sentindo um vazio ainda maior. As lembranças boas, que antes eram meu porto seguro, agora pareciam cenas de um filme de ficção. Aquele Ricardo dos bilhetes e do café na cama, onde ele estava? Olhei ao redor do nosso apartamento, cada objeto comprado a dois, cada foto na parede, tudo parecia pertencer a um passado distante, a uma vida que não era mais a minha.
Naquela noite, a mãe dele nos ligou.
"Meus queridos, e o casamento? Dez anos de namoro, já passou da hora, não acham? A prima de vocês, a que casou ano passado, já está grávida! E vocês?"
Eu senti o sangue gelar. Ricardo pegou o telefone.
"Mãe, a gente tá vendo isso, não se preocupa. Temos nosso tempo."
Ele respondeu com a paciência de sempre. Mas eu sabia, e ele sabia, que estávamos mais longe do que nunca de qualquer altar. A pressão externa só tornava o abismo entre nós mais evidente.
Depois da ligação, tentei me aproximar. Sentei ao lado dele no sofá, coloquei minha mão na perna dele.
"Ricardo, a gente precisa conversar."
"Sobre o quê, Sofia? Sobre suas desconfianças de novo?"
Ele nem se virou para me olhar. Continuava focado no celular, naquela tela escura e impenetrável.
"Não sobre isso. Sobre nós. Eu sinto você distante."
"Eu estou cansado, Sofia. Tive uma semana difícil no trabalho."
Era sempre a mesma desculpa, o trabalho. O trabalho justificava o cansaço, o mau humor, a distância.
"Tudo bem."
Levantei e fui para o quarto. Deitei na cama e peguei meu próprio celular. Abri o WhatsApp e vi o status dele: "online" . Ele não estava cansado demais para conversar, apenas cansado demais para conversar comigo.
Minha ansiedade, que eu lutei tanto para controlar por anos, voltou com força total. Senti a vontade incontrolável de roer as unhas, um hábito que eu tinha abandonado na adolescência. Levei a mão à boca e comecei a roer, com força, até sentir o gosto de sangue. Era uma dor pequena, física, que de alguma forma aliviava a dor imensa que eu sentia no peito. O anel de noivado que ele me dera há cinco anos, com a promessa de um futuro, parecia queimar no meu dedo.
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