
Desprezada Online, Rainha Offline
Capítulo 2
Em 2024, o Brasil parou por causa de um aplicativo, o "Alma Gêmea" .
Não era só um app de namoro, virou uma febre, quase um mundo paralelo onde todo mundo queria estar. A promessa era simples, usar um algoritmo avançado para encontrar sua alma gêmea de verdade, a pessoa perfeita para você.
A propaganda estava em todo lugar, na TV, na internet, em outdoors gigantescos. E todo mundo entrou na onda, dos mais jovens aos mais velhos, todos em busca daquele match perfeito.
E no meio dessa loucura toda, existia uma polêmica que alimentava todos os sites de fofoca.
A polêmica tinha nome e sobrenome, Gabriel Mendes.
Ele era o influenciador fitness número um do país, um cara com milhões de seguidores, um corpo que parecia esculpido e um sorriso que vendia qualquer coisa. Ele era o rei do "Alma Gêmea" , o solteiro mais cobiçado.
Até que ele começou a namorar.
E a namorada dele era, segundo a internet inteira, a mulher mais feia do aplicativo.
Os comentários eram cruéis, uma enxurrada de ódio diária. "Como um deus grego como o Gabriel pode namorar esse monstro?" , "Ela deve ser rica, não tem outra explicação" , "Tenho pena dos filhos que eles teriam" .
As montagens, os memes, os xingamentos, nada parava.
E o nome de usuário dela no aplicativo era "Duda" .
Eu era a Duda.
Meu nome é Maria Eduarda Silva, e eu era a namorada "feia" de Gabriel Mendes.
Eu via cada comentário, lia cada ofensa, e meu estômago se revirava. Mas eles não sabiam da verdade, ninguém sabia.
Desliguei o celular, a tela cheia de notificações de ódio. Olhei para o meu reflexo no espelho do meu estúdio de ilustração.
A verdade é que eu não era feia.
Pelo contrário, minha beleza era o meu maior problema. Desde a adolescência, eu não tinha paz, os olhares eram constantes, o assédio era disfarçado de elogio, e eu me sentia um pedaço de carne exposto em uma vitrine. Homens me paravam na rua, me seguiam, me mandavam mensagens invasivas. Eu não conseguia ter uma conversa normal sem que o assunto virasse minha aparência.
Isso me gerou uma ansiedade social terrível, um pânico de sair de casa, de interagir. Eu me isolei. O meu trabalho como ilustradora era meu refúgio.
Quando o "Alma Gêmea" surgiu, vi uma chance. Uma chance de ser eu mesma, sem o fardo do meu rosto. Por isso, usei o filtro de "embelezamento negativo" . Ele distorcia minhas feições, me deixava com uma aparência comum, até mesmo desinteressante.
Pela primeira vez, os homens com quem eu conversava queriam saber sobre meus desenhos, meus livros favoritos, meus sonhos. Eles queriam conhecer a minha alma, não o meu corpo.
E foi assim que conheci o Gabriel.
Ele foi diferente, ou pelo menos, eu achei que fosse. Nosso match foi instantâneo. Conversamos por horas, dias, semanas. Ele era engraçado, inteligente, e parecia não se importar nem um pouco com a minha aparência no aplicativo.
Nos apaixonamos. Ou melhor, eu me apaixonei.
Foram três anos de um namoro totalmente virtual. Três anos ouvindo as fãs dele me massacrarem, enquanto ele me dizia no privado para não ligar, que o que importava era o que a gente sentia.
Mas nas últimas semanas, algo estava estranho.
Gabriel estava distante, respondia minhas mensagens com monossílabos. As nossas longas chamadas de vídeo noturnas ficaram raras.
"Tá tudo bem, amor?" , eu perguntei em nossa última conversa.
"Tudo ótimo, Duda. Só muito trabalho, sabe como é" , ele respondeu, com os olhos mais focados na tela do computador do que em mim. Um calafrio percorreu minha espinha, uma sensação ruim que eu não sabia explicar.
Eu me sentia insegura, com medo de perdê-lo. Talvez as fãs tivessem razão, talvez eu não fosse o suficiente para ele.
Foi então que, do nada, ele me ligou, animado como eu não via há tempos.
"Duda, amor da minha vida! Tenho uma surpresa pra você!" , a voz dele soava eufórica do outro lado da linha.
Meu coração disparou, a esperança voltando com força total.
"O que foi, Gabriel?"
"Hoje à noite, vou fazer uma live especial. Uma live pra oficializar o nosso namoro pra todo o Brasil! Chega de esconder, quero que todo mundo saiba que eu te amo, não importa o que eles achem da sua aparência. Você é a mulher da minha vida!"
As palavras dele foram como música para os meus ouvidos. Eu chorei de alívio, de felicidade. Finalmente, ele ia me assumir, ia me defender.
"Eu te amo tanto, Gabriel" , eu disse, com a voz embargada.
"Eu também te amo, Duda. Esteja online às nove, vai ser histórico."
Passei o resto do dia nas nuvens, preparando tudo. Arrumei meu estúdio, escolhi minha melhor roupa, mesmo que fosse só para uma chamada de vídeo. Eu estava radiante.
Às nove em ponto, a live começou. O número de espectadores subiu para milhões em segundos. O rosto perfeito de Gabriel preenchia a tela.
"Boa noite, Brasil! Hoje é uma noite muito especial pra mim. Como vocês sabem, meu coração tem dona há três anos. E hoje, eu decidi que era hora de acabar com o mistério."
Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Eu sorria para a tela, esperando ele me chamar para a live.
Mas ele continuou, "Muitos de vocês a criticaram, a julgaram, mas vocês não a conhecem. A verdade é que eu esperei por ela por muito tempo. E hoje, ela está aqui."
A câmera se moveu. E ao lado dele, não estava o meu rosto filtrado.
Era outra mulher.
Uma mulher deslumbrante, uma ex-modelo famosa chamada Clara Santos. Ela sorria, um sorriso vitorioso.
Eu não conseguia respirar. Meu mundo desabou naquele instante.
"Gente, essa é a Clara" , disse Gabriel, abraçando-a. "O verdadeiro amor da minha vida. Eu a procurei por anos, sem sucesso. Ela usava um nome de usuário antigo, mas finalmente a encontrei."
Ele olhou para a câmera, com os olhos brilhando. "O nome de usuário dela era Duda. Coincidência, né?"
Não era coincidência. "Duda" era o meu nome de usuário original, o que eu usava antes de me isolar, antes do filtro, antes de tudo. Mas o nome dele no aplicativo era Clara Santos.
E então, o golpe final.
Gabriel pegou a mão de Clara e a levantou. Nos dedos deles, brilhando sob as luzes do estúdio, estavam as alianças de casal. As mesmas alianças que ele tinha me mostrado semanas atrás, dizendo que eram o nosso símbolo, que as usaria na live para me pedir em casamento.
A traição, a humilhação, a dor. Tudo ao vivo, para milhões de pessoas.
Eu não era o amor da vida dele. Eu era só um tapa-buraco, uma sombra com o mesmo nome da mulher que ele realmente queria. Ele me usou enquanto esperava por ela.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não eram mais de felicidade. Eram de ódio.
Ele ia me pagar. Os dois iam me pagar.
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