
Desprezada Online, Rainha Offline
Capítulo 3
A imagem na tela do meu notebook congelou meu sangue, Gabriel e Clara, sorrindo, exibindo as alianças que deveriam ser minhas.
Cada detalhe da cena se gravava na minha mente, o brilho do ouro, a forma como os dedos deles se entrelaçavam, o sorriso presunçoso de Clara.
Ele estava usando a aliança. A aliança que ele me prometeu.
Minha mente voltou para três semanas atrás, numa chamada de vídeo. Gabriel me mostrou a caixinha de veludo azul, abrindo-a para revelar os anéis idênticos.
"Gostou, meu amor?" , ele perguntou, com a voz cheia de uma ternura que agora eu via que era falsa. "É pra gente. Pra selar nosso compromisso. Na live de oficialização, eu vou colocar no seu dedo."
Eu tinha chorado de emoção naquele dia, acreditando em cada palavra. Acreditando que, apesar de tudo, nosso amor era real.
Agora, vendo aquela mesma aliança no dedo de outra mulher, uma dor física me atingiu, como um soco no estômago. Eu me sentia uma idiota, a maior idiota do mundo.
O chat da live explodia. "Sabia! A outra era feia demais pra ele!" , "Clara e Gabriel, casal perfeito!" , "Finalmente ele se livrou daquele peso morto!" .
Cada comentário era um novo golpe.
E então, um detalhe me chamou a atenção, algo que Clara disse.
"Foi tão engraçado quando você me achou, amor. Eu nem usava mais o 'Alma Gêmea' , mas meu perfil antigo ainda estava lá. Clara Santos, que nome brega que eu usava, né?" , ela riu, e a risada dela ecoou no meu apartamento silencioso.
Clara Santos.
Meu corpo inteiro gelou.
Antes de criar a conta "Duda" com o filtro negativo, eu tinha um outro perfil. Um perfil que eu mal usei, criado num impulso, logo que o aplicativo foi lançado.
Por causa do meu trabalho como ilustradora, eu tinha uma pequena base de seguidores, e para manter meu anonimato e evitar o assédio que eu já sofria, usei um pseudônimo.
O pseudônimo que escolhi foi Clara Santos.
Ele não estava procurando por ela. Ele estava me procurando. A mim. A verdadeira eu.
A ironia era tão cruel que eu tive vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Ele encontrou a "Clara Santos" errada, uma modelo famosa que, por uma coincidência bizarra, tinha o mesmo nome de um perfil antigo que eu nem lembrava mais que existia.
E eu, a verdadeira dona daquele nome, a mulher que ele conheceu e com quem se conectou, era a "Duda feia" , a piada nacional.
Ele nunca soube que a garota com quem ele achava que tinha uma conexão era a mesma que ele desprezava publicamente.
De repente, a porta do meu estúdio abriu. Era Lucas, meu melhor amigo desde a infância. Ele morava no apartamento ao lado e tinha a chave do meu.
"Duda? Você tá vendo isso?" , ele disse, com o celular na mão, mostrando a mesma live que eu assistia. O rosto dele era uma mistura de choque e fúria.
Eu não consegui responder, apenas apontei para a tela do meu notebook.
Lucas olhou para a tela, depois para mim, e entendeu tudo. Ele me abraçou forte, enquanto eu tremia incontrolavelmente.
"Aquele desgraçado..." , Lucas sussurrou, a raiva vibrando em sua voz. "Ele te usou, Duda."
Gabriel continuava a falar na live, contando uma história completamente fabricada.
"Eu vi uma foto da Clara há anos, numa campanha publicitária. Foi amor à primeira vista. Eu soube que ela era a mulher da minha vida. Procurei por ela em todo lugar, até que a encontrei no 'Alma Gêmea' sob o nome 'Duda' . Mas ela não queria se expor, então respeitei. Mas agora, finalmente, posso mostrar ao mundo o rosto do meu verdadeiro amor."
Cada palavra era uma mentira deslavada. Ele estava reescrevendo nossa história para encaixar Clara nela. Ele não se apaixonou por uma foto, ele se apaixonou pela minha conversa, pela minha arte, pela minha alma. Mas agora, ele dava todo o crédito a um rosto bonito que nem era o meu.
Eu era um fantasma na minha própria história de amor.
A humilhação pública era insuportável. Os fãs dele, que antes me atacavam pela minha aparência "feia" , agora me atacavam por ser uma "fraude" .
"Então a Duda era só uma conta fake da Clara?" , "Que doente, fingir ser outra pessoa" , "Essa tal de Duda merece ser processada!" .
Eu estava sendo xingada por um crime que não cometi, enquanto a verdadeira culpada, Clara, posava de vítima e de grande amor reencontrado.
Eu me afastei de Lucas e sequei minhas lágrimas. A dor estava se transformando em outra coisa, em uma fúria fria e calculada.
"Eu não vou deixar isso assim, Lucas" , eu disse, minha voz firme pela primeira vez naquela noite.
"O que você vai fazer?" , ele perguntou, preocupado.
"Eu vou expor os dois. Vou mostrar pra todo mundo quem é o verdadeiro Gabriel Mendes. E quem é a verdadeira Clara Santos."
Lucas, que era programador de software, me olhou com um brilho de cumplicidade nos olhos.
"Eu vou te ajudar. A gente vai derrubar esses dois."
A batalha estava apenas começando.
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