
DESTINO TRAÇADO
Capítulo 3
Dropping In
Dropping é quando um surfista "desce" ou pega uma onda sem
prioridade
- Queijo e torrada com Vegemite1? - Perguntou Harper, olhando para minha mudança de roupa e a adição na minha cabeça. Eu balancei a cabeça, enquanto nervosamente puxava o lenço para me certificar de que estava no lugar.
- Você não precisa disso, sabe - Harper disse tranquilamente e se virou de costas para mim e começou a preparar as nossas tortas.
- Eu não estou acostumada a ficar perto das pessoas sem isso. George é a única pessoa que me viu sem - Harper olhou por cima do ombro para mim e parecia chateado.
- Sim, mas eu conheço você um inferno de muito mais tempo do que ele, então pensei que você não precisasse esconder isso de mim Breeze - Eu não conseguia segurar seu olhar decepcionado, e então, muito rapidamente eu desviei o olhar. Como eu diria que era mais importante que ele não me visse assim? Eu não ligava para o que George pensava sobre minha aparência. Embora eu me importasse com o que Harper pensasse. Não deveria importar, nós éramos amigos e além do mais, ele já tinha me visto doente antes, apenas não este tipo de doença.
1 Vegemite - marca registada de uma pasta de untar de carácter alimentício, de cor castanha escura, de sabor salgado e elaborado a partir de extrato de levedura.
- O que aconteceu com o sofá? - A pergunta de Harper quebrou meus pensamentos e me trouxe de volta ao momento presente com a consciência dolorosa.
- O sofá estragou - Eu sussurrei, sem maiores explicações. Estragado nem começava a explicar o quanto eu odiava aquele sofá velho. Bem ali, na nossa sala de estar, no sofá velho que, na verdade estava em perfeitas condições, Harper tinha transado com Naomi. Naquela noite que ele veio até mim e disse que me amava, ele tinha me beijado, então em seguida esteve com ela. Eu não queria tropeçar neles naquela noite. Deus, eu gostaria de poder apagar a visão da minha mente. Tive que obrigar George a despejar o sofá maldito na calçada e então eu tinha comprado um novo. Um "limpo".
- Eu gosto disso. É grande - Continuou Harper, empurrando a torrada com Vegemite e queijo por cima do balcão para mim. Ele tinha cortado em triângulos, do jeito que eu gostava. - Então, vamos falar sobre o elefante na sala? - Eu não tinha ideia de que elefante ele estava se referindo, porque já havia alguns. Na verdade, a sala estava ficando muito lotada e eu estava começando a me sentir um pouco claustrofóbica. - Quão doente você está? - Fiquei aliviada, este era o elefante em questão. Era mais fácil de lidar. Poderia assustar-me pra caralho esse assunto, minha confiança já tinha sido arrastada para as profundezas do inferno, mas era mais fácil do que lidar com meus sentimentos por Harper e seu acidente embriagado.
- Bem, eu suponho que George ligou para você, então suponho que ele contou o básico.
Harper assentiu. - Ele contou, e agora eu quero tudo, então me conte o
resto.
- Eu tenho câncer, o linfoma de Hodgkin. Eu tenho me submetido à quimioterapia e radioterapia. Eu terminei a minha última sessão de radiação há duas semanas e agora eu tenho que esperar.
- Esperar o quê? - Ele perguntou com um pouco de impaciência.
- Haverá consultas de acompanhamento e mais exames de sangue. Mesmo que o câncer tenha sumido desta vez, há uma chance de que possa voltar. A taxa de sobrevivência em adultos com idade inferior a vinte e cinco anos é alta e eu estava razoavelmente em forma e saudável antes - O silêncio encheu a ampla sala de estar, até que eu finalmente quebrei o silencio com a dura realidade da minha situação. - Mas não há garantias quando se trata de câncer. O câncer sempre pode voltar. Eu posso viver meses ou anos - Eu balancei a cabeça em frustração. - Eu preciso me preparar mentalmente para isso. Eu preciso de alguma forma colocar na minha cabeça o fato de que vou morrer mais cedo ou mais tarde - Harper ficou puto de raiva novamente. Seus olhos se focaram em mim com uma intensidade que me fez literalmente me contorcer.
- Então, o que? Você aceita toda essa merda? Você sempre foi tão positiva, esse não é mais o seu estilo? Você só vai aceitar que está morrendo e desistir? - Suas palavras me machucaram, porque elas eram as verdadeiras. Eu sempre tinha vivido com convicção e otimismo e sabia que a minha atitude agora era destrutiva, mas era a verdade. Eu não podia sequer começar a me imaginar morrendo. Os últimos oito meses deveriam ter me preparado, mas tudo o que eles fizeram foi me aterrorizar.
- Não é desistir, é aceitar a realidade! - Argumentei com a minha voz dura e amarga.
Harper pegou meu prato vazio e jogou na pia com força desnecessária. Em seguida, ele passou por mim e pegou meu violão que estava encostado na parede como um amigo perdido há muito tempo. Eu não tocava havia meses. Enquanto eu ainda gostava de ouvir música, o desejo de tocar parecia ter fugido do meu corpo. Harper caiu de costas no sofá e começou a dedilhar o violão em uma melodia preguiçosa que não se parecia com qualquer música, apenas os acordes aleatórios. Sob suas mãos, o violão cantava como nenhum outro, na verdade, foi Harper que me ensinou a tocar. Ninguém mais era tão bom quanto ele. Harper não tinha vontade de tocar na frente das pessoas e por incrível que pudesse parecer, eu ficava emocionada que este era o nosso pequeno segredo. Era algo que eu tinha de Harper que ninguém mais poderia ter. Até que ele
encontrasse sua Sra. Somerville. Certamente ele iria tocar para ela, a garota que seria sua para sempre. O pensamento de que ele iria partilhar a sua música e vida com outra pessoa doía como uma picada.
- Bem, Breeze estou adotando uma atitude diferente - Ele disse em voz alta. Olhei para ele sentado no sofá como se nunca tivesse saído. Como se não existissem as águas turvas que foram colocadas entre nós. - Eu não vou aceitar que você vá morrer mais cedo ou mais tarde. Só vou aceitar a vida - Eu suspirei e esfreguei minhas têmporas com a esperança de aliviar a dor de cabeça maçante que havia montado acampamento ali.
- Você está com dor de cabeça? George disse que você anda sentindo dores de cabeça? - Harper perguntou com seus dedos hesitantes sobre as cordas do violão.
- Não, eu estou bem. Você chegou há apenas uma hora e já esta me irritando - Eu afundei na grande poltrona que estava no canto da sala. Era o meu lugar favorito para sentar no meu silêncio sombrio, olhando para o belo mundo além das enormes portas de vidro e janelas que se estendiam pelo apartamento. O apartamento de Harper, o nosso apartamento tinha vista para o mar e eu poderia me sentar por horas e só ver as ondas rolarem o dia inteiro.
- Disponha - Harper sorriu. Confiava nele para encontrar alegria na minha frustração. - Então, onde está Danny McDick? Eu pensei que ele fosse aconchegante e tivesse mudado para cá - Como os dedos, Harper começou a dedilhar uma melodia suave, uma melodia muito mais irritada zumbia através do meu corpo. A traição de Danny tinha magoado, embora não tanto quanto Harper. Quem eu estava enganando, Harper nunca tinha me traído. Ele não era meu, eu tinha tornado isso muito óbvio quando lhe disse que não poderia cruzar a linha. Que a nossa amizade significava mais para mim do que o romance, enquanto lá dentro eu realmente amava esse homem, com todo o meu coração. Mas foi isso que me manteve firme em toda essa coisa de amizade.
Eu já tinha visto Harper com as mulheres, ele passava por elas como um rato em uma missão. Quantidade obviamente superava qualidade e eu não queria me tornar apenas um número. Eu não poderia viver sem ele, então se
mantê-lo um pouco longe significaria tê-lo para sempre, esse seria um sacrifício que eu faria. Quando finalmente olhei para cima, Harper tinha parado de tocar novamente e aqueles belos olhos azuis tinham ficado frios.
- O que aquele filho da puta fez? - Ele rosnou. Eu amava sua devoção, sua paixão, a preocupação com raiva.
- Nada que você não imaginou no momento em que o conheci - Eu podia ver sua mão apertando forte ao redor do pescoço do meu violão e eu torci como o inferno para ele não estrangulá-lo, esmagá-lo ou algo assim. Era um violão caro, um Maton Messiah, exclusivamente australiano, caro pra caramba e valia cada centavo, felizmente Harper o deixou intacto.
- Breeze, não seja vaga. Eu acho que tem havido segredos suficientes este ano - Minha raiva queimou. Não demorava muito para acordar a raiva dentro de mim nestes dias. Embora eu tivesse segurado uma enorme barra esse ano, me permitia perder a paciência de vez em quando. E o comentário sarcástico de Harper certamente me irritou de uma forma que era melhor ficar sozinha. Eu tinha mantido a minha doença em segredo por muitos motivos. Primeiro e mais importante era permitir Harper "o chutador de traseiro" do ano ser o que queria, "o chutador de traseiro" do ano que ganhou o Quicksilver Pro2 aqui na Gold Coast, sua terra natal. Mesmo se não tivesse acontecido a declaração de amor, o beijo, Naomi, eu ainda teria o deixado ter o seu ano.
- Você realmente quer os detalhes sujos e sórdidos do nosso rompimento, Harper? - Eu gritei. Harper pareceu surpreso com minha raiva e com razão. Esta não era eu, essa raiva, essa turbulência, essa não era a Breeze que ele conhecia, eu não era a Breeze que eu conhecia.
- O mês depois que meu cabelo começou a cair eu fui ao seu apartamento para jantar, sem aviso prévio. Eu tinha estado muito mal durante toda a semana, e estava tendo um bom dia, então pensei que podia surpreendê- lo. Má ideia da minha parte, ou talvez tenha sido uma boa, pelo menos aprendi a verdade sobre Danny McDick. Ele estava fodendo com Naomi no seu sofá, as
2 Quicksilver Pro – é um evento da associação mundial dos surfistas profissionais (ASP).
pernas dela estavam penduradas nos ombros dele enquanto ele transava com ela, enquanto eu estava lá como uma idiota horrível e careca - Eu tinha jogado uma bomba na cara do Harper, que provavelmente chocou como o inferno. Eu não praguejei, mas foda-se se não eu me sentia bem. Minha voz tremeu quando a imagem do meu namorado transando com outra menina encheu minha mente. Isso fez eu me sentir mal e, principalmente, porque me lembrou de encontrar Harper na exata posição. Deus, essa imagem ficou queimado em meu cérebro como um clipe de filme doentio em repetição. Eu odiava isso, odiava e neste momento eu quase o odiava também. - Parece que Naomi tem essa coisa para foder todos os homens da minha vida em sofás - Eu tinha dito, minhas emoções torcidas, meu coração dividido bem no meio. As lágrimas começaram a cair em uma cadência fácil que eu estava muito acostumada. Harper parecia atordoado, mortificado enquanto seus olhos corriam para o novo sofá depois de volta para mim. - Eu vi você - Eu soluçava em derrota. - Você disse que me amava, então estava com ela - Admitir a minha dor não era apenas sobre a traição de Danny, e eu sentia como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros caídos. Esta dor era sobre a traição de Harper. Ele passou a mão pelo rosto, incapaz de olhar para mim por mais tempo, e por que olharia? Eu tinha acabado de expor outro elefante na sala, o tipo de elefante que você não vê por ai. Foi muito estranho, muito emocional. Esse foi o erro bêbado de Harper voltando para mordê-lo na bunda. Isso ia fazer essas águas turvas do nosso relacionamento muito mais sombrias. Por que não eu tinha mantido minha boca fechada? Nós poderíamos ter evitado todo esse confronto feio. Eu já tinha o suficiente para lidar, não precisava disso também. Levantei e rapidamente sai da sala, deixando Harper sozinho por um tempo que tinha certeza de que ele precisava. Com minhas lágrimas fluindo com a força de uma tempestade, eu corri de novo para o meu quarto e voltei para a minha cama. Eu estava chorando tanto que nem sequer ouvi o barulho da minha porta quando ele a abriu, e quase não notei quando ele se deitou na cama atrás de mim. Harper rastejou para debaixo dos lençóis. Passou os braços em volta de mim e me puxou para perto. Mesmo se eu quisesse, estava exausta demais para lutar contra o seu abraço.
- Foi por isso que você substituiu o sofá - Ele sussurrou o reconhecimento. - Droga gatinha, sinto muito. Eu estava bêbado, foi um
momento idiota de proporções épicas e se eu pudesse voltar e fazer tudo diferente, eu faria. Embora Harper precisasse dizer isso, precisando limpar o ar, meu coração quebrou ainda mais. Ele disse que me amava me beijou e agora estava arrependido. - Eu não deveria ter dito nada, você não merecia ser tratada da maneira que eu fiz - Ele fez uma pausa e eu percebi que estava segurando a minha respiração. - Mas eu queria dizer o que disse a você, Breeze. Aquela coisa com Naomi foi uma combinação de bebida e orgulho ferido. Espere, ele não se arrependeu de me dizer que me amava? Rolei um pouco para que eu pudesse ver seu rosto. - Foi por isso que você não me ligou? - A preocupação em seus olhos me dizia o quanto ele lamentava por sua indiscrição, que não era realmente uma nenhuma indiscrição.
- Não - Eu sussurrei com a minha voz rouca de tanto chorar. - Eu não queria estragar o seu ano, você estava tão animado depois do Quicksilver Pro; eu não podia destruir o que você estava trabalhando tanto para construir.
- Breeze... - Harper suspirou quando descansou sua testa na minha. Ele estava tão perto que eu podia sentir seu hálito quente na minha bochecha.
- E eu não quero que você me veja assim - Eu confessei. Após um momento de silêncio, ele me virou para que eu ficasse de frente para ele. Eu tentei, mas era tão difícil ignorar seus belos olhos azuis, mas não tinha jeito, eu fui atraída por eles com tanta força que era assustador.
- Eu vi você vomitar ate colocar as tripas para fora, Breeze, não foi nenhuma dificuldade pra mim, e ainda não é - Eu balancei a cabeça, aturdida que outra lágrima conseguiu escapar do canto do meu olho. Eu chorei lágrimas suficientes nesta vida para me afogar várias vezes. Eu não podia acreditar que elas ainda continuavam caindo. Harper as enxugou com os polegares, segurando meu rosto e forçando minha atenção para ele. Lentamente, uma de suas mãos subiu para o lenço que eu usava e eu agarrei seu pulso para detê-lo.
- Não, Breeze baby. Sou eu, o seu melhor amigo Harper, nós não escondemos nada um do outro - Eu não larguei seu pulso, mas isso não o impediu de tirar suavemente o pano de mim. Minhas pálpebras se fecharam, com um constrangimento que inundou a minha alma. Então eu senti os lábios
macios de Harper na minha testa quando ele pressionou-os lá por algum tempo. Finalmente, ele se afastou e eu fui capaz de abrir os olhos. Ele sorriu para mim com os olhos cheios de sinceridade e malícia.
- Ajudaria se eu raspasse a minha cabeça? - Ele perguntou. De alguma forma, eu consegui sorrir um pouco e parecia tão real que me chocou. Eu balancei minha cabeça.
- Não, eu gosto do seu cabelo, não o estrague por mim - Harper balançou a cabeça e riu.
- Bobagem, menina teimosa, é só cabelo, ele vai voltar a crescer - Harper rolou e me puxou para o seu peito, puxando os cobertores para envolvê- los ao redor dos meus ombros.
- Durma um pouco, baby - Fiquei ali por muito tempo simplesmente ouvindo a batida forte do seu coração, como uma melodia que cantava a vida e a felicidade, até que finalmente comecei a adormecer. Desta vez não se tratava de escapar da dor. Sentia-me feliz, calma e tranquila e não queria nada mais do que descansar no abraço forte de Harper, mesmo que fosse só por uma noite.
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